Brasil, Colômbia e Honduras: A eterna desumanidade do Estado com os trabalhadores rurais e povos originários, por Camila Koenigstein

Com a completa falta de senso de governança por parte do presidente durante a quarentena, o Brasil tem 7 mil indígenas contaminados e mais 300 mortes.

Foto Sebastião Salgado

Brasil, Colômbia e Honduras: A eterna desumanidade do Estado com os trabalhadores rurais e povos originários

por Camila Koenigstein

A América Latina, a América Central e o Caribe são marcados pela abundância de extensões territoriais para o cultivo de grande variedade de alimentos, além de sua enorme diversidade de fauna e flora. No entanto, o campo, área responsável pelo abastecimento dos centros urbanos, é completamente invisibilizado.

A ausência de cuidado e preservação das comunidades rurais e indígenas expõe a supervalorização da modernidade e do modo de vida citadino, desconsiderando a importância da agricultura e principalmente da cultura dos povos originários.

Em uma sociedade completamente espetacularizada, reconhecer que as zonas rurais são mais empobrecidas, violentadas e esquecidas é assumir o desinteresse por aquilo que não está presente diariamente na mídia.

Essa postura é típico resquício do colonialismo e reflete a necessidade de prestigiar a vida urbana, mote que foi predominante para a criação do conceito de “civilizado” originando extrema valorização do homem letrado, portanto, detentor do saber.

Embora os ditos progressistas tentam incluir todas as pautas minoritárias, não há um discurso contundente sobre o agronegócio, o massacre da agricultura familiar, a dificuldade dos povos originários em manter suas tradições, nem sobre a falta de proteção efetiva a esses habitantes, algo que nunca foi visto no continente.

Desde o início do ano, de forma mais acentuada durante a pandemia de Covid-19, houve um aumento de violência contra indígenas e campesinos no Brasil, Colômbia e Honduras, três países com grave histórico de mortes e ataques em zonas que deveriam ser protegidas. O que vincula os três, além da questão agrária, são seus atuais governantes de envergadura reacionária, com uma visão direcionada somente ao mercado.

No Brasil, as invasões, mortes de líderes comunitários, grilagens, a implantação de loteamentos em terras consideradas sagradas para seus habitantes só expandiram. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), as invasões de terras indígenas aumentaram 44% em janeiro de 2019, quando assumiu o presidente Jair Messias Bolsonaro.

Em plena pandemia ocorreu no Maranhão o assassinato de Zezico Guajajara, líder da Terra Indígena Arariboia e diretor do Centro de Educação Escolar Indígena Azuru. Zezico foi encontrado baleado no dia 31 de março em uma estrada perto de sua aldeia.

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Já são cinco membros dos chamados guardiões da floresta assassinados desde o ano passado.

Com a pandemia, a situação de vulnerabilidade é maior. O momento nubla a violência, que só cresce.

 Zezico era uma das grandes lideranças dos Arariboia na região do Arame. Foi um cara que sempre apoiou o grupo Guardiões da Floresta desde o começo [….] Sei que ele era visto na região por muitos madeireiros como um “culpado” pela reação dos indígenas à atividade madeireira, mas não tenho como afirmar se estavam ocorrendo agora ameaças contra ele. Houve, sim, relato de ameaças no passado.

Com a completa falta de senso de governança por parte do presidente durante a quarentena, o Brasil tem 7 mil indígenas contaminados e mais 300 mortes. A ausência do poder estatal nos povoados gera a preocupação dos líderes indígenas de que possa ocorrer novamente um “genocídio”.

Segundo a Pastoral da Terra, o número de conflitos por terra em 2019 foi o maior desde 1985, o que expõe a desumanidade do atual governo com os mais vulneráveis. Bolsonaro já está com as mãos repletas de sangue desde que assumiu a Presidência. Seu discurso de ódio a todos que se opõem a sua cosmovisão abriu as portas para legitimar as práticas violentas empregadas contra os indígenas e campesinos há séculos.

Na avaliação da CPT, o dado sugere uma mudança de tática na atuação dos grileiros: em lugar de mortos, os trabalhadores rurais mais conhecidos são processados e presos. A estratégia indica, também, que esses grileiros se sentem respaldados pelo Estado. “O governo central sinaliza que a grilagem de terras é uma prática autorizada”.

Na Colômbia, país que, assim como o Brasil, tem um alto índice de violência contra a população rural e indígena, segue com o governo de Ivan Duque, eleito há um ano, o velho modelo repressivo de Álvaro Uribe, que legalizou e incentivou o assassinato de campesinos como se fossem membros de guerrilhas, quando na verdade eram enganados pelo Exército com falsas promessas de trabalho – a isso se chamou falsos positivos.

Com o término do processo de paz iniciado em 2012 entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia e o governo do país foi entendido que os trabalhadores do campo poderiam voltar às suas terras, já que viviam na encruzilhada entre o Exército, os paramilitares e as guerrilhas, o que ocasionou um êxodo rural. Atualmente, porém, dissidentes das Farc estão usando o momento para a retomada de territórios.

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En este país, al menos seis líderes han sido asesinados en los últimos días. “La Covid-19 ha hecho una sombra perfecta a la violencia en Colombia porque la atención mediática está en la pandemia y no se está prestando atención a los territorios.”

Nos últimos dias surgiu uma série de denúncias que incluem o envolvimento de pelo menos 118 militares em casos de violações. O episódio de uma criança de 12 anos da comunidade indígena de etnia embera-chamí abusada sexualmente por soldados gerou mobilizações em diversas partes do país.

Durante as manifestações, participaram grupos que também pediam respostas sobre os assassinatos de líderes comunitários.

Os asesinato de líderes sociales que ascienden a 150 en lo corrido de este año, según cifras del Instituto de Estudios para el Desarrollo y la Paz (Indepaz) […] “Alto a la guerra contra el pueblo. Revolución, nada menos”, se leía en otra pancarta que alzaba un grupo de jóvenes, mientras gritaban que lo que se vive en Colombia no es una democracia.

Em Honduras, com a pandemia de Covid-19, continuou crescendo o número de assassinatos de lideranças comunitárias indígenas.

O país foi classificado como um dos mais perigosos do mundo para quem defende direitos humanos e direito a terra. Um dos casos mais emblemáticos ocorreu em 2016 com o assassinato de Berta Cáceres, líder indígena da comunidade Lenca.

Berta se enfrentó – y, a menudo derrotó – a madereros ilegales, dueños de las plantaciones, corporaciones multinacionales y proyectos de represas que cortaban los suministros de alimentos y agua a las comunidades indígenas.

Em 2 de abril, Íris Argentina Álvarez, que fazia parte de uma cooperativa campesina que tinha recuperado terras de propriedade do Estado para o cultivo de produtos para o consumo básico, foi assassinada após a suspensão dos direitos constitucionais e proteção à cidadania – a pandemia foi supostamente responsável por tal medida. Com esse cenário, os empresários exercem total liberdade dentro dos territórios indígenas.

O atual presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, foi reeleito em 2017 em meio a um processo conturbado, principalmente pela suspeita de fraude eleitoral.

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O mandatário segue a linhagem de militarização e repressão desencadeada com o golpe de Estado que ocorreu em 2009, retirando o então presidente Manuel Zelaya.

Hernández está se recuperação de uma forte pneumonia causada pela Covid-19 que já soma 19.588 infectados no país.

Hoje, vemos um retrato do neoliberalismo e do fascismo em sua face mais devastadora. A América está contaminada por políticos sórdidos e completamente desprovidos de senso de humanidade.

Com o respaldo daquele que Noam Chomsky chamou de o maior criminoso da história, Donald Trump, não há horizonte a curto prazo de alterações estruturais no continente.

Ainda é incerto o futuro das comunidades indígenas e trabalhadores rurais, e principalmente o que restará depois desse período já marcado por mortes, retrocesso e abandono.

Camila Koenigstein. Graduada em História, pela Pontifícia Universidade Católica – SP e pós graduada em Sociopsicologia pela Fundação de Sociologia e Política – SP. Atualmente faz Mestrado em Ciências Sociais, com ênfase em América Latina y Caribe pela Universidade de Buenos Aires (UBA).

https://cimi.org.br/2019/09/a-maior-violencia-contra-os-povos-indigenas-e-a-apropriacao-e-destruicao-de-seus-territorios-aponta-relatorio-do-cimi/

https://www.nodal.am/2020/06/honduras-protestas-de-trabajadores-de-la-salud-en-medio-del-colapso-sanitario-y-la-presunta-compra-irregular-de-hospitale

https://www.frontlinedefenders.org/es/case/case-history-berta-c%C3%A1ceres

https://cespad.org.hn/2020/04/03/alerta-lris-argentina-alvarez-era-lideresa-de-un-asentamiento-humano-en-el-sur-de-honduras-fue-asesinada-el-2-de-abril-mientras-varios-agentes-de-seguridad-privada-de-la-empresa-azucarera/

https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-48798825

https://www.nodal.am/2020/06/brasil-al-menos-siete-mil-indigenas-contagiados-y-mas-de-300-fallecidos/

https://www.dw.com/es/sin-tregua-durante-la-pandemia-asesinatos-de-defensores-en-latinoam%C3%A9rica-no-cesan-en-cuarentena/a-53077770

https://noticias.uol.com.br/colunas/rubens-valente/2020/03/31/mais-um-lider-guajajara-e-morto-em-terra-indigena-no-maranhao.htm

https://www.pagina12.com.ar/274324-noam-chomsky-califico-a-donald-trump-como-el-peor-criminal-d

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1 comentário

  1. Excelente artigo. Gostaria do contato da autora para pedir algumas indicações, uma vez que estou estudando sobre a Colômbia e alguns outros países da América Latina, porém não sou da área.

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