Por uma Frente Latino-Americana em Defesa da Soberania
por Francisco Celso Calmon
Por uma Frente latino-americana de defesa da soberania de todos os países ante a postura do imperialismo estadunidense.
Ao longo da história houve países colonialistas e imperialistas. O que tinham em comum e em diferenças?
O colonialismo e o imperialismo são formas de dominação de um país sobre outro. O primeiro com foco na ocupação física dos países e no uso da força, inclusive com a escravização de povos inteiros. O imperialismo, especialmente em sua forma moderna, passou a operar também pelo controle econômico, pela expansão das indústrias, pelo capital financeiro e pela busca de matérias-primas, mercados consumidores e áreas estratégicas de influência. Mantém controle direto ou indireto, muitas vezes submetendo governos locais a fortes pressões econômicas, políticas e culturais.
Portanto, ambos foram e são formas de dominação de territórios e povos, direta ou indiretamente.
Brasil foi colônia. Cuba foi colônia.
Nosso país deixou de ser colônia portuguesa sem uma guerra de independência prolongada, embora tenha sido marcado por conflitos, revoltas e lutas de resistência. A independência brasileira preservou, entretanto, grande parte das estruturas econômicas e sociais herdadas do período colonial, inclusive a escravidão, que permaneceria por décadas.
Cuba deixou de ser colônia espanhola depois de uma longa e sangrenta luta de independência. Mas a independência formal não significou soberania plena. A intervenção dos Estados Unidos na guerra hispano-cubana e, posteriormente, a forte influência política, econômica e militar norte-americana sobre a ilha fizeram com que Cuba permanecesse submetida a uma relação de dependência. A Emenda Platt consolidou mecanismos de ingerência dos Estados Unidos sobre a República Cubana, inclusive permitindo a intervenção militar norte-americana.
Foi contra essa realidade que se desenvolveu uma longa tradição de resistência cubana, que encontrou na Revolução de 1959 um momento decisivo de ruptura. A Revolução Cubana derrubou a ditadura de Fulgencio Batista e iniciou um processo de profundas transformações sociais e econômicas, ao mesmo tempo em que rompeu com a posição de dependência que Cuba mantinha em relação aos Estados Unidos.
É nesse contexto que Cuba se tornou uma referência para parcelas importantes da esquerda latino-americana.
A chamada geração de 1968, que enfrentou a ditadura militar brasileira e as diferentes formas de repressão política daquele período, encontrou na Revolução Cubana uma experiência concreta de enfrentamento ao imperialismo, à desigualdade e às estruturas de dominação. Isso não significa afirmar que toda aquela geração pensasse da mesma maneira ou que todos os seus integrantes tivessem Cuba como referência política. Mas é inegável a força simbólica que a experiência cubana exerceu sobre setores da juventude, dos movimentos sociais, das organizações políticas e da intelectualidade latino-americana.
O que seria de parte das gerações de lutadores brasileiros sem Cuba e seus líderes como inspiração na década de sessenta?
Fidel, Camilo, Guevara e tantas outras mulheres e homens que participaram daquele processo foram, para muitos militantes latino-americanos, entusiasmos criativos e alentos para a nossa fome de liberdade e para o sonho de construir um novo Brasil.
Quando os Estados Unidos pressionam economicamente um país, intervêm em seus assuntos internos, impõem sanções, bloqueios ou tarifas com objetivos políticos, apoiam governos ou forças políticas que lhes sejam convenientes e utilizam seu enorme poder econômico e militar para condicionar decisões soberanas de outros povos, estamos diante de uma relação de poder que precisa ser analisada criticamente.
Isso não significa transformar nenhum governo latino-americano em intocável ou considerar que soberania seja sinônimo de concordância com qualquer decisão de um Estado. Um país soberano também deve ser livre para ser criticado por seu próprio povo e pela comunidade internacional.
A América Latina precisa recuperar uma ideia que esteve presente em diferentes momentos de sua história: a de que nossos países podem ter divergências políticas, econômicas e ideológicas entre si, mas precisam ser capazes de construir uma posição comum diante de qualquer tentativa de submissão externa.
Uma Frente Latino-Americana em Defesa da Soberania não deveria ser uma frente contra o povo norte-americano. Tampouco deveria significar o alinhamento automático a qualquer governo latino-americano. Deveria ser uma frente pela autodeterminação dos povos, pelo direito de cada país escolher seu próprio caminho e pela rejeição de qualquer forma de tutela imperial.
Brasil, Cuba, Venezuela, Bolívia, Colômbia, México, Chile, Argentina, Nicarágua e todos os demais países da América Latina possuem histórias, governos, culturas e projetos diferentes. Precisamente por isso, precisam defender o princípio que permite a existência dessas diferenças: a soberania nacional.
A América Latina não pode continuar sendo tratada como quintal de nenhuma potência.
Nossa história foi marcada por colonialismo, dependência econômica, golpes, intervenções estrangeiras, ditaduras e exploração de nossas riquezas. Também foi marcada por resistência, por movimentos populares, por trabalhadores organizados, por estudantes, camponeses, intelectuais e povos indígenas que jamais aceitaram completamente a condição de subordinados.
Se ontem a luta era contra o colonialismo e as ditaduras apoiadas por interesses externos, hoje ela também precisa enfrentar a dependência financeira, a captura de recursos estratégicos, a pressão econômica, a guerra de informações e as novas formas de intervenção política.
Foi esse o sonho de tantas gerações. E continua sendo uma necessidade.
Francisco Celso Calmon, Analista de TI, administrador, advogado, autor dos livros Sequestro Moral – E o PT com isso?, Combates Pela Democracia, 60 anos do golpe: gerações em luta, Memórias e fantasias de um combatente; coautor em Resistência ao Golpe de 2016 e em Uma Sentença Anunciada – o Processo Lula. Coordenador do canal Pororoca e um dos organizadores da RBMVJ.
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