Como confundir crença com ciência transforma vieses de gabinete em destino econômico do Brasil
por Marco Antônio S. C. Castello Branco
Desde que o Banco Central da Suécia criou, em 1968, o “Prêmio de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel”, os economistas passaram a desfrutar de um prestígio curioso. De repente, a profissão que por muito tempo foi vista como arte de conjeturar sobre o futuro assumiu ares de física social: modelos matemáticos, gráficos coloridos, linguagem de laboratório. Muitos passaram a se apresentar como guardiões de leis universais da economia, tão objetivas quanto a gravidade.
Essa busca por reconhecimento científico está no pano de fundo da retórica que hoje domina o Banco Central do Brasil. Quando o presidente Gabriel Galípolo afirma que a autoridade monetária “não pode brigar com os dados” para justificar a Selic de 15% em cenário de inflação cadente, ele não está apenas defendendo uma decisão técnica. Está reivindicando, para si e para seus pares, o lugar de intérpretes privilegiados de uma verdade econômica supostamente neutra. Aliás abordei em outro lugar que a neutralidade axiológica é um ideal regulativo da tecnocracia de governo, não uma condição possível, e como ele se transforma em poder ideológico e dogmático, quando esse ideal é aceito como fato O problema é que um dos laureados pelo próprio “Nobel de Economia”, Richard Thaler, passou a carreira desmontando exatamente essa pretensão. A grande contribuição de Thaler foi mostrar que nem os agentes econômicos nem os formuladores de política se comportam como máquinas racionais. Consumidores, investidores e, sim, membros de comitês de política monetária sofrem dos mesmos vieses: aversão à perda, excesso de confiança, efeito manada, apego ao status quo.
Quando o Copom decide manter uma taxa de juros que produz juro real entre os mais altos do planeta, não está simplesmente obedecendo a uma equação. Está reagindo a medos, narrativas e pressões políticas. Um desses medos é o de perder a aura de infalibilidade científica. Melhor errar para o lado do excesso de zelo – mantendo juros altos demais, por tempo demais – do que ser acusado de “frouxidão” se a inflação surpreender um ou dois décimos acima da meta. Em termos de Thaler, é a aversão à perda reputacional moldando a política monetária.
Outro viés é o da confirmação. Parte importante da comunidade econômica, sobretudo a que domina os debates em torno da pesquisa Focus, parte de uma premissa ideológica: o Estado brasileiro é estruturalmente irresponsável, governos eleitos são propensos ao populismo e qualquer sinal de gasto público mais ousado é prenúncio de descontrole inflacionário. A partir dessa crença, lê-se cada dado como prova adicional de que é preciso manter a âncora apertada. Expectativas de inflação ligeiramente acima da meta, que poderiam ser interpretadas como ruído, viram sinal de alerta máximo.
Thaler nos ensinou a desconfiar dessa confiança excessiva na capacidade de previsão dos economistas. Ao estudar poupança, consumo e finanças, ele mostrou que as pessoas organizam mentalmente seu dinheiro em “contas” separadas, exageram a importância de choques recentes e confundem preços nominais com ganhos reais. Se isso vale para famílias e empresas, por que não valeria para analistas que preenchem a Focus? A pesquisa não registra “a” expectativa racional da economia; registra as impressões de um grupo relativamente homogêneo, submetido às mesmas manchetes, aos mesmos incentivos e ao mesmo temor de destoar do consenso.
Ainda assim, o Banco Central escolhe tratar essas expectativas como se fossem um fato da natureza. Pior: ao comunicar reiteradamente que só cortará juros quando a Focus “ancorar” na meta, o BC contribui para cristalizar um cenário pessimista. Analistas incorporam a mensagem, ajustam seus modelos de acordo com o que acreditam que o BC vai fazer, e o resultado da pesquisa passa a refletir tanto a avaliação de inflação quanto o jogo de adivinhação em torno das decisões futuras do próprio Copom. Temos assim um circuito de retroalimentação em que o viés do Banco Central se torna o viés do mercado, que volta na forma de “dado incontestável”.
As consequências sociais dessa engenharia são tudo menos neutras. Uma Selic de 15% num país com desigualdade extrema significa transferir renda do conjunto da sociedade para o topo que detém ativos financeiros. Estimula operações de curto prazo, como o carry trade cambial, e pune investimentos produtivos de longo prazo. Ao encarecer o crédito, aprofunda a exclusão de quem já enfrenta barreiras para empreender ou consumir. Em nome de proteger a “credibilidade” da política monetária, consolida-se a credibilidade de que o Brasil é, acima de tudo, um paraíso de rentistas.
O paradoxo é que justamente o avanço da economia comportamental que, reconhecido em 2017 no prêmio Nobel de Richard Thaler, deveria ter levado os bancos centrais a uma postura mais humilde. Em vez disso, vemos o oposto: uma insistência quase dogmática em modelos de expectativas racionais e em regras de reação que ignoram o comportamento real de trabalhadores, empresas e famílias. É como se a disciplina, ao ganhar o verniz da ciência dura, tivesse perdido a capacidade de olhar para os seres humanos de carne e osso.
Livrar o Banco Central dessa camisa de força ideológica exige mais do que trocar nomes no Copom. Requer reconhecer, abertamente, que as decisões de juros são permeadas de julgamento, incerteza e viés, e que isso precisa ser administrado, não negado. Significa diversificar as fontes de informação, reduzir o fetiche da Focus, submeter as projeções a escrutínio público e incluir, na análise de custos e benefícios, não apenas a inflação, mas também o impacto sobre desigualdade, emprego e estrutura produtiva.
Enquanto isso não acontecer, continuar ouvindo que “o BC não pode brigar com os dados” soará menos como prudência técnica e mais como desculpa pronta. Porque, na prática, quem está apanhando não são os dados: é a maioria da população, submetida a uma política monetária que confunde crença com ciência e transforma vieses de gabinete em destino econômico nacional.
Marco Antônio S. C. Castello Branco – Doutor em Metalurgia pela TU Clausthal, Alemanha, Ex-presidente da Vallourec & Mannesmann do Brasil, da Usiminas e da Cia. de Desenvolvimento de Minas Gerais; membro do Conselho de Administração da Eletronuclear.
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Paulo Dantas
20 de novembro de 2025 11:27 amO bom da Economia é que você está sempre errado.
Para alguém.
Alguém diz que é Ciência
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GalileoGalilei
20 de novembro de 2025 1:57 pmMuito bem escrito e, melhor, muito bem explicativo!