Ajudando a repensar nossa universidade pública, por Renato Dagnino

Ajudando a repensar nossa universidade pública

por Renato Dagnino

Este texto procura ajudar esse repensar tratando do contexto em que ele precisa ser situado.

Ele enfoca algumas razões estruturais e sistêmicas da difícil situação em que se encontra nosso sistema de fomento às atividades de pesquisa e ensino.

O objetivo é evidenciar aspectos relativos à interface entre a policy e a politics que condicionam essa situação ainda pouco analisados pelos atores sociais direta e indiretamente envolvidos com a elaboração das políticas de ciência, tecnologia e inovação (PCTI) e de ensino superior (daqui para frente, “política cognitiva”).

Entre essas razões, destaca-se a diminuição do poder de convencimento da lógica imposta hegemonicamente pela elite da comunidade de professores e pesquisadores no âmbito do processo decisório que origina a “política cognitiva”; especialmente aquela concernente às “ciências duras” (em contraposição às Humanidades), que são as que aqui se focaliza.

Baseada na noção de que o fomento àquelas atividades nas universidades e demais instituições públicas de pesquisa científica e tecnológica é uma condição absolutamente necessária para o crescimento e o desenvolvimento, essa lógica até há pouco consensualmente aceita tem sido questionada e explicitamente criticada por políticos e outros tomadores de decisão. Fato que levou à restrição dos recursos alocados àquelas atividades e que está na raiz da presente situação.

Ela é, por isso, distinta das que ocorreram em diferentes momentos quando os recursos alocados àquelas atividades foram quantitativamente limitados. Verifica-se, denotada no discurso desses dirigentes políticos, uma mudança qualitativa na forma como avaliam seu potencial de contribuição para a consecução das metas das políticas públicas que cabe a eles elaborar.

Tende assim a reforçar-se, no âmbito de nossa sociedade, retroalimentando a nova racionalidade estatal, a noção de que o modelo de desenvolvimento adotado prescinde daquelas atividades de pesquisa e formação de pessoal.

Numa das pontas de nosso espectro socioeconômico, a classe empresarial parece cada vez mais duvidar que o seu resultado precípuo, o pessoal especialmente qualificado para realizar a P&D que poderia levar a um aumento do lucro que ela aufere. Há suficiente evidência empírica que mostra que essa lógica é disfuncional para a estratégia inovativa das empresas “brasileiras”.

Economicamente racional e sensatamente adequada à periferia do capitalismo, ela está, mais do que no nacional-desenvolvimentismo, escorada na aquisição de máquinas, equipamentos e insumos mais modernos necessários para produzir aqui “no sul” o que já existe “no “norte”.

Dada a importância que na atual conjuntura recessiva assume a pressão exercida pela classe empresarial sobre os dirigentes políticos para que não diminua o subsídio concedido aos seus negócios, dissemina-se na sociedade a ideia de que a comunidade de professores e pesquisadores envolvidos com aquelas atividades, mais do que dispensáveis seriam injustificadamente privilegiados. O que faz que até mesmo o caráter público das mesmas venha sendo ameaçado.

Na outra ponta daquele espectro, encontra-se a classe subalterna. A demanda cognitiva associada às suas necessidades materiais nunca foi decididamente incluída pela elite daquela comunidade na sua agenda de pesquisa; e por que o seria, se a tecnociência é por ela entendida como neutra, “sem partido”, verdadeira e universal? Os do “andar de baixo”, que nunca foram convidados (e nem se sentiram qualificados) a participar do processo decisório da “política cognitiva”, tendem a ser facilmente manipulada por aquela ideia.

No meio daquele espectro, a classe média se encontra dividida. Seu segmento cooptado pelo ideário neoliberal do Estado mínimo apoia um cenário futuro de redução da despesa com as instituições públicas de C&T e de ensino superior. O segmento que apoia a manutenção do gasto em áreas como a de saúde, educação, etc., que é aquele no qual se insere aquela comunidade, não conhecem os indicadores que evidenciam que essa despesa é quase irrelevante para o desempenho das empresas, que seriam as viabilizadoras do transbordamento que melhoraria a vida dos pobres. Por isso, não questiona aquela lógica e anseia a volta a um passado política e economicamente inviável engendrado por ela.

A maioria dessa comunidade, sem notar a pouca aderência da “política cognitiva” atual ao cenário de maior justiça e igualdade que deseja, ainda apoia o discurso pouco realista de sua elite. Sua disfuncionalidade e a realidade indefensável que ele encobre não são percebidas.

Este texto cumprirá seu objetivo se o “repensar nossa universidade…” se inserir num processo que se está iniciando e que depende, mais do que outros com o mesmo fim, daqueles com ela diretamente envolvidos. Trata-se de orientar o potencial das instituições públicas de ensino e pesquisa para satisfazer as demandas cognitivas da parcela mais pobre de nossa sociedade. A qual, embora seja a geradora dos recursos públicos que o tornaram possível, muito pouco dele tem usufruído.   

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4 comentários

  1. “Trata-se de orientar o

    “Trata-se de orientar o potencial das instituições públicas de ensino e pesquisa para satisfazer as demandas cognitivas da parcela mais pobre de nossa sociedade.”

    Em outras palavras, isso significa dizer que a universidade brasileira tem que buscar dar soluções aos problemas nacionais e atender ao “mercado interno” de inovação. Este último, porém, não se trata de um mercado, no sentido usualmente visto da palavra, ligado ao comércio e a realização de lucros. Trata-se justamente da demandas internas não providenciadas por este, e por isso não pode ser medido por um critério de retorno financeiro, mas sim de importância política e estratégica para o país. O problema surge aí. Como fazer isso se a própria classe dirigente do país é anti-nação e por isso despreza o que é estratégico para o desenvolvimento do país ? Quem vai dizer à universidade o que ela deve pesquisar, em quais problemas ela deve se debruçar ? A burocracia estatal não se importa com isso, ela se importa apenas em mostrar números de produção sem se importar com as direções do que está sendo feito e para onde vai. Fica assim a universidade brasileira muito dependente do surgimento de uma liderança com visão de país, coisa que é rara de ocorrer por estas terras.

  2. Não quero ser muito violento

    Não quero ser muito violento porque sempre estudei em federais e pelo que aprendi sou muito grato. Mas na verdade não tenho um palavrão definido para dizer o que realmente penso delas. Especialmente dos feudos criados pelos professores e da mediocridade, obsolescência e obtusidade da CAPES. Torram montanhas de dinheiro e seu impacto na sociedade é quase zero.

    Na verdade não passam de uma forma medíocre de dar a classe média imbecil a entrada a alguma profissão que dá bom rendimento salarial. E quando um filho de classe média chega lá é por conta da tal “meritocracia”. Idiotas.

    Se formos avaliar as federais como produtoras de conhecimento, tecnologia, inovação, soluções e respostas para os nossos problemas vemos que o resultado é uma montanha de dinheiro gasta na mais inacreditável estupidez.

    Não temos UMA federal entre as 100 maiores do mundo com todo dinheiro que é investido.

    Todo sistema educacional tem que ser repensado. As federais incluso. Mais dinheiro? Sim. Mais qualidade? Sim? Mas também mais cobrança pesada no retorno para sociedade.

  3. Quando o produto não encontra a demanda

    Creio que é a propria universidade que alimenta a noção de que o modelo de desenvolvimento adotado neste momento no país prescinde daquelas atividades de pesquisa e formação de pessoal. Dois exemplos ilustram esta falta visão das universidades:

    1) em nenhum momento do REUNI as universidades discutiram a qualidade do gasto com o recurso que foi disponibillizado. Foi uma oportunidade importante que perdemos de conhecer as demandas da “classe subalterna”. Sem pensar, alocamos os parcos recursos do REUNI em prédios novos ou reforma daqueles que estavam em decadencia. Em nenhum momento pensamos em um sistema moderno de ensino a distancia que pudesse inclusive ser utilizado no ensino médio da rede publica. Nada disso, construimos conjuntos de salas (iguais aquelas que tinhamos antes do advento da internet e das Novas Midias…) que necessitam de estacionamentos gigantescos, segurança, luz, agua, manutenção etc. Com o software um pouco mais sofisticado que o Remind (https://www.remind.com) poderiamos atender grande numero de estudantes utilizando monitores sem necessidade de gastos com salas de aula.

    2) poderiamos detectar a demanda da classe subalterna fortalecendo a extensão universitaria, não o fizemos. Ainda hoje a extensão nao possui uma matriz orçamentaria (embora o edital do PROEXT tenha representado um ganho importante). Extensão poderia ser um motor para uma universidade mais dinamica que incluisse aqueles que nunca tiveram acesso a universidade. Perdemos essa possibilidade. O Plano Nacional de Educação determina 10% dos creditos em extensão e em nossos curriculos poucos cursos atendem tal determinação.

    Estranhamente, a universidade produz o discurso do novo e segue valorizando as praticas estabelicidas e consagradas.

    Creio que Sergio Torggler apontou dois gargalos importantes no Marco Lega da Ciencia, Tecnologia e Inovação que ajudam a atender o quanto de participação as universidades tem na crise que iremos viver daqui pra frente: a produção do conhecimento exclusivamente realizada por funcionarios publicos (que não se veem na necessidade de produzir conhecimento onde a meta é que um produto encontre a demanda) e o modelo de acesso ao financiamento (sempre capitaneado por alguem com titulo de doutor). Ressalto o seguinte trecho do comentario no post de Sergio:

    “Projetos independentes também são penalizados por que as regras valorizam o nível de relacionamento institucional e a participação da pesquisa em linhas estabelecidas e consagradas. Isto tudo resulta em pesquisas com alto efeito endogâmico e de baixo impacto na inovação. No processo de avaliação pelos pares (blind review), as idéias revolucionárias também são preteridas, muitas vezes pelo medo do desconhecido, estes avaliadores recusam avaliar imparcialmente a solução.Como um empreendedor de P&D pode conduzir um projeto se não tem recursos para seu sustento e cobrir os custos administrativos.Por isso, só se faz financiamento de pesquisa com entidades públicas porque se entende que o custeio do pessoal já é contemplada pela entidade.Na pesquisa há falta de competição, de compromisso com o resultado no mercado. O direcionamento é para uma pesquisa 100% avaliada por publicação, por critério meramente acadêmico.”

    https://jornalggn.com.br/noticia/entidades-de-classe-repudiam-marco-legal-da-ciencia-e-tecnologia

     

    temos jovens incriveis, capazes, sequiosos de uma boa formação mas que atendemos com mais do mesmo: aulas expositivas, provas descontextualizadas, e pouco incentivo a inovação. Como inovar se o estudante passa a maior parte do tempo copiando do quadro e do livro ?

    se a universidade mostrasse a sociedade que perseguimos o novo, a inovação através do ensino adequado aos nossos dias, a um dialogo com a classe subalterna via extensão e uma pesquisa onde os pordutos buscam encontrar a demanda não creio que estariamos nessa posição de vitima que iremos adotar daqui pra frente.  

     

     

     

  4. Eu vejo o futuro(do Brasil) repetir o presente (dos EUA).

    eu espero viver o bastante para ver daqui há alguns anos as pessoas na internet fazendo as mesma criticas que se fazem hoje nos EUA ao ‘modelo americano’ de Universidade: produz idiotas robotizados, são dominadas pelas grandes empresas que só financiam pesquisas inuteis para a sociedade, com valor de marketing – a manteiga é uma maravlha para a saúde e a margarina é mortal diz pesquisa financiada por produtores de manteiga; a margarina é o alimento mais saudável do mundo, um colher de chá de manteiga mata, diz pesquisa financiada por produtores de margarina -, pessoas com diploma de curso superior que não encontram emprego em sua área, as ciencias sociais e humanas sendo dizimadas  tornado cada vez mais dificil o convívio social pois aprender a conhecer o outro é desperdicio de dinheiro, estudantes escravos da divida. Parece que no Brasil muita gente vê o futuro como sendo o passado de outros países.

    E para usar outra paráfrase, talvez a classes populares não queiram ‘só comida’ queiram ‘conhecimento e arte’. Vale a pena perguntar para eles ao invés de dizer o que os outros querem, não? Parece que muitos professores Universitários não se livram de um vício profissional: falar em nome dos outros, os pobres coitados desvalidos….

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