Alto índice de reeleição e vitórias do DEM apontam para retorno ao centro

Nas capitais, dos 13 candidatos à reeleição, 6 foram eleitos no primeiro turno e 6 vão ao segundo turno. Com eleição municipal, partidos tradicionais se fortalecem

Bruna Prado/Getty Images

Por Grasielle Castro

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A expectativa de que o clima de renovação gerado com a eleição de 2018 fosse virar uma nova página na política brasileira não durou nem dois anos. Com a queda na popularidade do presidente Jair Bolsonaro, maior ícone dessa reorganização de forças, e os impactos da pandemia de coronavírus, o que se viu nas eleições municipais deste ano foi um retorno ao centro e fortalecimento de nomes tradicionais da velha política.

Considerando apenas as capitais, este primeiro turno teve como destaque o índice de reeleições — 6 de 13 candidatos já estão eleitos, outros 6 vão ao segundo turno —, além do fortalecimento de partidos como DEM e do PSDB. Embora não seja recomendado comparar as eleições municipais com as majoritárias porque este é um pleito local, há uma ressalva por causa da expectativa criada com a prevalência de novatos na eleição anterior. O cenário atual é praticamente oposto do que ocorreu em 2018, quando houve uma ascensão meteórica da “nova direita”, puxada especialmente pelo fenômeno PSL, partido pelo qual Bolsonaro se elegeu.

A sigla, que em 2018 cresceu mais de 500%, fez a segunda maior bancada na Câmara e elegeu 3 governadores na esteira do bolsonarismo, não levou nenhuma capital. Estrela do partido na eleição majoritária, a candidata à Prefeitura de São Paulo, Joice Hasselmann, teve 3 vezes menos votos do que conseguiu na eleição passada quando foi eleita deputada federal. Há dois anos, ela teve mais de 1 milhão de votos, sendo 289 mil na capital paulista. Neste domingo (15), teve 98 mil.

Uma das explicações para o baixo desempenho do PSL é a queda na popularidade do presidente. Tanto que usar o nome de Bolsonaro como padrinho político não foi sinômino de crescimento nas urnas. Um exemplo é Celso Russomanno (Republicanos), candidato derrotado à Prefeitura de São Paulo. E nem mesmo pessoas diretamente ligadas a Bolsonaro se saíram bem, como a ex-mulher Rogéria Bolsonaro e a ex-funcionária Wal do Açaí, que usou nome Wal Bolsonaro ― ambas foram derrotadas.

O destaque, porém, ficou por conta de Carlos Bolsonaro (Republicanos), que foi reeleito vereador, mas perdeu o posto de mais votado. Ele teve 71 mil votos, uma redução de 34% na comparação com 2016, quando liderou a corrida e obteve 106 mil votos. Desta vez, Tarcísio Motta (PSol), que tinha sido o segundo mais votado em 2016, com 90 mil votos, foi o campeão de votos, com 86 mil.

Junto com a baixa no índice de aprovação de Bolsonaro, ruiu a tese da eficiência do “outsider”. Um dos fatores que levou a essa conjuntura foi o jeito como Bolsonaro lidou com a pandemia de coronavírus. Pesquisa Ibope divulgada em setembro mostrou que 3 em cada 10 pessoas acham que presidente é responsável pela situação da pandemia no Brasil, enquanto apenas uma pessoa em cada 10 culpa os governadores. O País é o terceiro com mais casos de covid-19 e o segundo com maior número de mortes.

Bolsonaro tem minimizado a doença. “Tudo agora é pandemia. Tem que acabar com esse negócio, pô. Lamento os mortos, lamento, mas todos nós vamos morrer um dia. Aqui, todo mundo vai morrer”, disse ele na última terça-feira (10). Ele também tem rivalizado com governadores, especialmente com o governador de São Paulo, João Doria, sobre o enfrentamento à crise sanitária.

A vez dos já conhecidos
As medidas que o País tem adotado para lidar com o vírus também estão entre os fatores que tiveram impacto no resultado apresentado neste domingo. Além de o pleito ter sido adiado de outubro para este mês, a campanha foi menor. Como o novo coronavírus se dissemina com o contato humano e com mais agilidade em aglomerações, os principais eventos de campanha, como comícios e caminhadas, foram afetados.

Especialistas ouvidos pelo HuffPost no início da campanha alertaram que o isolamento social beneficiaria os candidatos que já eram conhecidos e testariam a capacidade de fazer campanha pelas redes sociais.

“A campanha municipal, que geralmente é de muito corpo a corpo, eleitores muito próximos, está com mais limitações. Claro que está tendo evento na rua, mas não tem aglomeração. Basicamente o mundo digital ganhou muito mais tempo e recurso nas campanhas. E isso é um fenômeno global”, explicou ao HuffPost Maurício Moura, fundador do Instituto Idea Big Data e autor do livro A eleição disruptiva: Por que Bolsonaro venceu.

Essa análise ajuda a explicar a possibilidade de reeleição de quase todos os candidatos que estão tentando mais um mandato nas capitais. Dos 13, 6 foram eleitos no primeiro turno. São eles: Rafael Greca (DEM), Curitiba; Gean Loureiro (DEM), Florianópolis; Cinthia Ribeiro (PSDB), Palmas; Marquinhos Trad (PSD), Campo Grande; Álvaro Dias (PSDB), Natal; e Alexandre Kalil (PSD), Belo Horizonte.

Outros 6 estão no segundo turno. São os atuais prefeitos de Porto Velho, Rio Branco, Cuiabá, Aracaju, Rio de Janeiro e São Paulo. Apenas Nelson Marchezan Jr (PSDB), que tentava a reeleição em Porto Alegre, foi derrotado em primeiro turno.

Além de ter levado duas capitais, o DEM conquistou a Prefeitura de Salvador, com a vitória de Bruno Reis, vencendo em 3 das 7 capitais que decidiram a eleição no primeiro turno. Há ainda possibilidade de resultado positivo para o partido no Rio de Janeiro, com Eduardo Paes que disputará contra o atual prefeito Marcelo Crivella (Republicanos), e em Macapá, que teve as eleições suspensas, mas tem Josiel Alcolumbre ― irmão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM) ― entre os que estão na disputa. O PSDB, que já garantiu duas capitais, tem chances de levar mais duas no segundo turno, a de Teresina e a de São Paulo.

Os dois partidos foram fundados nos anos 1980 e estão entre os mais tradicionais do País. O DEM hoje tem sob seu comando as presidências que compõem o Congresso, a da Câmara, com Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, com Davi Alcolumbre (DEM-SP) ― ambos estão na linha sucessória da Presidência. Já o PSDB governou o País por dois mandatos, com Fernando Henrique Cardoso, entre 1995 e 2002.

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2 comentários

  1. Que volta ao centro que nada, a volta foi ao CENTRÃO cujos partidos (DEM, PP) estavam em vias de desaparecer antes do golpe. Os partidos fisiológicos se sairam muito bem, com suas campanhas regadas a recursos que os deputados receberam regiamente para votar com o governo que está ai.

  2. O erro da análise é não considerar que praticamente não houve campanha e a mídia hegemônica só fala desses candidatos, logo os políticos fisiológicos do centrão que estão aí há mais de um quarto de século (Amazonino Mendes começou na política em 1983 => 37 anos ou Rafael Greca 1993 => 27 anos) e mais algumas centenas de políticos que possuem uma tradição de clientelismo foram favorecidos.
    Os partidos de esquerda aceitaram um jogo de cartas marcadas por isso não tiveram grandes vitórias.
    Tem que levar em conta que com a queda do governo Dilma e a derrota durante a lava-jato, os políticos que cresceram na esquerda saíram da política porque precisavam se sustentar, já o centrão ficou mamando nas tetas sem nunca ter saído do fisiologismo e o clientelismo, mesmo morrendo seus filhos e netos seguem com a mesma carreira.
    Por outro lado nas câmaras de vereadores apareceram dezenas de novos políticos de esquerda, que se houver eleições em 2022 estarão aí.

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