Com apoio do BC, “riqueza” dos donos do dinheiro supera toda a dívida bruta, por Lauro Veiga Filho

Na crise, não apenas as aplicações cresceram, mas o PIB encolheu, o que fez elevar a níveis recordes a relação entre ativos financeiros e as riquezas produzidas pela economia real.

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Com apoio do BC, “riqueza” dos donos do dinheiro supera toda a dívida bruta

por Lauro Veiga Filho

A indústria de fundos de investimento recuperou-se rapidamente da queda experimentada entre fevereiro e março deste ano e passou a registrar em agosto passado patrimônio líquido de R$ 5,034 trilhões, perto de R$ 312,285 bilhões a mais do que no encerramento do primeiro trimestre deste ano, numa alta de 6,2% em cinco meses, segundo levantamento da consultoria Economática com base em dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Na passagem de fevereiro para março deste ano, os fundos chegaram a perder R$ 28,886 bilhões, com o patrimônio líquido recuando de quase R$ 4,979 trilhões para pouco menos de R$ 4,722 trilhões.

O recuo foi mais do que compensado pelos ganhos a partir de março, no mesmo momento em que o lado real da economia afundava em sua pior crise em toda a história recente, o que apenas reforça o descasamento do setor financeiro em relação a todo o restante da economia. A ponto de a soma de todas as aplicações financeiras ser recorrentemente maior do que a dívida de todos os governos no País. Parte relevante desses ativos, na prática, está relacionada ao endividamento crescente do Estado brasileiro, enquanto os “donos do dinheiro” continuam definido as linhas centrais da política econômica.

Já na saída da crise, na segunda metade de março, o Banco Central (BC) respondeu prontamente e anunciou um “pacotaço” de quase R$ 1,274 trilhão, em torno de 17,5% do Produto Interno Bruto (PIB), exclusivo para o setor financeiro, entre empréstimos diretos, liberação de depósitos compulsórios, recompra de títulos em poder dos bancos e outras medidas de socorro. O objetivo: evitar que títulos em poder dos bancos, corretoras, financeiras e de seus fundos de investimento perdessem valor diante do aumento da volatilidade e dos riscos em todo o mercado. A celeridade, obviamente, contrasta com os atropelos e a demora da equipe econômica para socorrer empresas, trabalhadores e suas famílias. Tratava-se, afinal, de salvar a “higidez” do sistema financeiro e preservá-lo de uma crise por suposta falta de reais (uma crise de liquidez, como dizem os economistas).

O patrimônio líquido da indústria de fundos, que inclui aplicações em renda fixa, ações, fundos de previdência, dólar e outras moedas estrangeiras e os chamados fundos multimercados (que reúnem investimentos em diversos papéis, desde ações, certificados de depósitos bancários, títulos públicos ou privados, câmbio e até derivativos), aumentou 49,5% desde janeiro de 2017. O crescimento acumulado a partir dali até agosto deste ano foi quase duas vezes maior do que a variação do Índice Geral de Preços do Mercado (IPG-M), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que experimentou alta de 25,06% em igual período. Na comparação com o PIB, o patrimônio dos fundos passou a representar alguma coisa ligeiramente acima de 70,0% em agosto deste ano, o que se compara com menos de 57,0% em 2017 e em torno de 64,4% em março deste ano. Em outro exercício, apenas como referência, a dívida bruta do governo geral apresentou variação de 41,16% desde janeiro de 2017.

Caminho para o ajuste

Incluindo outros ativos financeiros, como a poupança e operações compromissadas com títulos públicos e privados (venda com compromisso de recompra à frente e vice-versa), o saldo da “riqueza” financeira acumulada pelos donos do dinheiro no País atingiu em julho R$ 7,397 trilhões, superando não apenas todo o estoque da dívida dos governos como também toda a riqueza que o lado real da economia conseguiu gerar no espaço de um ano. Segundo estimativa do BC para o PIB acumulado nos 12 meses terminados em julho deste ano, aquela montanha de dinheiro passou a representar 103,1% de tudo o que o País produziu. A dívida bruta, ainda em julho passado, havia atingido R$ 6,210 trilhões, perto de 86,5% do PIB. Apenas como hipótese, numa provocação aos “austericidas”, se o total dos ativos que circulam no mercado financeiro pudesse ser mobilizado integralmente para cobrir a dívida dos governos, ainda restaria um “troco” de R$ 1,187 trilhão (16,5% do PIB). É claro que esta possibilidade não está disponível, mas serve como referência quando se trata de discutir a política fiscal e as opções para o ajuste que se fará necessário depois de debelada a pandemia e com a economia recuperada. Sob este ponto de vista, uma taxação mais severa sobre ativos financeiros parece fazer muito mais razão do que um arrocho fiscal que tenderia a condenar a economia ao retrocesso e ao desemprego crescente.

Alta em meio ao desmanche

De volta à indústria de fundos, os dados da Economática mostram que os fundos multimercados e de ações tiveram melhor desempenho na comparação entre agosto do ano passado e o mesmo mês deste ano. Os primeiros registraram uma captação líquida de R$ 115,760 bilhões, passando a acumular um patrimônio líquido de 1,330 trilhão. Em um ano, o crescimento foi de 9,5%. Os fundos de ações, proporcionalmente, tiveram melhor desempenho, com avanço de 21,2% em seu patrimônio líquido, para R$ 526,024 bilhões em agosto deste ano, respondendo a uma captação líquida de R$ 91,885 bilhões – o que tem aquecido os negócios com ações e contribuído para que a Bolsa de Valores sustente desempenho muito positivo em meio ao desmanche de setores inteiros da economia. Embora apresentem o maior patrimônio do setor, os fundos de renda fixa perderam praticamente R$ 41,930 bilhões nos 12 meses até agosto passado, acumulando R$ 2,192 trilhões em aplicações, significando um recuo de 1,88% em relação ao mesmo mês do ano passado.

Considerando todo o estoque de ativos financeiros, agora com base em dados do BC, o ritmo de crescimento chegou a apresentar aceleração durante a pandemia, especialmente por conta dos títulos privados. Nos sete meses entre julho de 2019 e fevereiro deste ano, aquele saldo havia registrado variação de 4,7%, passando de R$ 6,543 trilhões para R$ 6,806 trilhões. Como proporção do PIB estimado pelo BC, a relação chegou a baixar e 92,34% para 93,04%.

Na crise, não apenas as aplicações cresceram, mas o PIB encolheu, o que fez elevar a níveis recordes a relação entre ativos financeiros e as riquezas produzidas pela economia real. Analisado em termos nominais, com base nas projeções do BC, o PIB baixou de R$ 7,315 trilhões nos 12 meses encerrados em fevereiro deste ano para R$ 7,177 trilhões em julho (queda de 2,2%). No mundo das finanças, os donos do dinheiro passaram a movimentar R$ 7,397 trilhões em julho, como visto, perto de R$ 591,305 bilhões a mais do que em fevereiro, numa alta de 8,7% em cinco meses. Em relação ao PIB, o estoque da “riqueza financeira” subiu para aqueles 103,1% (ligeiramente acima dos 102% registrados em junho).

Ainda entre fevereiro e julho, enquanto as aplicações em títulos federais baixaram 8,4%, para R$ 392,018 bilhões, refletindo a queda nos juros, os investimentos em títulos privados emitidos pelo sistema financeiro nacional aumentaram 21,6%, somando R$ 2,183 trilhões. Mas o saldo das operações compromissadas com títulos federais aumentou 7,5%, para R$ 136,410 bilhões, com o BC recorrendo a esse tipo de operação para enxugar do mercado parte dos reais emitidos para atender às medidas de enfrentamento da crise sanitária.

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