As ambições psicototalitárias do capitalismo de vigilância, por Fábio de Oliveira Ribeiro

As possibilidades políticas dessa ferramenta foram amplamente utilizadas para garantir a vitória do Brexit na Inglaterra, a eleição de Donald Turmp nos EUA e, sem dúvida alguma, para derrubar Dilma Rousseff no Brasil.

As ambições psicototalitárias do capitalismo de vigilância

por Fábio de Oliveira Ribeiro

O texto anterior desta série tratou da expropriação e do uso da voz dos usuários dos novos produtos idealizados pelos capitalistas da vigilância [aqui]. No item II, do capítulo 9, segunda parte do livro, Shoshana Zuboff aborda uma questão realmente explosiva: a exploração psicológica e política do excedente comportamental expropriado pelo capitalismo de vigilância.

Antes de entrar diretamente no assunto, farei um pequeno desvio para dar ao leitor a oportunidade de perceber a verdadeira dimensão do problema levantado pela autora de The Age of Surveillance Capitalism.

No final do século XIX início do século XX, Sigmund Freud descobriu um novo continente. Estudando as neuroses, fixações e outras patologias emocionais dos seus pacientes, ele desenvolveu uma série de hipóteses científicas sobre o funcionamento da psique humana e criou um método para descobrir as causas mais profundas e ignoradas dos problemas que afetavam as vidas deles.

“O surgimento da transferência sob forma francamente sexual – seja ela de afeição ou de hostilidade -, no tratamento das neuroses, apesar de não ser desejado ou induzido pelo médico nem pelo paciente, sempre me pareceu a prova mais irrefutável de que a origem das forças impulsionadoras da neurose está na vida sexual. A este argumento nunca foi dado o grau de atenção que ele merece, pois se isso tivesse acontecido, as pesquisas neste campo não deixariam nenhuma outra conclusão em aberto. No que me diz respeito, esse argumento continua a ser decisivo, mais decisivo mesmo do que qualquer das descobertas mais específicas do trabalho analítico.” (Os Pensadores, Sigmund Freud, A história do movimento psicanalítico, Abril Cultural, São Paulo, 1978, p. 43)

Além de provar a origem sexual dos problemas psicológicos, a transferência seria uma evidencia inquestionável da impossibilidade de cura do paciente. Ao longo de toda sua carreira, Freud cautelosamente defendeu que autoconhecimento adquirido durante o processo de psicanálise poderia apenas ajudar as pessoas a conviver melhor com seus problemas.

Discípulo de Freud, Carl G. Jung se distanciou do mestre ao defender a tese oposta:

“…É o ego que ilumina o sistema inteiro, permitindo que ganhe consciência e, portanto, que se torne realizado. Se, por exemplo possuo algum dom artístico de que meu ego não está consciente, este talento não se desenvolve e é como se fosse inexistente. Só posso trazê-lo à realidade se o meu ego o notar. A totalidade inata, mas escondida, da psique, não é a mesma coisa que uma totalidade plenamente realizada e vivida.” (O homem e seus símbolos, Concepção e organização de Carl G. Jung, O processo de individuação, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2008 p. 213)

Freud pretendia ajudar seus pacientes a conhecer e a conviver com seus problemas. Jung defendeu a tese de que seria possível curar os pacientes fazendo-os trazer à realidade dos seus egos talentos que eles ignoravam. Um via o homem como um ser falho que poderia minimizar suas falhas. O outro acreditava que o homem podia superar suas limitações aperfeiçoando-se. Ambos acreditavam que sob a superfície do comportamento humano observável existia um imenso continente. Freud queria explorá-lo cientificamente para aperfeiçoar seu método, Jung acreditava que ele poderia ser conquistado por qualquer pessoa.

Colocando o foco exclusivamente naquilo que podia ser observado, Burrhus Frederic Skinner pensava diferente:

“… Uma ciência adequada do comportamento deve considerar os eventos que ocorrem por sob a pele do organismo, não como mediadores fisiológicos do comportamento, mas como parte do comportamento em si. Pode lidar com estes eventos sem presumir que tenham uma natureza especial ou que devam ser conhecidos de uma maneira especial qualquer. A pele não é tão importante como limite. Eventos privados e públicos têm o mesmo tipo de dimensões físicas.” (Os Pensadores, Pavlov/Skinner, Crítica das explicações alternativas do comportamento, Abril Cultural, São Paulo, 1984, p. 345/346)

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Um pouco adiante, Skinner esclarece que:

“O problema da privacidade pode ser abordado numa nova direção ao se inicial com o comportamento ao invés de partir da experiência imediata. A estratégia não será certamente mais circular ou arbitrária do que as práticas anteriores, e tem resultados surpreendentes. Ao invés de concluir que o homem pode conhecer apenas suas experiência subjetivas – que está sendo atado para sempre ao seu mundo privado e que o seu mundo externo é apenas um constructo – uma teoria comportamental do conhecimento sugere que é o mundo privado que, se não for inteiramente incognoscível, pelo menos tem poucas probabilidades de ser bem conhecido.” (Os Pensadores, Pavlov/Skinner, Crítica das explicações alternativas do comportamento, Abril Cultural, São Paulo, 1984, p. 346)

O behaviorismo rejeita as teses de Freud e Jung e defende que os comportamentos das pessoas são as únicas coisas que podem ser observadas e estudadas. Eles são adquiridos através de aprendizado, modelados por regras e se tornam permanentes em razão das condições de reforço. Alterando as condições de reforço e ensino de novos comportamentos seria, portanto, possível reprogramar as experiências subjetivas das pessoas.

Num de seus livros, Skinner concebeu uma sociedade perfeita em que os melhores estímulos, reforços e regras produziriam indivíduos produtivos, felizes, satisfeitos e conscientes de suas obrigações. Walden II fez muito sucesso. O maior deles certamente foi provocar uma reação literária que se transformou num dos maiores clássicos da literatura em língua inglesa. Refiro-me obviamente a Brave New World de Aldous Huxley.

Vejamos agora os fatos narrados por Shoshana Zuboff. Ela conta como a internet começou a ser explorada de maneira rudimentar por uma empresa interessada em analisar o comportamento dos empregados. As pessoas sujeitas a esse tipo de tratamento não gostaram muito do resultado. Afinal, elas começaram a sofrer consequências indesejadas da utilização pública de informações que poderiam ou deveriam ser privadas.

“A paper published in 2015 broke fresh ground again by announcing that the accuracy of the team’s computer predictions had equaled or outpaced that of human judges, both in the use of Facebook ‘likes’ to assess personality traits based on the five-factor model and to predict ‘life outcomes’ such as ‘life satisfaction’, ‘substance use’, ou ‘depression’. The study made clear that the real breakthrough of the Facebook prediction research was the achiefement of economies in the exploitation of these most-intimate behavioral dephs with ‘automatede, accurate, and cheap personality assesstement tools’ that effectively target a new class of ‘objetcs’ once known as your ‘personality’. That these economies can be achieved outside the awareness of unrestrained animals makes them evem more appealing; as once research team emphasizes, ‘The traditional method for personality evaluation is extremely costly in terms of time and labour, and it cannot acquire customer personality information without their aweranes…’

Personality analyss for commercial advantage is built on behavioral surplus – the so-caled meta-data or mid-level metrics – honed and tested by ressearches and destinet to foil anyone who thinks that she is in the control of the ‘amount’ of personal infermation thar she reveal in social media.” (The Age of Surveillance Capitalism, Shoshana Zuboff, PublicAffairs, New York, 2019, p. 275)

Tradução:

“Um artigo publicado em 2015 inovou novamente ao anunciar que a precisão das previsões de computador da equipe era igual ou superior à dos juízes humanos, tanto no uso de ‘curtidas’ do Facebook para avaliar traços de personalidade com base no modelo de cinco fatores quanto em outros fatores prever ‘resultados da vida’, como ‘satisfação com a vida’, ‘uso de substâncias’ ou ‘depressão’. O estudo deixou claro que o verdadeiro avanço da pesquisa de previsão do Facebook foi a conquista de economias na exploração desses comportamentos mais íntimos com ‘ferramentas de avaliação automatizada de personalidade, precisas e baratas’ que efetivamente visam uma nova classe de ‘objetos’ uma vez conhecida como sua ‘personalidade’. O fato de essas economias poderem ser alcançadas fora da consciência de animais irrestritos os torna mais atraentes; como a equipe de pesquisa enfatiza: ‘O método tradicional de avaliação da personalidade é extremamente caro em termos de tempo e trabalho, e não pode adquirir informações sobre a personalidade do cliente sem os alarmes ..’

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As análises de personalidade para obter vantagens comerciais são baseadas no excedente comportamental – os metadados chamados ou métricas de nível médio – aperfeiçoados e testados por pesquisas e destinos para frustrar qualquer pessoa que pensa que está no controle da ‘quantidade’ de inferências pessoais que ela revela nas mídias sociais “.

Segundo um documento do Facebook vazado em 2018, esses recursos foram utilizados pelo Facebook.

“… ‘to predict future behavior’ targeting individuals on the basis of how they will behave, purchase, and think: now, soon, and later. The document links prediction, intervention, and modification. For exemple, a Facebook service called ‘loyalty prediction’ is touted for its ability to analyze behavioral surplus in order to predict individuals who are ‘at risk’ of shifting their brand allegiance. The idea is that these predictions can trigger advertisers to intervene promptly , targeting aggressive messages to stabilize loyalty and thus achieve guaranteed outcomes by altering the course of the future.” (The Age of Surveillance Capitalism, Shoshana Zuboff, PublicAffairs, New York, 2019, p. 279)

Tradução:

“…’para prever o comportamento futuro’, visando indivíduos com base em como eles irão se comportar, comprar e pensar: agora, em breve e mais tarde. O documento vincula previsão, intervenção e modificação. Por exemplo, um serviço do Facebook chamado ‘previsão de lealdade’ é elogiado por sua capacidade de analisar o excedente comportamental, a fim de prever indivíduos que estão “em risco” de mudar sua lealdade à uma marca. A ideia é que essas previsões possam levar os anunciantes a intervir prontamente, visando mensagens agressivas para estabilizar a lealdade e, assim, alcançar resultados garantidos alterando o curso do futuro.”

As possibilidades políticas dessa ferramenta foram amplamente utilizadas para garantir a vitória do Brexit na Inglaterra, a eleição de Donald Trump nos EUA e, sem dúvida alguma, para derrubar Dilma Rousseff no Brasil. Isso ficou absolutamente claro durante o escândalo da Cambridge Analytica.

“ ‘We exploited Facebook to harvest millions of peoples profiles’, Wylie admitted, ‘and built models to exploit what we knew about them and target ttheir inner demons’. His summary of Cambridge Analytca’s accomplishments is a précis of the surveillance capitalist projetc and a rationale for its determination to render from the depths. These are the very capabilities that have gathered force over the nearly two decades of surveillance capitalim’s incubation in lawless space. These practices produced outrage around the world, when in fact they are routine elements in the daily elaboration of surveillance capitalim’s methods and goals, both at Facebook and within other surveillance capitalist companies. Cambridge Analytica merely reoriented the surveillance capitalist machinery from commercial markets in behavioral futures toward guaranteed outcomes in the political sphere.” (The Age of Surveillance Capitalism, Shoshana Zuboff, PublicAffairs, New York, 2019, p. 280/281)

Tradução:

” ‘Nós exploramos o Facebook para coletar perfis de milhões de pessoas’, admitiu Wylie, ‘e construímos modelos para explorar o que sabíamos sobre eles e atingir seus demônios internos’. Seu resumo das realizações da Cambridge Analytca é uma prévia do projeto capitalista de vigilância e uma justificativa para sua determinação de renderizar a partir das profundezas [da psique humana]. Essas são as mesmas capacidades que ganharam força nas quase duas décadas de incubação do capital de vigilância no espaço sem lei. Essas práticas produziram indignação em todo o mundo, quando na verdade são elementos rotineiros na elaboração diária dos métodos e objetivos do capital de vigilância, tanto no Facebook quanto em outras empresas capitalistas de vigilância. A Cambridge Analytica apenas reorientou o mecanismo capitalista de vigilância dos mercados comerciais em futuros comportamentais em direção a resultados garantidos na esfera política.”

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No fim deste item do capítulo 9, Shoshana Zuvoff afirma que:

“Billionaires such as Zuckerberg and Mercer have discovered that they can mucle their way to dominance of the dividion of learning in society by setting their sights on these rendition operations and the fortunes they tell. They aim to be unchallenged in their power to know, to decide who knows, and to decide who decides. The rendition of ‘personality’ wan an important milestone in this quest; a frontier, yes, but not the final frontier.” (The Age of Surveillance Capitalism, Shoshana Zuboff, PublicAffairs, New York, 2019, p. 282)

Tradução:

“Bilionários como Zuckerberg e Mercer descobriram que podem abrir caminho para o domínio da divisão da aprendizagem na sociedade, concentrando-se nessas operações de entrega e nas fortunas que contam. Eles pretendem ser incontestáveis em seu poder de saber, decidir quem sabe e decidir quem decide. A interpretação da “personalidade” foi um marco importante nessa busca; uma fronteira, sim, mas não a fronteira final.”

Esse é um tema realmente importante. Por isso fiz questão de fazer uma ligeira digressão sobre as obras de Freud, Jung e Skinner no início justamente para retomar a questão da exploração lucrativa e política da psique humana pelo capitalismo de vigilância.

A psicanálise foi criada por Freud para ajudar as pessoas a se autoconhecer e a conviver com seus problemas. Ela ganhou uma nova dimensão com o trabalho de Jung para colocar à disposição de todos a possibilidade de conquistar as profundezas de sua própria personalidade para fazer aflorar habilidades adormecidas e desconhecidas pelo ego. Skinner rejeitou as teses de ambos e se concentrou no estudo do comportamento humano e das condições que o reforçam para possibilitar uma melhora das pessoas mediante a reprogramação dos seus costumes.

Com maior ou menor cuidado, todos os três psicanalistas mencionados se preocuparam apenas com uma coisa: o bem-estar dos seus pacientes. O bem-estar das pessoas não é objeto de qualquer preocupação nos cálculos daqueles que utilizam técnicas de análise do excedente comportamental expropriado dos usuários de internet e de telefonia móvel para garantir resultados econômicos e políticos. Essa mudança de foco me parece bastante relevante.

Os pacientes não são e não podem ser tratados como meios para os fins dos psicanalistas. O dever de não fazer mal que obriga o médico, impede-o de fazer análises sem o conhecimento das pessoas analisadas. Também o proíbe de comercializar as análises que ele fez com a finalidade de garantir os lucros ou a vitória política de quem quer que seja.

A automatização de psicanálises em massa não autorizadas e com a finalidade de induzir as pessoas a consumir ou a deixar de consumir um produto, a apoiar ou rejeitar uma proposta política, a pensar de uma maneira e não de outra, a ficar felizes ou tristes em razão do que é colocado na Timeline delas é uma evidente perversão da medicina e deveria ser tratada como tal. O resultado dessa perversão está sendo colhida na Inglaterra, nos EUA e no Brasil.

Se os eleitores não tivessem sido manipulados o resultado das eleições nesses três países teria sido diferente. A pandemia do COVID-19 mataria a mesma quantidade de ingleses, norte-americanos e brasileiros se eles não tivessem sido utilizados como ratos no laboratório de experiências políticas que foi construído e explorado com lucro por bilionários como Zuckerberg e Mercer?

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