Bolsonaro, Haddad e a lógica das eleições, por Aldo Fornazieri

Bolsonaro, Haddad e a lógica das eleições

por Aldo Fornazieri

O jogo eleitoral está ainda sendo jogado e sempre podem surgir acontecimentos, imprevistos e realinhamentos de eleitores passiveis de contrariar as tendências indicadas pelas pesquisas. Mas, se nada disso acontecer, ocorrerá um segundo turno entre Bolsonaro e Haddad  ou Haddad e Bolsonaro, conforme o eleitorado definir a posição de cada um deles. É verdade que a passagem de Bolsonaro para o segundo turno chega a ser surpreendente, mas ela não é ilógica.

Existem vários fatores que determinam ou orientam as motivações de voto dos eleitores tais como liderança, estruturas materiais de campanha, programas e propostas, força dos partidos, tempo de TV, perfil dos candidatos, suas capacidades persuasivas, a forma e o conteúdo das campanhas, carisma, fé, fascínio, ódio, paixão, repulsa, simpatia etc. As motivações são racionais e irracionais e o grau dessas duas determinações varia segundo das circunstâncias e a conjuntura de cada eleição. As atuais eleições, se as tendências das pesquisas se confirmarem, provam, mais uma vez, que o tempo de TV e o apoio da grande mídia não são determinantes por si sós.

Em que pese essa miscelânea de fatores, existe um fator que tem um peso geral para definir os candidatos que passam para o segundo turno e… o vencedor. Claro que esse fator, como regra geral, também tem suas exceções. Trata-se da natureza da conjuntura. Isto é: tomando-se como ponto de  referência o governo existente e a realidade social e econômica, genericamente, as conjunturas eleitorais ou são de continuidade (conservação) ou de mudança. Normalmente, as eleições tendem a se polarizar entre um candidato que representa a continuidade e outro que representa a mudança. Se a conjuntura é de continuidade – o governante é bem avaliado e existe uma satisfação com a situação social e econômica – o candidato que representa essa continuidade tende a vencer. Foi o que aconteceu com a reeleição de Lula em 2006 e com a eleição de Dilma em 2010. Sua reeleição em 2014 foi uma exceção à regra.

Se a conjuntura é de mudança, o candidato da continuidade tende a ser derrotado por aquele que encarna uma nova perspectiva. Foi o que aconteceu entre Lula e Serra em 2002, entre Haddad e Serra em 2012, só para ficar em dois exemplos. Mas existem determinadas conjunturas singulares que se constituem em situações críticas, de crise prolongada, o que suscita um descontentamento generalizado com o governante e com o status quo da situação social e econômica. As conjunturas de 1989 e de 2018 têm essa característica: o descontentamento generalizado. Nessas conjunturas, os candidatos que mais se identificam com a continuidade tendem a ser deslocados por candidatos que representam a mudança, mas sempre em posições polares. Foi isto que se viu em 1989, com Collor e Lula e é isto que está se vendo em 2018, com Bolsonaro e Haddad. É por isso que Alckmin tende a sobrar. Embora Ciro seja um candidato identificado com a mudança, Haddad a representa de forma mais nítida.

Existem algumas semelhanças e várias diferenças entre 1989 e 2018. O mal estar social e a repulsa aos presidentes Sarney, então, e Temer, hoje, são assemelhados. Naquela época, além do desemprego e da dramaticidade social, existia a hiperinflação. O medo acerca do que poderia representar a vitória de Lula foi muito explorado. Hoje o medo funciona em escala menor, pois Haddad não é Lula e Lula e Haddad já viveram experiência de governo e não comeram criancinhas e nem tomaram as casas dos ricos. Mas o que funciona hoje é o ódio e o antipetismo.

Fernando Collor representava a energia da juventude e a ideia de modernização, o caçador dos marajás, o inimigo dos privilégios, o redentor dos descamisados. Lula, também jovem, representava a esperança da justiça social, a inclusão dos pobres e dos trabalhadores, a ética na política, o sonho vívido de um Brasil melhor. Bolsonaro não é igual a Collor. A sua ideia de mudança não é modernizadora, mas conservadora, anti-sistêmica, autoritária, a encarnação do ressentimento e do ódio às camadas subalternas, a recusa de direitos sociais e civis, tudo isso com um aceno confuso de liberdade econômica e de mercado, entendida pela elites como liberdade de explorar e de negar direitos.

Haddad não representa o frescor daquela esperança de 1989, mas a ideia de uma reconecção, um religamento com uma experiência de bem estar e de inclusão que foi interrompida ilegalmente pelo golpe. É mais algo que representa a recuperação do que foi perdido do que uma ideia luminosa de futuro, um sonho libertador, uma terra prometida. Lula era quase pura emoção; Haddad é quase pura razão. É verdade que a modernização de Collor se frustrou pelos seus descaminhos e que a esperança de Lula só se tornou efetiva treze anos depois. Mas 1989 parecia ter mais potência do que 2018. Sim, claro, era também a primeira eleição presidencial direta após a ditadura e isto significava muito

Já, as eleições de 2018 são marcadas por várias negatividades: a sensação e/ou a certeza de que a democracia fracassou, de que a Constituição foi rasgada pelos seus guardiões, de que existe um autoritarismo contra direitos na sociedade e de que tudo pode piorar. As manifestações antidemocráticas e autoritárias da candidatura de Bolsonaro são expressões disso. Agora não se trata tanto de construir a jovem democracia como era em 1989, mas de defender os seus escombros. Aquela eleição era uma espécie de adeus definitivo à presença dos militares na política. Agora, vive-se o fantasma do seu retorno, mesmo que seja através de eleições. Nesses momento críticos, os eleitores tendem a escolher aquela mudança mais conservadora. Isto deveria servir de alerta para a campanha de Haddad num eventual segundo turno.

Independentemente do resultados das eleições, as esquerdas, os democratas, os progressistas e os movimentos sociais precisarão fazer um exame contundente para examinar onde erraram, pois é preciso aprender com os erros para evitar um novo ciclo de fracassos. O erro maior parece ter consistido em não construir uma ampla e sólida rede de trincheiras e casamatas capaz de sustentar os avanços da democracia e as conquistas sociais. A derrota pelo golpe, as reformas de Temer e a prisão e interdição de Lula mostraram que a força das esquerdas e dos progressistas não está assentada sobre sólidas estruturas graníticas, mas sobre frágeis paliçadas de madeira. Elas ruíram com ventos nem tão fortes soprados no Congresso e nos tribunais. Ou o problema da força organizada terá que ser resolvido ou novas derrotas se transmutarão em lamentos inúteis num futuro próximo. (Tendência de vitória conservadora)

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).

 

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10 comentários

  1. Bolsonaro, Haddad e a lógica das eleições

    -> fazer um exame contundente para examinar onde erraram, pois é preciso aprender com os erros para evitar um novo ciclo de fracassos.

    -> ou novas derrotas se transmutarão em lamentos inúteis num futuro próximo.

    e os erros continuam. erros fatais.

    analistas políticos, jornalistas, intelectuais, artistas, cada um de nós, iremos todos amargar profundamente os erros ainda agora cometidos.

    o maior de todos os erros, do qual todos os demais se procriam, é a total despolitização da campanha de Haddad – assim como antes ocorreu com os governos Lula/Dilma.

    nosso inimigo principal não é a Globo, mas o núcleo da classe dominante: banqueiros, exportadores de commodities, rentistas, o grande empresariado associado ao capital financeiro transnacional.

    nossa principal arma e forma de luta não é o voto e a via institucional, mas a organização autônoma popular.

    o fascismo não é uma nuvem sem forma definida pairando acima de nós. o fascismo é a face desmascarada da lumpenburguesia brasileira e de seus serviçais.

    a luta contra o fascismo não é abstrata, tem alvos com nome e sobrenome.

    além disto, o fascismo se imiscui no cotidiano, nas relações pessoais de cada um de nós. o fascismo é o tecido conjuntivo conservando a forma da ossatura social e disciplinando sua musculatura.

    enquanto isto, as asneiras despolitizadoras se proliferam vindas de quase todos os lados. leio: “Haddad é o nome certo para enfrentar o fascismo”.

    mas como? desconhecido da quase totalidade da população, ungido por uma única pessoas que se deixou encarcerar sem resistência, ávido por um “pacto civilizatório” com necrófilos, incapaz sequer de pronunciar com o devido contexto a dura palavra “golpe”…

    é agora que as novas derrotas estão sendo plasmadas. para quem não se fizer de surdo, os lamentos inúteis já ecoam por toda parte.

    dá nojo.

    .

     

    • Telegramas de Pasárgada…

      Caro amigo, admira-me e muito sua paciência com esse indigente intelectual. Sim, minha paciência acabou.

      Uma pessoa que se diz sociólogo, ou outro ólogo qualquer, dizer que stf é guardião da Constituição é como alguém supor que a raposa seja a guardiã do galinheiro.

      O nível de desconhecimento da relação dos estametos jurídicos como conservadores das estruturas (normativas) de dominação é de uma burrice atroz.

      Outra coisa: o sentido empreendido por você na noção de (re)avaliação dos erros (da esquerda…isso existe ainda?) é totalmente diferente que esse (des)intelectual apregoa!

      O que ele deseja é um ato de contrição moral, a moda da Inquisição que nos assola, mas com sentido inverso (ou nem tão inverso assim, mas muito perverso).

      Nosso erro não foi acreditar em políticas de alianças para tocar o processo político e eleitoral. Nosso erro foi acreditar que isso bastava e que nosso suposto sucesso eleitoral nos ungisse como portadores da nova era de prosperidade, ainda que atolados em um sistema rentista que só gera mais e mais desigualdades!

      Nosso erro foi imaginar que dá para conviver com o capitalismo, desde que dando uma pintadinha ali, trocando uns canos furados e refazendo a parte elétrica.

      Não dá!

      E aldo fornazieri não está só nesse processo de auto-comiseração!

      O que os eleitores do “andrade” e talvez até o próprio Lula desejem é também atos de contrição:

      – “andrade” eleito redimira os pecados políticos;

      – Lula absolvido o redimiria da “culpa kafkaniana” (o processo é duvidoso mas a culpa é certa) que o assoombra.

      Esperam pelo aceno dos algozes de que não haverá novas execuções, ou que a guilhotina emperrou, e as degolas estão adiadas, ao menos por enquanto.

      E aí, as surpresas:

      – Uai, como Lula segue sendo o líder genial dos povos, mas esse poder de encantamento não vai além da resiliência eleitoral?

      Mas ao ler a entrevista de outro (des)intelectual, o noam chomsky, após sua saída da visita ao Lula, quando o militante-linguista, morto de inveja, chamou para si um bocado dos holofotes, eu compreendo esse estado de coisas:

      mister noam chomsky, como um bom bwana, nos disse em alto e bom som: a ficha limpa é um instrumento para civilizar nossa “democracia”, e o problema da aplicação dessa lei aqui não seria sua natureza fascista, mas sim o fato dela ter sido dirigida a apenas um lado do espectro político (O PT e LULA)!

      Disse mais, o PT tem que fazer auto-crítica!

      Arf, isso todo mundo sabe, mas o que fazer auto-crítica ou atos de imolação nos apontará alguma saída?

      Será que isso mesmo? Vamos acabar com nossos dominadores repetindo que nós é que somos os culpados pelas violências que eles (os dominadores) nos inflingem?

      Não precisamos de (auto) críticas, isso até os bolsobostas sabem fazer, precisamos é recuperar o pensamento crítico!

       

      PS: Recomendo a você a leituta do novo livro de Harvey, A Loucura da Razão Econômica e A Dominação Masculina, de Pierre Bourdieu.

      Tô no começo, mas parece coisa da boa.

      • Grotesco Nender

        As tuas afirmações são grotescas Nender. Recomendo que você faça um curso de análise e interpretação de texto, pois você não entendeu o que o artigo diz. Se a tua paciência acabou, por que você quer discutir aqui? Vai pescar. Ou você é daquele tipo de fascistóide de esquerda?

        • Onde faço a matrícula? No Instituto Delphos?

          Bem, estou a vossa disposição para que aponte no texto uma interpretação que salve algum argumento válido. Explica o texto aí para mim, ó oráculo.

          Quanto às suas opiniões sobre a natureza de meus comentários, não percamos tempo.

          Preocupado ficaria se você estivesse confortável com eles.

          Tem algo pior que os textos do fornazieri? Tem, os comentários aduladores.

          • Honestidade no debate Nender

            Se você quer participar do debate participe de forma honesta e construtiva e não com ofensas aos articulistas, tipicas dos fascistóides do Bolsonaro, Se você não tem paciência, não leia os textos. Ninguém está adulando ninguém. A tua mentalidade é de direita. Frequente os espaços da direita que você vai se descobrir e se sentir bem.

             

             

             

        • Bolsonaro, Haddad e a lógica das eleições

          Nender e Oraculum,

          nunca fui do tipo de pessoa de colocar panos quentes, muito menos de pregar “paz na terra aos homens de boa-vontade”. até muito pelo contrário…

          estamos numa situação f-d-p, todo mundo com certa experiência de vida e de luta política tem todos os motivos prá estar p-to da vida.

          em meio a todas as nossas possíveis discordâncias, justificadas ou não, levando em conta também tratar-se de pessoas de personalidade muito forte, algo precisa ser devidamente ponderado.

          quanto a isto, faço minhas as seguintes palavras do Nender (link):

          “Esse blog, um dos espaços onde se dão os melhores debates sobre a cena política brasileira é um tratado (por mais paradoxal que seja) da nossa completa incapacidade de formular um conceito libertador sobre o arbítrio que nos assola! Quiçá um programa de ação política para tal fim!!!!! Trágico.”

          apesar de “nossa incapacidade” (cfe. citado acima), que é muito mais de nosso amplo contexto social do que especificamente de cada qual, penso que precisamos manter vivo este espaço “onde se dão os melhores debates sobre a cena política brasileira”.

          e isto SOBRETUDO por nossas discordâncias e nossos conflitos.

          acho que ainda vem muita m-rda pela frente. longe de mim achar que “tudo vai dar certo”.

          mas este Blog do Nassif será, como tem sido, muito importante para, de alguma forma, sermos capazes de ao menos sobrevivermos a toda esta tragédia.

          seja como for, manteremos a consciência e a dignidade. o que não é pouco! ao contrário, é tudo o que importa.

          .

           

  2. Um “novo” e eleito Congresso,
    Um “novo” e eleito Congresso, como esse que aí está, vai repetir esse pesadelo tantas vezes quanto necessárias até que o chefe do executivo que interesse esteja sentado lá (de preferência decorativamente). Haddad ou Ciro ou qualquer outro que ganhe e que represente minimamente uma mudança real será posto pra fora ou enquadrado (viram o recadinho pro Ciro?).

    Ah, claro: o Congresso terá esse peso se a coisa toda não descambar pra um regime totalitário, em caso de derrota do “coiso”.

    Finalmente, #Elenão #Elenunca

  3. Derrota
    A chegada de Bolsonaro ao segundo turno de uma eleição majoritária é certamente a derrota:
    1) Dos grandes partidos politicos brasileiros.
    2) Dos esquemas, das coligações, dos interesses mesquinhos e pessoais.
    3) Da forma tradicional de comunicação no Brasil, que são o rádio e a televisão.
    4) Do pensamento ideológico.

  4. #Elenão

    A questão da democracia é vasta para a sociedade brasileira que ainda não sabe muito bem como lidar com ela. Basta ler alguns comentarios aqui mesmo para se confirmar que as pessoas se fecham em suas opiniões. Eh comum em debates o argumento de que o outro é idiota, asno ou, na moda, sofre de indigência intelectual. 

    Haddad pode vencer as eleições, mas o caminho não vai ser de flores. Não porque Haddad seja um candidato ruim. Muito pelo contrario, a escolha dele como candidato de Lula e do PT talvez seja o que traga votos diversos ao PT como aqueles que não votariam em Lula. Mas continuo achando que demoraram um pouco demais para lançar sua candidatura por um lado e por outro a população brasileira foi bastante machuda pelo golpe e o governo que se instalou. Vem dai, entre outros fatores, o voto em Bolsonaro. 

    Porque não agendamos manifestações simples, com cartazes feitos em casa, apartidarias, contra a barbarie para no proximo fim de semana em nossas cidades ? Acho que esse é um meio de fazer repensar o voto em Bolsonaro para aqueles que hoje não vêem outra saida por desconhecimento do que realmente representam Bolsonaro e Mourão. 

  5. um texto mais claro (pela diversidade, não sei se cabe aqui)

    http://insightnet.com.br/segundaopiniao/?p=576 Wanderley Guilherme dos Santos

    [Não gosto de Aldo porque ele dá uma no cravo, outra na ferradura, neste artigo, por exemplo, fala em erros, mas sem citar nenhum, desse modo fica de bem com o público. Pra outro público, já o vi ser mais claro e com mais senso crítico). Quem quer saber de crítica, desenvolva seu senso e procure ver e ler coisas plurais]

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