Brasil quebrado, uma questão ideológica, por Andre Motta Araujo

Assim, quanto mais cortes menos arrecadação, o que agrava a crise fiscal. O método clássico de combate à recessão é pela expansão da renda e não pela sua contração, é a receita consagrada por Keynes e por Schahct na década de 30.

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Brasil quebrado, uma questão ideológica

por Andre Motta Araujo

Na grande imprensa brasileira não há contraponto ao credo neoliberal, os comentaristas repetem o coro de “O Brasil está quebrado” ou uma variante “Não há mais dinheiro, o Estado está quebrado”. Desde que se inventou o dinheiro de papel sem lastro não há Estado quebrado em sua própria moeda, que o diga os Estados Unidos que, em 1971 aboliu o lastro ouro que garantia o dólar, hoje moeda papel pura, sem lastro algum e com expansão de sua base ano a ano, seja em moeda papel seja em bônus do Tesouro, com isso garantindo a prosperidade relativa do País.

No Brasil falta moeda circulante, a economia está estagnada e, porque não se expande a base monetária, há enorme espaço para isso.

Quando a economia está em recessão, com 60 milhões de desempregados, subempregados, biqueiros, desalentados, isso significa, em qualquer manual básico de economia, que falta combustível para a máquina da economia funcionar e falta muito, a economia está estagnada há cinco anos.

E por que não se emite moeda, não se expande a base monetária? Por ideologia, crença de seita, não há outra razão.

MÉTODO DE EXPANSÃO

Como se pode expandir a base monetária?  Um exemplo, há múltiplos, o BNDES começa a financiar obras de infraestrutura para tomadores públicos e privados. Para fazer funding para esse programa, emite BÔNUS DE INFRAESTRUTURA, taxa de juros SELIC, à razão de R$50 bilhões por mês, faz leilão no mercado. Não havendo compradores o BANCO CENTRAL compra o que não for vendido emitindo moeda. O volume de R$50 bilhões ao mês nem faz cócegas à inflação. Há 30% de capacidade ociosa no PIB brasileiro, as fábricas podem produzir imediatamente um terço a mais em um só turno, há enorme sobra de mão de obra disponível, inflação só dá sinais quando o estoque de mão de obra acaba e a capacidade ociosa se esgota.

Quanto aos títulos públicos, como em qualquer País do mundo, seus compradores obrigatórios são os bancos, que não tem como guardar sua liquidez a não ser em títulos públicos, não são títulos que competem no mercado, são papeis de encaixe de liquidez, moeda com juros, há muito espaço para aumentar a dívida pública.

MAIS CORTES, MENOS ARRECADAÇÃO

A política de cortes sucessivos nas despesas correntes, especialmente concentrada em serviços públicos para os mais pobres, produz quedas de receitas porque essas despesas são, no seu lado contrário, renda de alguém, por trabalho ou prestação de serviço, o que produz arrecadação direta ou indireta.

Assim, quanto mais cortes menos arrecadação, o que agrava a crise fiscal. O método clássico de combate à recessão é pela expansão da renda e não pela sua contração, é a receita consagrada por Keynes e por Schahct na década de 30. Custa a crer que o grupo de economistas que comanda a política econômica brasileira desde o Plano Real só conheça a fórmula ortodoxa. Dirão que nos governos do PT aplicou-se a receita keynesiana e provocou problemas.

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O sucesso da receita não depende só dela, depende do bom cozinheiro, a receita keynesiana em mãos inábeis pode fazer desandar o prato.

Nos governos do PT houve fases de sucesso e outras não tanto por erros de operação e não de conceito. Por exemplo, o uso de recursos vultuosos do BNDES para a política de “Campeões Nacionais” foi um erro. Os recursos do BNDES foram usados para comprar empresas (caso JBS) e não para criar empregos ou construir infraestrutura, pior ainda, comprar empresas quebradas nos EUA. O que o Brasil ganharia com isso? Fortalecemos os EUA como nosso concorrente na exportação de carne, foi um grande erro e que não tem a lógica keynesiana.

A IDEOLOGIA DO AJUSTE FISCAL

A velhíssima ideologia do ajuste fiscal transformou a crise financeira de 1929 em Grande Depressão durante o Governo Hoover, que chegou até 1933 e perdeu, por isso mesmo, a reeleição para Franklin Roosevelt.  Herbert Hoover achava que, com cortes no orçamento, resolveria a crise, só a agravou ao máximo, levando o desemprego a 27% em 1933, da mesma  forma que o economista Heinrich Bruning, Chanceler da Alemanha antes  de Hitler elevou o desemprego a 40%, com a fórmula do ajuste fiscal, a mesma que hoje se aplica no Brasil.

Por trás da tese “o Brasil quebrou” está a noção pedestre muito usada pelos ajustistas de que “a economia de um País é como a de uma casa”, ideia que exposta por um economista deveria levar à cassação de seu diploma por ignorância absoluta. Um Estado arrecada impostos e pode emitir moeda, coisa que uma dona de casa não pode. Quando um Estado irriga a economia com gastos, ele recolhe de volta parte desses gastos como arrecadação porque os gastos retornam à economia como demanda e esta gera impostos. Da mesma forma, moeda injetada na economia provoca demanda e esta novamente gera impostos. O segredo está no MANEJO delicado e sensível desses mecanismos, em um processo de solta e aperta a ser operado diariamente com ajustes finos de estímulos e contrações, como Alan Greenspan fez por 20 anos à testa do Federal Reserve.

Delfim Neto também operava com um processo de ação e contração ajustado todos os dias e com isso o Brasil atingiu altas taxas de crescimento mesmo em meio a crises cambiais sérias. Indexação, tabelamento de preços, todos instrumentos de política econômica, NADA É SAGRADO EM ECONOMIA, deve-se operar com todos os instrumentos conhecidos, o que exige AGILIDADE MENTAL que os neoliberais de cartilha não têm. Eles seguem fórmulas fixas, o AJUSTE FISCAL é uma delas, a META DE INFLAÇÃO é outra, também CÂMBIO FLUTUANTE. A ideia é que sem isso não se atrai investimentos do exterior, MAS eles mantêm as amarras como quando não vem há muito tempo investimento do exterior, como em 2019. Quer dizer, pagamos todo o custo de manter um cenário atraente para o investidor externo e ele não vem, ao contrário, está indo embora.

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O MITO DO PAÍS QUEBRADO

Um País com quase 400 bilhões de dólares de reservas internacionais, grande exportador de alimentos, com enormes ativos industriais e minerais, sólido sistema bancário, autossuficiente em petróleo e energia elétrica, como pode estar quebrado? Está sim, por crença ideológica. É como dizer que uma pessoa de ótima saúde, rija e forte, está derrubada por desanimo, um quadro mais psicológico do que físico. É o caso do Brasil.

O País tem todas as condições de prosperidade e está derrubado, derrotado, no chão, porque tem um governo que optou pelo caminho da recessão, da derrubada da economia produtiva, da pesquisa, da educação, tendo uma população jovem e sedenta de educação e trabalho. Está quebrado porque há uma ideologia de derrotismo que vem de longe, começa no Plano Real com o PROER, as privatizações, a entrega do Banco Central aos economistas de mercado a serviço dos banqueiros do rentismo. A partir do Plano Real se criou a DÍVIDA PÚBLICA FEDERAL, que não existia em 1994, era muito pequena e fracionada em algumas estatais, valia pouco e podia ser resgatada com grande deságio, a dívida escalou pela ortodoxia burra.

A LEI DO TETO DE GASTOS

Na marcha da insensatez na política econômica depressiva, uma Lei de Teto de Gastos, inédita no mundo por sua completa aberração lógica, contribui para o fracasso de qualquer ideia de crescimento econômico. Com a maior parte do orçamento federal comprometido legalmente com salários e previdência, o LIMITE DE GASTOS cai sobre as despesas não obrigatórias, já muito pequenas, que são exatamente as que atendem a população das faixas C, D e E.

Quer dizer, mantém por força de lei salários de 40, 50 ou 80 mil nas corporações dos três poderes e corta-se o remédio nos postos de saúde.

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A LEI DO TETO DE GASTOS não oferece solução para gastos que compõe 93% do orçamento e joga todo o peso do ajuste nos 7% discricionários que são os de pesquisa, educação e saúde, voltados especialmente para os mais pobres. É uma Lei diabólica, além de insensata, concentradora de renda e até genocida, uma vez que fechamento ou neutralização de hospitais leva à morte de carentes que dependem do SUS para sobreviver.

Os gastos orçamentários devem sim ser controlados, mas no campo certo. Aluguéis do CNJ, viagens de Ministros do STM para a Grécia para participar de “seminários”, três bilhões por ano em passagens aéreas gastos pela União, há um oceano de DESPERDÍCIOS que continuam flutuando impávidos e que desconhecem qualquer teto de gastos. A Lei tem que ser revogada antes que o País se inviabilize como nação minimamente organizada.

Essa LEI DE TETO DE GASTOS é completamente IDEOLÓGICA, atende a uma fé cega na religião da ortodoxia econômica, na linha “um País é como uma casa de família”.

O AVISO DAS AGÊNCIAS DE RATING

A agência classificadora MOODY´S acaba de avisar que o Brasil está em observação para rebaixamento PORQUE NÃO CRESCE. Quer dizer, a “lição de casa” dos ortodoxos neoliberais do Plano Guedes não consegue agradar o mercado internacional, que já vem retirando mês a mês recursos da Bolsa brasileira, com sua Lei de Teto de Gastos, sucateamento da pesquisa, educação e saúde públicas, não está adiantando nada. ELES QUEREM VER O PAÍS CRESCER e,  para isso, a política é outra, não é essa sendo executada que já não convence o mundo fora do Brasil.

Enquanto isso o México, cuja orientação econômica é PRIMEIRO OS POBRES, está classificado TRES níveis acima do grau de investimento, com um governo de esquerda.

Uma política econômica nefasta, que agrava uma concentração de renda já historicamente péssima, ameaçando o sucateamento do Estado, dos programas mínimos de saúde e educação, das Forças Armadas, de uma INFRAESTRUTURA abandonada, tudo em nome de um louco” AJUSTE FISCAL” que desconstrói o País para atingir metas de tesouraria que tampouco melhoram o perfil do País nos mercados, uma política de fórmulas gastas aprendidas há 40 anos quando o mundo era outro. Nada disso está dando certo e o País caminha para o abismo por incompetência e mediocridade.

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12 comentários

  1. Araujo, é simples explicar as ações idiotas dos “economistas” que estão orientando esse circo que vocês chamam de governo.

    No geral o objetivo deles é transformar o Brasil em um pagador de juros, aonde o Guedes alocaria TODOS os recursos do país para o pagamento de juros se ele pudesse. Desenvolvimento não importa, educação não importa, o que importa é pagar juros para os bancos detentores da dívida brasileira (a qual por acaso vocês jamais fizeram uma auditoria para verem o quando estão realmente devendo não é mesmo?).

    Veja quanto pagam em juros em outros países e quanto pagam de juros no Brasil, é evidente que o país é uma galinha dos ovos de ouro para bancos e eles decidiram que eles querem MAIS.

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    • Grande Somebody, fazia tempo que não via um comentário seu por aqui. Vc é americano né? Mas faz uns comentários tão certeiros que chegam a doer. Me diga: como vc consegue enxergar tanto num país que nem seu é? Tell me your Secrets!
      Um abraço

      • Não sou americano, sou paulistano de 4 gerações mas tenho uma parte da familia materna americana tambem de 4 gerações e minha mãe foi criada nos EUA e tenho antigas ligações pessoais nos EUA.

        • André, somebody é o comentarista acima. Mas ultrapertinente o comentário básico, para o andar de cima tudo pode. E eu, em minha inocência, fico pensando como são articulados os aluguéis, viagens, cursos.

    • O governo vem baixando as taxas de juros e pretende baixar mais com as reformas e as taxas nunca chegaram a esse patamar que aliás é o menor da história, por isso seu comentário não faz sentido

  2. Texto muito bom. Eu apenas acrescentaria que as principais patrocinadoras dessa catástrofe são as famílias donas de bancos privados no Brasil – gente civilizada, como Salles, Setúbal, Aguiar . Apoiam Paulo Guedes – que não passa dum bolsonaro que, ao contrário do original, pensa que sabe de economia – pois este garante a essas famílias que elas não só não perderam uma vírgula dos privilégios que sempre mantiveram, mesmo no governo petista ( como impor ao povo juros que fariam um agiota morrer de vergonha ) como ainda acena que elas serão donas de fato do dinheiro do país após a venda da Caixa e BB – fora propostas indecentes como cpmf que não atinge aplicações financeiras. Enfim, garante que essas famílias não perderão nada e até ganharão mais ainda mesmo que isso custe a implosão do país. Infelizmente, André, parece que estamos naquele momento em que a elite abandona de vez o seu próprio país a sorte – como fez a elite alemã que apoiou Hitler ou da francesa, que fez pior, optou em tercerizar o poder para o Fuhrer, entregando de bandeja à pátria de Napoleão ao líder nazista. Alemanha e França, depois desse período abjeto que passaram, conseguiram se reerguer (verdade que sem o dinheiro americano do plano Marshall hoje a Europa talvez fosse uma américa latina 2) , mas é certo que as cicatrizes nunca sumirão. Será que terá a mesma sorte o Brasil ? Será que haverá um Brasil?

    • São uns sem vergonhas…..por acaso é proibido abrir bancos no Brasil? Claro que não, entretanto, e muito mais fácil pegar um solido e com todas as regalias de um banco estatal lucrativo….. assalto descarado …

  3. Bravo, André Araujo. O Pais não se desenvolve pela mediocridade de seus politicos e de sua elite. Hoje morreu Jacques Chirac e Emmanuel Macron fez um pronunciamento bonito, respeitoso, à altura de um ex-presidente da Republica. Qualquer que fosse o presidente na França teria feito o mesmo. Fiquei pensando que se Lula morresse por esses tempos é bem possivel que Bolsonaro, filhos e ministros decretem festa nacional e ainda zobem na internet daqueles que choram seus mortos. E é esse estado de coisa que precisamos começar a mudar no nosso Pais para sermos, como diz querer pessoas como Barroso, um pais civilizado. Uma verdadeira grande nação.

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  4. O Sr. Andre diz que é por ideologia, eu retruco que é pura safadeza……

    Um presidente de banco dizer que milhões de pessoas desempregadas é bom para a economia é digno de revolução……de pendurar algumas cabeças….

    Ou o país se livra do rentismo parasita, ou o rentismo parasita mata o país…..

    E esse sinistro da fazenda é uma bazófia, piada de mal gosto enfiada goela abaixo por um governo sem rumo e bizarro….

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  5. “…Um País com quase 400 bilhões de dólares de reservas internacionais, grande exportador de alimentos, com enormes ativos industriais e minerais, sólido sistema bancário, autossuficiente em petróleo e energia elétrica, como pode estar quebrado? Está sim, por crença ideológica…” ANTICAPITALISMO DE ESTADO. Em outra matéria, o sr. mesmo diz que Nossa Elite são uns 30 milhões de Altos Funcionários e Elite Política Brasileira. Esta gente não precisa de nada, fora as ‘ tetas ‘ do Estado Brasileiro. E a discussão não é o Estado Brasileiro, pelo amor de Deus. É esta Elite Parasitária, Caudilhista, Ditatorial, AntiCapitalista (dos outros) de Feudos Déspotas e Nepotistas. Não importam os Produtos serem brasileiros, nem as Empresas. Importa que 40% destes valores são incorporados pela Carga Tributária. Gasolina, Energia Elétrica, Automóveis, Comunicações, Transportes,…. Não importa para estas Elites produzirem EMPREGOS. Seus Empregos são sua parte do Feudo Nepotista, passado por gerações, de Avós para Netos. Não é mesmo Aécio? E a Família Arraes? E você, Bruno Covas? Maia, Toninho Malvadeza Neto, Barbalho’s,.. Delagnoll pertence ao Estado Concursado e Honesto? 9 décadas deste Estado replicados por 40 anos de farsante Redemocracia. E ainda estamos procurando respostas? Até o óbvio Nos parece de difícil compreensão. Pobre país rico. Mas de muito fácil explicação.

  6. Eu diria que é um governo de cretinos e “malacas”.
    Mais especificamente, o executivo só quer saber de “meter a mão”. Já na fazenda, o Guedes sabe muito bem o que faz: além do roubo, ele quer uma neo-colonia com neo-escravos, por isto é preciso seguir a cartilha neoliberal. Essa cartilha mantém milhões de brasileiros, vivendo ou convivendo ou flertando com a miséria, de tal sorte que se pode explorar convenientemente esse “contingente de seres humanos”.
    Um governo de malacas! De cretinos, hipócritas!
    Se o rating do Brazil for rebaixado: tome-lhe juros mais altos e “mais cortes para tornar o serviço da dívida administrável”.
    Velho truque.
    Para produzir uma crise cambial, com 400 bi em dólares de reservas….eu fico pensando no tamanho do golpe que terão de dar. Mas, tudo a seu tempo…a crise cambial fica para daqui a mais alguns anos.

  7. É a esquerda que vai fazer esse teto de gastos para os poderes?

    Eu não sei porque o Brasil não é um país de primeiro mundo depois de tanto tempo sob o comando da esquerda, já que pelo que diz o texto a esquerda errou pouco.

  8. + comentários

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