“Arbeit macht frei” (O Trabalho Liberta)
por Manfred Back
Segundo Marx, as ilusões (burguesas) são ilusões de uma sociedade que necessita de ilusões; as ilusões fazem parte do metabolismo social.
Não tenho a menor dúvida, que o lema dos campos de extermínios, nascidos como campos de trabalhos forçados, seria lema dos pais do liberalismo inglês! Do que o trabalho liberta?
Da ociosidade! O inverso seria: não fazer nada, liberta! Na moral do liberalismo inglês, o trabalho que liberta é o produtivo, aquele que produz mercadorias, destinado exclusivamente para a troca. E a liberdade é exclusiva dos produtores. Liberalismo não é sinônimo de democracia, muito pelo contrário, pressupõe uma liberdade segmentada, a liberdade econômica estratificada. O homem livre, o homem capaz de dispor livremente da sua vontade, é o proprietário. O não-proprietário é um homem não livre, pois não tem livre disposição de sua vontade.
Nos lembra Belluzzo: a ordem natural nos diz o contrário: que os homens são iguais e que as relações entre eles e as coisas são relações de apropriação, e que essas relações de apropriação são justificadas pela ação humana. A relação mais natural do homem na sociedade é o trabalho. Com as relações de trabalho vem o direito de se apropriar das coisas.
Aos liberais de consulta ao ChatGPT e adeptos de frases jogadas ao vento de Ludwig Von Mises, nossos fundadores do liberalismo inglês eram totalmente favoráveis a intervenção do estado. Em que sentido?
Ao estado cabe cuidar dos recalcitrantes, os mendigos, os vagabundos e os desempregados que se recusam a trabalhar. Os autores alertam qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. Nessa discussão que cheira a mofo da escala 6×1, podemos lançar a ideia de Jonh Locke a nossa elite proprietária tupiniquim, que exala o cheiro do liberalismo inglês com todos os seus aromas. Nosso liberal inglês propõe em reeducar quem se recusa a trabalhar. Ideia abraçada por Toquecville e Burke,e os nossos liberais travestidos de libertários membros do centrão do congresso nacional: o indivíduo que se recusa a trabalhar precisava ser ressocializado de maneira compulsória. Proposta: o Estado deve obrigar que, aos domingos, os recalcitrantes fossem à igreja para repensar e se reeducar. Podemos tornar essa proposta mais abrangente e ecumênica, obrigados a comparecer a qualquer culto religioso. Interessante para quem combateu a sociedade hierárquica do catolicismo usar Deus como reflexão contra a vadiagem, O pecado capital do ócio. Perguntar não ofende: onde está a liberdade e livre-arbítrio do indivíduo? Democracia e liberalismo têm correlação negativa! Não há nada de contraditório o pleno convívio entre o liberalismo econômico com ditaduras e governos de extrema direita! Nada!
Nosso lema positivista da bandeira brasileira tem um erro moral e filosófico, depois da palavra ordem deveria vir escrito a palavra progresso produtivo. A ordem aqui é natural da economia política, acima de todos, e o progresso é o da produção voltada exclusivamente a troca.
I have a dream,eu tenho um sonho…
Free at last
Free at last
Free at last
Manfred Back bacharel em Ciências Econômicas pela PUC-SP, mestre em Administração Pública pela FGV-SP. Atuou como Trader na bolsa de valores (BOVESPA), como operador na mesa de operação de renda variável e futuros, como economista-chefe, como gestor de carteira e fundo de ações. Professor de microeconomia, macroeconomia, mercado de capitais e derivativos de graduação, pós-graduação e de ensino fundamental.
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Antonio Uchoa Neto
2 de junho de 2026 1:03 pmO trabalho liberta. Do quê?
Só Jesus salva. Do quê?
Frases inúteis, se não definimos o que é (e se existem) a Liberdade e a Salvação. E se não dimensionamos a escravidão e a perdição.
“…chama-se a escravidão de liberdade, e a liberdade passa a ser a escravidão. Salários em lugar de chicotes. (…) sair do cômodo e confortável império do chavão, do lugar comum, cujo mérito e substância estão ao alcance de todos, em relação à liberdade, e dela não falar lisonjeira e laudatoriamente, em geral, costuma não apenas ferir suscetibilidades pontuais, mas dar causa a um universal alarido de protesto, que pode inclusive tornar-se violento – talvez a herança filosófica e moral mais duradoura da Revolução Francesa, e seus cacoetes universalistas. (…) porque a liberdade de que hoje supostamente desfrutamos, é uma mercadoria – que é a última forma de que a vestiu o último tipo de homem que logrou sucesso nessa empreitada: o burguês revolucionário na França. (…) o burguês europeu que proclamou os valores universais por excelência – Liberdade, Igualdade, Fraternidade – julgou estar no pináculo da experiência humana; e nem o farto sangue derramado, e nem as cabeças que rolaram, e nem as guerras que se seguiram, em consequência dessa altiva e elevada realização, iluminista por excelência, chamaram-no à atenção de que aquelas, talvez, não fossem verdades tão universais, assim. Talvez sequer fossem verdades. De qualquer forma, descendo à força a goela dos outros, revelavam possuir outros sabores, não tão doces. Há resistência à proclamação desses valores absolutos, sempre, a princípio daqueles que foram sobrepujados pela nova realidade, e posteriormente, por aqueles que, ou ficam de fora dos benefícios dessa nova ordem, ainda que tenham contribuído para sua instauração, tanto os imediatos quanto os que se projetam para o futuro, e passam a reproduzir a mesma insatisfação vulcânica que, no passado recente, os empurrou para a frente ao lado dos novos vitoriosos, de quem terminam por se separar e enfrentar, ou ainda (…) os que seguem sem nenhum benefício em ambos os regimes – ancién ou nouveau – reduzidos ao seu papel habitual de bucha de canhão, cuja oferta é sempre abundante. E muito menos sua atenção é despertada quando algo, alguém, ou um grupo, as toma, a uma dessas verdades universais, como uma propriedade, supostamente para dividi-la com os outros; se assim é, por que delas se apropriar? (…) Em outras palavras, (…) só se pode falar em Liberdade (…) para louvar-lhe, fazer o seu elogio, e proclamar sua absoluta necessidade e beneficência, sem questionar, em profundidade, se tão nobres e louváveis circunstâncias, de fato, correspondem à realidade do mundo em que vivemos, se fazem, de fato, parte de suas fundações, e se tem, fora da abstração da propaganda, efeito sobre as nossas vidas.”
Antonio Uchoa Neto, in “Fenomenologia do Desempregado”, Kotter, 2024.