Agnès Varda, uma cineasta para cineastas (II), por Walnice Nogueira Galvão

Figura irresistível de iconoclasta sutilmente subversiva: o ar brejeito, o olhar malicioso, a peruquinha bicolor da velhice,  de corte “em cuia” - sem esquecer sua graça.

Agnès Varda, uma cineasta para cineastas (II)

por Walnice Nogueira Galvão

O primeiro longa-metragem, famoso por antecipar a Nouvelle Vague, é La Pointe-Courte (1954), perfeita etnografia de uma colônia de pescadores, catadores de mariscos e carpinteiros de estaleiros, que vivem em cabanas de madeira. Os trabalhadores estão em primeiro plano, em seus afazeres, em sua rotina. São propostas duas sobrevivências a discutir: a da comunidade e a do casal.

Na história de amor vivida por Philipe Noiret e Silvia Monfort, da qual muito se falou devido à “narração paralela”, cada membro do casal relata para a tela sua versão do que se passa entre eles. E que veremos sem tirar nem por logo depois, em Acossado (À bout de soufle), de Jean-Luc Godard, em 1960, quando alternadamente Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg emitem longas tiradas. O filme de Godard foi um sucesso estrondoso.

A atração pelos litorais seria confirmada pela exposição na Fundação Cartier em 2006, de que resultaria um livro, L´île et elle.  Faz parte Quelques veuves de Noirmoutier, documentário com testemunhos de viúvas que vivem nessa ilha, na costa atlântica, onde Varda tem casa de veraneio. Mais tarde expandiria o tema em Les plages d´Agnès, que levaria o César 2009.

A obra-prima, ao ver de quem assina esta coluna, é Les glaneurs et la glaneuse (Os catadores e eu), ponto alto de sua produção.

Agnès vai atrás da vetusta instituição que assegura aos mais vulneráveis o direito de catar do chão as espigas caídas. Na Bíblia, toda a história de Ruth daí decorre: ela e a sogra, ambas viúvas, reivindicam esse direito nos campos em que a messe de Booz é colhida. Ruth acabará se casando com ele, e dessas núpcias se origina a linhagem de Davi. Ou seja, é através desse costume, como em toda história portentosa, que Ruth acaba por se inserir na mais ilustre ancestralidade possível, aquela do Filho de Deus. É o tema de um célebre poema, “Booz endormi”, de Victor Hugo, predileto de Baudelaire, de Proust e de Antonio Candido. Chancelado pela tradição, o costume subsiste em muitas partes do mundo e Varda mostra como está vivo na França.

Um documentário inventivo, artístico e de alcance social como ninguém consegue fazer, só ela. Procedendo com extrema liberdade e empatia, passa pelas obras-primas da pintura clássica, vai até um homem de hoje que só se alimenta daquilo que sobra nas feiras, registra aqueles que sucateiam e reciclam (o respigar da atualidade), vivendo dos restos da sociedade do desperdício, corolário do consumismo. Ali demonstra seu parentesco com eles todos, bem como seu gosto pela sucata, pelos sobras, pela reciclagem. Ganhou o Prêmio Méliès francês de melhor filme em 2000.

Enquanto aguardamos seu último filme, Varda par Agnès (2019), vejamos o penúltimo: Visages Villages, em parceria com o grafiteiro francês JR, exibido na Mostra São Paulo de 2017. JR inventou uma variante, segundo a qual faz fotos de pessoas, fotos depois muito ampliadas e coladas nos muros, como se fossem gigantescos grafites. A diretora filma a viagem com JR pelo interior da França em seu caminhão fotográfico, registrando pessoas e lugares.

JR tornou-se conhecido como militante político, intervindo nas áreas degradadas das metrópoles ocidentais ou na Faixa de Gaza, ali onde pode ajudar, e já operou nas favelas do Rio. Todos se lembram dos ciclópicos olhos de mães de filhos assassinados, a encarar acusadoramente a cidade.

Mas uma obra tão multiforme e tão transgressora como a de Varda não se esgota aí. Há outras realizações, como Jane B. par Agnès V., em que a diretora e Jane Birkin, duas verdadeiras molecas, se divertiram à beça. Ou então seus vídeos, como Bord de la mere – com seu trocadilho entre mer (mar) e mère (mãe), ou Le tombeau de Zgougou, a amada gata, que integrou a família Varda-Démy por vinte anos (2006).

Figura irresistível de iconoclasta sutilmente subversiva: o ar brejeito, o olhar malicioso, a peruquinha bicolor da velhice,  de corte “em cuia” – sem esquecer sua graça.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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2 comentários

  1. Sem esquecer de seu filme que considero mais duro e profético “Sans toi ni loi” com Sandrine Bonnaire jovenzinha. Agnès Varda era realmente uma grande figura. Morou nos ultimos anos (não sei desde quando) na rua Daguerre no Paris 14 ème, onde algumas vezes encontrava Agnès flanando entre a feira e o comércio da charmosa rue Daguerree e ela era sempre ouvidos a quem tinha algo a lhe dizer e batia papo com todos. Seu darradeiro documentario Agnès par Agnès ou Les Causeries d’Agnès demonstra toda sua inteligência em levar para as artes a vida como ela é.

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