Brumadinho é o Brasil, por Wilson Ramos Filho

 
Brumadinho é o Brasil
 
por Wilson Ramos Filho, Xixo
 
Cinco da manhã soam sirenes, dá-se o alarme. A segunda barragem pode romper a qualquer momento.
 
Todos saem às ruas, mas sem pressa. Amanhece. A praça, cheia. Nas rodas, como seria de se esperar, as conversas oscilam entre confirmação de mortos e algumas mentiras. 
 
Desolação sem desespero, o luto ainda não começou. Resignação e contida revolta. Não há correria. Reina a paz e a consternação. Encontraram um ônibus na lama, muitos corpos de trabalhadores. Já não há espanto. A desgraça é tanta que da estupefação faz-se a desalentada normalização. É pior que Mariana? Sim, os mortos aqui somos nós, nossas famílias, nossos amigos. 

 
Um abobado, forasteiro, vem falar em desastre ecológico e nos danos à natureza, insensível, pós-moderno, aos danos às vidas dos que sobreviveram, às mortes encarnadas em enlameados cadáveres. Outro, oportunista, propõe uma reza. O cabeludo sem-noção fala em pachamama para zumbis, olhos no passado, querendo acordar do pesadelo. 
 
A culpa é do governo. Dos governos, dos políticos, ou das forças da natureza. Jamais do capitalismo, dos lucros dos acionistas ou da canalha defensora tacanha  do ultraliberalismo. Não há o que possa ser feito.
 
Vai estourar a outra “bagagem de dejeitos”? Só deus sabe. Estamos nas mãos de desígnios sobrenaturais. Fazer o quê? 
 
Sem pressa, sem altercação de vozes, sem urgências ou correrias a morte e a vida estão na praça de Brumadinho. Estão em todas as praças brasileiras e em todas as abrumadas mentes no país dos obscurantismos, das lamas infinitas, tóxicas, assassinas, como força compulsiva de ingovernáveis fatos.
 

1 comentário

  1. No estágio em que estamos a

    No estágio em que estamos a culpa não é mesmo do capitalismo, é do governo, que se omite na regulação do capitalismo, prevarica e se omite em trazer o capital em rédeas curtas. Os capitalistas estão apenas fazendo seu papel, maximizando lucros e concentrado-os no dólar dos EUA. Cabe ao estado, em defesa da nossa soberania, prosperidade e bem viver, impedí-los.

    (***)

    Aposto que entre as vítimas dessa tragédia há gente que tinha (será que depois dessa ainda tem?) por objetivo ser um dos diretores da Vale, um dia.

    “Se eu tivesse ‘chegado lá’, estaria confortável no meu escritório, talvez até fazendo como o diretor de lá está: arrumando modos de ressarcir o menos possível às vítimas, e não aqui, sem eira nem beira.”

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