Carta para a mãe biológica, por Mariana Nassif

Carta para a mãe biológica, por Mariana Nassif

A coisa que mais me chama a atenção neste primeiro momento é a presença da lógica nesta palavra que, somada com a bio, denomina o que é quase inerente a todo e qualquer ser. Por mais que eu queira fugir disso, me esconder desta lacuna dolorida, existe, tanto em psicologia, esta ciência que me encanta cada vez mais, seja por me elucidar, seja por encaminhar minha própria existência, as sensações plantadas no meu ser são incapazes de experimentar tranquilidade neste abandono.

Não questiono o acolhimento, mesmo que trabalhe em solidão as qualidades deste movimento que partiu de gente que também não tinha explicação, só amor, pra dar. Minhas interrogações partem de um lugar que sequer conheço bem, e daí já é complexo demais pra colocar em palavras. Eu, que tento encontrar um jeito pra tudo, preciso me confrontar e me conformar de que, muito provavelmente, essa história não terá as linhas das respostas preenchidas. Adoção tem esse quê de doce, e eu não quero viver amargurada por algo que nem sei.

 

Me deixa muito mais que curiosa saber o que aconteceu com você, isso que resultou em mim. O invisível cansou de explicar que não foi um ato de amor, sequer de descuido, o que faz transparecer que a violência no ser, como se meu existir fosse por premissa uma agressão, seja pauta constante por aqui, e desde então venho me esforçando e me comprometendo em encontrar o amor. Já procurei ali, nos homens que pensei amados; já imprimi numa relação de igual categoria, expressando as melhores verdades e algumas mentiras para aquela que carrega toda essa carga constelada em forma de filha; venho trabalhando a relação com meus pais, os que assumiram a responsabilidade de somar energias nesta caminhada a qual chamamos de vida – mas a verdade é quase única: existe em mim uma lacuna de dor que você deixou, e eu sequer sei quem é você.

Que deve ter a pele preta, os olhos grandes e alguma esperança de que tudo pode dar certo, disso eu quase não duvido: características que pulsam tão naturalmente em mim que chego a associar ao invisível que me foi dado de presente, quem sabe pra compensar a ausência de onde eu vim, pra fazer do pra onde eu vou um lugar mais bonito. Que deve ter tido medo, dores e dissabores tão maiores do que as incertezas da união, pois sim, a união tem essa aflição de se saber não eterna e dói também, mesmo quando acolhe a gente e nem pergunta os porquês; estes todos que eu quero te perguntar e nem sei quem você é.

Tento te perdoar nestas datas especiais e tão juntas: aniversário, natal, o novo ano que rompe no dia 31. Tento, porque provavelmente a única coisa que falta é este saber. Quem é você? E sigo, trabalhando por aqui pra lidar com este vazio enorme que sua presença traz, quem é você? Tentando não jogar pra um, pra outro, pra mim mesma essa dolorida ferida, presente e latejante, que sua ausência formou. A raiva, a compaixão, a tentativa forte de, mesmo sem saber, aceitar.

A solidão acompanhada daquilo que não vejo, mas sinto. Caboclas, ciganas. O fogo que arde em mim e não me deixa apagar. Salvação, mesmo que por estímulos de faíscas incandescentes e vez por outra indecentes – quero, preciso e farei o que for preciso pra ser eu, mesmo sem saber quem é você.  

 

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2 comentários

  1. Mães

    De forma respeitosa relato aqui o que aconteceu comigo:

    Tinha eu em janeiro de 1994,,, 43 anos…Meu único filho,,,amado,,,mais que adorado ,,,18,,,quase 19,,,saiu de manhã e me disse na porta do meu quarto…- Mãe estou indo.

    Foi e nunca mais voltou…Era um sábado e ele como sempre  ia à USP de bike pela Marginal Pinheiros. E ali ficou estendido no asfalto sem vida quase em frente ao Transamérica…Foi atropelado antes das nove e meia da manhã.

    Depois daquele dia,,,daquele momento,,,daquela tragédia em minha vida nunca mais lembrei em datas festivas,,,como por ex.meu aniversário em cada 22/11,,,em Natais,,,em dia das Mães ou mesmo em outros dias,,,da mulher que me colocou no mundo e me deu para uma louca “criar”….

    Precisei perder meu único filho,,,um filho que era tudo o que eu queria ser,,,para esquecer a biológica.

    Esqueci e nunca mais,,,nunca mais mesmo chorei por ela ter me abandonado.

     

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