Boulos no segundo turno?, por Aldo Fornazieri

A campanha de Boulos tem o desafio de decidir se quer ser a campanha de uma fração da esquerda ou a campanha do “partido orgânico” do povo.

Boulos no segundo turno?

por Aldo Fornazieri

Boulos e Erundina podem passar para o segundo turno? Sim, é possível. Neste momento é o candidato de esquerda que mais tem chance de concretizar essa esperança. Mas trata-se de uma possibilidade e não de uma certeza. Em grande medida, a passagem da possibilidade em factibilidade depende muito da estratégia que a chapa e o PSOL estão implementando.

A campanha de Boulos tem emitido alguns sinais de que pretende disputar as eleições contra Bolsonaro e não contra Covas. Não que Bolsonaro tenha que ficar incólume nas campanhas dos candidatos de esquerda. Mas é preciso saber o que está em jogo.

A campanha do PSOL parece ter escolhido Celso Russomano como inimigo para polarizar. Neste sentido, a postura sugere que na avaliação do partido e da campanha, Russomano teria maior chance de passar para o segundo turno. Não parece ser o mais provável. Covas, seja pelo fato de ser prefeito, seja pela força do PSDB na cidade e no Estado, parece ter mais força e mais chance de passar para o segundo turno. É improvável, embora não impossível, um segundo turno entre Russomano e Covas. Russomano tem o eleitorado menos fiel. Então, a campanha do PSOL precisa ter uma avaliação mais fina acerca de quem tem mais chance de passar para o segundo turno e, a partir disso, escolhê-lo como o inimigo a polarizar.

Ademais, o que esta eleição julga é a administração Dória/Covas. A primeira clivagem do eleitorado é entre os que querem a continuidade de Covas e aqueles que não querem. Como Covas tem avaliações positivas e negativas mais ou menos equipotentes, não há uma clara conjuntura de conservação e nem uma clara conjuntura de mudança. Também por esta razão, Covas tem chances razoáveis de passar para o segundo turno. Neste sentido, o seu oponente deverá ser aquele que melhor encarnar o sentimento de mudança.

É preciso considerar também que o eleitorado de Covas dificilmente migrará para Boulos. Se ele tiver que migrar, migrará para França ou para Matarazzo. Já o eleitorado de Russomano é mais popular: pode migrar para Boulos ou até para Tatto. Então, a tática que precisa ser definida consiste em como persuadir e capturar o eleitorado de Russomano. Por um lado, deve-se mostrar que Russomano não o representa e que é um engodo, e nisso vem a crítica ao candidato. Por outro, Boulos deve persuadir esses eleitores, dialogando com eles, mostrando que ele os representa.

“Persuadir” depende de algumas coisas: capacidade argumentativa e comunicativa, o conteúdo dos argumentos e da comunicação, a natureza das propostas e o carisma e empatia. Uma plataforma ou programa de campanha se define pelas prioridades. São as prioridades que devem estruturar o programa, não a listagem de temas e nem a enumeração por ordem alfabética.

Numa cidade como São Paulo, e este dado é definido pelo próprio povo, a prioridade é a Saúde. Não basta dizer que a Saúde é prioridade. É preciso expressar essa prioridade em proposta crível, factível. As propostas para a Saúde no programa de Boulos, assim como nos demais programas, não são suficientes para que elas evidenciem a prioridade. Neste sentido, a campanha de Boulos deveria ter um programa popular e inovador de Saúde pública, que evidenciasse que os moradores da periferia, o povão, não ficarão sem assistência médica e hospitalar.

Pelo que se viu no debate da Band, os candidatos tendem a priorizar a geração de emprego. Não está ao alcance de uma gestão municipal a capacidade de criar empregos de forma significativa. Uma gestão municipal pode mitigar o desemprego. Além da Saúde, uma gestão municipal deve ter como outras prioridades o transporte, o viário público e a limpeza urbana, a educação, a cultura, a habitação e o saneamento. Claro, existe um conjunto de outros pontos, como políticas para setores específicos que precisam ser contemplados num programa e numa campanha.

Além de acertar a mão na escolha da polarização, na abordagem dos eleitores e nas prioridades do programa, existe o desafio de como fazer a campanha em tempos de pandemia. O horário eleitoral vinha perdendo terreno para as redes sociais nas últimas eleições. Para uma campanha como a de Boulos, as redes sociais são importantíssimas. O desafio consiste em como criar uma campanha de impacto nas redes, que tenha força de propagar-se. E será preciso compensar a escasso tempo no horário eleitoral com uma forte campanha de rua. Dada a dificuldade de juntar pessoas, as caminhadas, as carreatas e as visitas deveriam ser intensificadas.

É preciso reconhecer, no entanto, que os partidos, os valores e as políticas de esquerda estão fragilizados neste momento. Os eleitores do campo progressista e de esquerda estão identificando em Boulos e Erundina, pela singularidade, qualidades e virtudes que ambos expressam, a esperança de um bom desempenho e da passagem para o segundo turno. Se adotarmos a concepção e “partido orgânico” de Gramsci, podemos dizer que Boulos, Tatto e Orlando Silva fazem parte de um mesmo partido. Representam frações diferentes de um mesmo partido. Somente os militantes organizados têm uma fidelidade específica a cada fração ou facção. Os eleitores progressistas e de esquerda têm fidelidades genéricas e eles saberão unificar o campo de esquerda em torno do candidato que terá maiores chances de protagonizar o embate com a direita.

Neste início de campanha, o desempenho de Jilmar Tatto ainda é uma incógnita. Mas ele sofre uma crítica injusta por parte de muitos setores petistas, atribuindo a ele o fraco desempenho. O fato é que existe ainda um forte antipetismo, algo que o partido insiste em não enfrentar. Se Carlos Zarattini ou Alexandre Padilha fossem os candidatos, o desempenho, certamente, não seria tão diferente daquele que Tatto expressa. Somente Fernando Haddad teria condições de fazer uma diferença bem maior.

A campanha de Boulos tem o desafio de decidir se quer ser a campanha de uma fração da esquerda ou a campanha do “partido orgânico” do povo. Se quer ser uma campanha que quer passar para o segundo turno e lutar para vencer ou se quer ser uma campanha para marcar posições ideológicas. Se quer ser a campanha de um programa para a cidade ou se quer ser uma campanha de temas, mais afeita a campanha de vereadores.

Certamente, vivemos um momento de grande tensionamento político, ideológico e programático. É preciso travar uma disputa no plano da política, dos valores e da organização. Esta disputa precisa fazer sentido para as amplas populações que vivem nas periferias. Ela só fará sentido para este povo sofrido se for travada de forma inextrincavelmente ligada aos interesses e necessidades desta população que hoje não têm líderes, não tem voz, não tem vez e não tem representação política.

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política (Fespsp).

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7 comentários

  1. Domingo, 15 de novembro de 2020, 22 horas

    Hora de fazer continhas. Dispensável uma HP12 C, basta papel e lápis. E a boa e velha aritmética ensinada pela dona Marocas, lá no longínquo primeiro ano primário. Continha de “mais”, que a dona Marocas corrigia, enérgica, para “soma”.

    Começa escrevendo em números bem legíveis o percentual de votos da “chapa dos sonhos” (1), Boulos, depois vai botando debaixo o Jilmar com J, Orlando e França. Obtido o o total, compare com quem foi para o segundo turno.

    Diante da constatação, admite-se apenas 15 minutos de choro e ranger de dentes, não mais. Após, recomenda-se engolir o choro e administrar o calendário. Dali duas semanas teremos segundo turno, tempo exíguo e precioso para a prática de exercícios de dessensibilização.
    Da Wikipedia:
    A dessensibilização ou imunoterapia hipossensibilizante é uma técnica de imunoterapia criada há mais de um século com o objetivo de re-educar o sistema imune de pacientes alérgicos, no sentido de induzir a tolerância imunológica aos alérgenos aos quais o mesmo é sensível. Consiste em administrar quantidades gradativamente maiores dos mesmos alérgenos aos quais o paciente é sensível, de modo a produzir um estado de tolerância imunológica.

    Exemplo: apertar o 45 na urna eletrônica no segundo turno. É isso ou o Mano.

    (1) “Chapa dos Sonhos”: faltou combinar com o Capão Redondo, Paraisópolis, Brasilândia, Jardim Ângela, etc.

  2. A chapa Boulos/Erundina está animando muitos eleitores, mas não creio que a cidade de São Paulo dará essa oportunidade de vencer, muito menos de ir ao segundo turno. Acredito que muito mais que simpatia pela chapa está o desejo inconfessável de ainda alimentar o antipetismo e tentar destruir o PT, e a própria mídia contribui com isso. O apoio que a chapa vem recebendo esconde essa finalidade, continuar a campanha para a destruição do maior partido de esquerda do Brasil e fragilizar seus líderes. Não acredito que os eleitores vão se desvincular do voto conservador, do voto no psdb ou assemelhados. Boulos e Erundina tem seu valor inegável, mas paulistano em sua maioria não vota nos progressistas, eles votam nos ricos pensando serem iguais a eles. Infelizmente.

  3. Há uma operação para destruir a esquerda.
    Começa pelo PT, ainda que setores não acreditem que sejam atingidos.
    O que sobrou na Itália após a desintegração do velho PCI?

    https://petista.org.br/2020/11/07/sp-boulos-psol-e-melhor-que-jilmar-pt/

    SP: Boulos (PSOL) é melhor que Jilmar (PT)? por Markus Sokol

    Querem que pareça, mas não é. Vide Organizações Sociais e IPTU
    Markus Sokol*

    Numa sabatina na Associação Comercial de São Paulo, o candidato do PSOL à Prefeitura, Guilherme Boulos, prometeu “não demonizar” o setor privado (Valor Econômico, 28/10). Ele assumiu: “não tenho condições de chegar e dizer que acabaram as Organizações Sociais que gerem equipamentos de saúde”, e concluiu vagamente sobre “são processos de transição”…
    Antes, Boulos tinha dado garantias de que não iria aumentar impostos. “Já houve avanço para IPTU progressivo. Não pretendo aumentar IPTU, não pretendo fazer aumento tributário. Nosso programa só prevê aumento de alíquota de ISS para bancos” (Valor Econômico, 15/10), os quais receberam “um presente da Câmara com a redução temporária de alíquota de 5% para 3%”.
    Ora, o próprio jornal ressalta que “o programa de governo do PSOL registrado na Justiça Eleitoral é mais ousado do que o candidato, pois diz que, além do ISS, haverá ‘aumento do valor da tarifa do IPTU para mansões’ ”.
    Perguntado de onde viriam, então, os recursos para suas promessas, Boulos respondeu que virão do “dinheiro parado hoje nos cofres municipais”, do “enfrentamento dos esquemas e máfias municipais” – sem estimativa de valor – e de uma “atuação mais efetiva na cobrança da dívida ativa do município”. Ou seja, respostas genéricas e evasivas de quem evita enfrentar os ricos e os grandes proprietários.

    Propostas de Jilmar Tatto

    O candidato do PT à Prefeitura, Jilmar Tatto, “defende ampliar faixas de cobrança do IPTU para imóveis acima de R$ 1 milhão. A expectativa é de arrecadar R$ 1 bilhão com a medida. O alvo da taxação não é a classe média, mas os super-ricos, os 1% que detêm, sozinhos, 45% do patrimônio imobiliário” (site do PT).
    O candidato do PT também não vacila em “tributar com alíquota complementar a alta concentração de imóveis nas mãos de poucos proprietários. O aumento do Impostos de Transmissão de Bens Imóveis (ITBI) está na mira do PT, teria uma tributação progressiva”. Outra proposta clara é a “extinção de benefícios fiscais dos bancos” (a questão da redução do ISS).

    Jilmar não vacila sobre as OSs

    “a pandemia evidenciou a necessidade do SUS com investimento público direto”. Por isso, “a primeira providência é rever os contratos. A segunda é, de forma planejada, fazer a reversão disso”

    Jilmar Tatto
    Sobre as OSs, o contraste com Boulos também é evidente.
    Jilmar defende a reversão das OSs, reivindicada pelos sindicatos e movimento de saúde.
    Sabatinado pelo Estadão (30/10), Jilmar foi questionado porque “participou do governo Haddad”, que fez várias OSs. Ele respondeu que “o momento agora é outro. Estamos verificando uma roubalheira danada”. Ainda mais, disse que “a pandemia evidenciou a necessidade do SUS com investimento público direto”. Por isso, “a primeira providência é rever os contratos. A segunda é, de forma planejada, fazer a reversão disso”.

    Como se vê, é Jilmar Tatto do PT quem assume compromissos concretos que, depois da eleição, podem efetivamente ser cobrados pelo povo da periferia, porque são parte da sua própria luta. Compromissos de Jilmar portanto, e não as generalidades do candidato do Psol, supostamente “à esquerda”, segundo a mídia e alguns intelectuais.

    *membro da Comissão Executiva Nacional do PT

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