O Monstrengo e a Rota da Fragilidade
por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
1. A Guerra por procuração com a Rússia, o conflito nos Estreitos e o Choque nas Rotas Globais
O mundo assiste, mais uma vez, à geopolítica do petróleo reescrever as rotas do comércio global. Os ataques dos Houthis, aliados do Irã, no Mar Vermelho, e a sombra permanente de um fechamento do Estreito de Ormuz não são episódios isolados de instabilidade regional. São golpes diretos na espinha dorsal da logística mundial. Ormuz, por onde escoa um terço do petróleo marítimo do planeta, e Bab el-Mandeb, porta de entrada do Canal de Suez, são as duas válvulas que controlam a pressão do comércio entre o Oriente e o Ocidente.
Para a Europa e para a Ásia, a ameaça é imediata e visual, navios tanques e porta-contêineres são forçados a desviar pelo Cabo da Boa Esperança, alongando viagens em semanas e elevando fretes a patamares estratosféricos. O desvio, no entanto, é apenas o sintoma mais visível. A doença é a incerteza sobre o abastecimento de energia e insumos básicos, que se espalha como um rastilho de pólvora pelos preços internacionais.
E o Brasil, que se orgulha de ser uma potência agrícola e um gigante do pré-sal, onde se encaixa nesse tabuleiro? A resposta, para surpresa de muitos, é: no centro do alvo, mas não por sua localização, mas por sua fragilidade adquirida durante os governos Temer e Bolsonaro.
2. O Exportador de Petróleo que Importa a Crise
À primeira vista, o Brasil parece imune ao desvio forçado de rotas. A distância adicional imposta pelos conflitos, do Cabo da Boa Esperança até o litoral brasileiro, não é critica. O problema não está no trajeto , mas no que é transportado. O Brasil é um dos maiores exportadores de petróleo pesado do mundo, mas, paradoxalmente, depende da importação de derivados — diesel, gasolina e, sobretudo, fertilizantes.
Quando os estreitos se fecham, o petróleo bruto brasileiro ainda encontra compradores, mas o diesel que abastece os caminhões que escoam a safra e a ureia que aduba o solo do agronegócio tornam -se cada vez mais caros. O país aprofunda sua fragilidade de periferia, exportando sua riqueza em bruto e importando a própria sobrevivência como exportador. E essa inversão perversa não é obra do acaso, nem fruto de leis geológicas ou de mercado. É o resultado direto de uma escolha política, quando não ideológica.
A Petrobras, no período Bolsonaro, recebeu o epíteto de “monstrengo” a ser desmontado. Durante os governos de Temer e Bolsonaro, a Petrobras — que até 2014 tinha um orçamento maior que o PIB de dezenas de nações — foi esvaziada do seu papel de indutor do desenvolvimento. Refinarias foram vendidas ao preço de seu imobilizado já depreciado. As Fábricas de Fertilizantes (Fafen) foram fechadas. A cláusula de conteúdo local, que obrigava o uso de engenharia e insumos nacionais, foi rasgada. O resultado é o que se vê hoje: um país que não refina o próprio petróleo, que não produz os adubos e fertilizantes de que depende e que, diante de qualquer turbulência nas rotas do Oriente Médio e da Rússia, se curva à volatilidade internacional.
3. A Ideologia em Ação e o Neoliberalismo como Saque
O que se praticou no Brasil na última década não foi uma “reorientação estratégica” ou um “ajuste fiscal”. Foi uma operação ideológica em estado puro, travestida de eficiência econômica. A cartilha neoliberal, que prega a redução do Estado a seu mínimo existencial, encontrou na Petrobras seu alvo mais cobiçado. Não por acaso, foi sob a gestão de Levy, agravada com Meireles e levada ao paroxismo com Paulo Guedes, que a política monetária restritiva e o arrocho fiscal se tornaram a camisa de força da economia brasileira.
Mas a verdade é que o Estado brasileiro tinha, até 2017, uma válvula de escape para essa camisa de força, o orçamento da Petrobras. Enquanto o Banco Central e o Ministério da Fazenda operavam com juros reais estratosféricos e contingenciamento de gastos, a estatal injetava recursos na economia real — construía estaleiros, dutos, terminais portuários, aeroportos, movimentava cadeias industriais e gerava empregos de alta qualificação. A Petrobras era, na prática, um contrapeso ao monetarismo desenfreado, uma força que mantinha viva a indústria nacional independentemente das restrições impostas pelos neoliberais.
Desmontar esse orçamento não foi um efeito colateral do ajuste; foi o objetivo central da política econômica. Porque enquanto a Petrobras tivesse poder de fogo para investir em infraestrutura de longo prazo, a lógica financeira de curto prazo jamais teria hegemonia absoluta sobre a economia. Transformar a estatal numa mera exportadora de petróleo bruto, dependente da importação de derivados e atrelada à política de preços de paridade internacional, foi a maneira encontrada para subordiná-la à lógica dos mercados, e não à lógica do desenvolvimento nacional.
4. O Monstrengo que Incomodava a Financeirização
O incômodo que a Petrobras causava ao capital financeiro não era por acaso. Uma empresa com orçamento superior ao de muitos países, que investia pesado em ativos fixos, que construía portos e aeroportos e que sustentava uma cadeia de fornecedores nacionais, era uma anomalia no mundo da especulação. O capital financeiro não se sente confortável com ativos de longo prazo, com soberania sobre insumos ou com desenvolvimento endógeno. Ele prefere a liquidez, a volatilidade, a dependência de importações que possam ser precificadas internacionalmente.
A Petrobras, em seus anos de glória, era uma muralha contra essa lógica. Cada refinaria mantida em operação, cada estaleiro em funcionamento, cada fábrica de fertilizantes produzindo ureia era uma vitória da engenharia nacional sobre a cartilha da importação. E cada vitória dessa era uma derrota para a financeirização, que via o Estado brasileiro escapar de seu controle.
Por isso, o desmonte foi catastrófico. Não houve cuidado, não houve transição, não houve planejamento. Houve apenas a fúria ideológica de um projeto que via no “monstrengo” um obstáculo a ser implodido. Refinarias foram vendidas a preços que sequer cobriam o valor de reposição. Fábricas de fertilizantes foram desativadas sem que houvesse qualquer plano alternativo de abastecimento. A engenharia nacional foi desmontada, e o país inteiro ficou nu diante da primeira tempestade geopolítica.
5. O Ultraparadoxo Ruralista que Aplaudiu o Próprio Fim
Mas nenhuma incoerência é tão eloquente quanto a dos ruralistas. O agronegócio brasileiro, que hoje é a locomotiva das exportações, aplaudiu de pé cada passo do desmonte. Comemorou a venda das refinarias, vibrou com o fim do conteúdo local, celebrou o fechamento das Fafen como se estivesse se livrando de um peso morto. Os ruralistas, que deveriam ser os primeiros defensores da soberania sobre diesel e fertilizantes, bateram palmas para a política que os tornaria reféns do mercado internacional.
E por que fizeram isso? Por uma cegueira ideológica movida a fé cega no mercado. Acreditaram que o agronegócio era competitivo por milagre, que a terra e o sol bastavam, que a logística se resolveria sozinha. Não perceberam que, por trás do milagre brasileiro, havia décadas de investimento estatal em infraestrutura — portos, dutos, estradas, energia e, acima de tudo, o diesel a preços competitivos e os fertilizantes produzidos internamente. Tudo isso era obra do “monstrengo”, o mesmo que eles aplaudiram por ser demolido.
Agora, com os estreitos do Oriente Médio sob ameaça, os ruralistas olham para o horizonte e enxergam o que não queriam ver, o custo do frete disparado, a ureia importada nas alturas e o diesel drenando a margem de seus negócios. E pior: sabem que não há mais o “monstrengo” para socorrê-los. A estrutura que poderia produzir esses insumos aqui dentro foi desativada, vendida, sucateada. O que eles aplaudiram como liberdade econômica era, na verdade, a entrega da soberania do país.
O ultraparadoxo ruralista é, assim, a síntese de toda a tragédia: aplaudir o desmonte do único agente capaz de garantir a competitividade do próprio setor. É o triunfo da ideologia sobre a realidade, da fé cega no mercado sobre a percepção do óbvio. E agora, diante da crise geopolítica, não há tempo para reconstruir o que foi tão orgulhosamente destruído. O monstrengo foi abatido e o país, alijado de suacapacidade produtiva, enfrenta a tempestade.
Epílogo
O fechamento dos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb não é, para o Brasil, uma crise logística. É o teste final de uma escolha política que vinha sendo feita há anos. A escolha de entregar a soberania energética e produtiva do país às oscilações do mercado internacional. A escolha de desmontar o “monstrengo” em nome de uma eficiência que nunca veio. E, principalmente, a escolha de acreditar que o Brasil poderia ser uma potência agrícola sem ter o Estado como seu maior aliado.
O preço dessa escolha está sendo pago agora, na bomba do posto, no custo do frete, no preço do adubo. E continuará sendo pago até que o país decida reconstruir o que foi implodido — não como um gesto de nostalgia, mas como um ato de sobrevivência. Porque, no fim das contas, o monstrengo não era o problema. Ele era a única coisa que, no meio da tempestade, ainda podia proteger o Brasil de si mesmo.
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário