Como viramos fascistas?, por Antonio Quinet

O fascismo é como a guerra: o ódio ao outro é a regra. Devido às características próprias da linguagem, aquilo que é possível se torna rapidamente um imperativo.  E a ordem é: Odeie!

Como ocorreu a onda fascista no Brasil que elegeu um presidente de extrema-direita?

Sem dúvida havia uma grande insegurança da população gerada pela crise econômica mundial que repercutiu no Brasil e foi manipulada para desestabilizar o governo da presidente eleita Dilma Rousseff até chegar no impeachment motivado por interesses políticos e da elite financeira do Brasil.

Houve também o descrédito na classe política em geral devido aos escândalos de corrupção e principalmente seu fomento pela grande imprensa gerando uma saturação da população em relação aos políticos como um todo.

A propaganda anti-petista, anti-comunista, a ameaça de virarmos uma “Venezuela”, uma “Cuba”, serviram muito bem à classe empresarial, ao capital estrangeiro e ao mercado. Enfim ao neoliberalismo radical. E nisso tudo apareceu a figura do líder num deputado inexpressivo, capitão do exército reformado, com um indisfarçado limitado cabedal de conhecimento e pouca capacidade de expressão?

Como que alguém como Jair Bolsonaro chegou a ocupar o cargo de Presidente da República? Trata-se de alguém que foi catapultado à notoriedade durante a votação do impeachment da Dilma (propagado pela televisão e rede nacional para todo o Brasil) ao traçar sua plataforma eleitoral: “pela família e pela inocência das crianças em sala de aula (coisa que o PT não fez), contra o comunismo e pela nossa liberdade, em memória de Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Roussef, por Duque de Caxias e as nossas forças armadas, pelo Brasil acima de tudo e Deus acima de todos”.

Essa narrativa, declaradamente a favor da tortura e do extermínio dos opositores políticos, parece advir de alguém que efetivamente diz coisas que ninguém diz, que tem o Inconsciente a céu aberto e a pulsão de morte livre de qualquer pudor em sua expressão de destruição.

Essa plataforma já inoculava o veneno da mentira sobre o suposto “kit gay” que jamais existiu (voltaremos a isso em detalhes em uma próxima coluna) e o temor das forças armadas evocando junto com o torturador Ustra os anos da ditadura militar no Brasil.

“Forças armadas” implica bem a sua opção pela “força” e pela “arma” que foi utilizada desde sua campanha eleitoral com a promessa aos “cidadãos de bem” de presenteá-los  com a posse oficial de arma para defenderem a si próprio e  a sua propriedade privada.

E nesse discurso no impeachment de Dilma, Bolsonaro se colocou claramente do lado do “pavor” não só da ex-presidente como de mulheres, negros, gays, trans, servidores públicos, artistas, professores, intelectuais e todos seus opositores. E assim foi instalado o terror anunciado. Seus eleitores passam ao ato de violência sentindo-se autorizados pelo discurso do “mito” indo até o assassinato, como o do capoeirista Moa na Bahia, diante fez declarações desumanas: “Se as pessoas matam evocando o meu nome o que tenho a ver com isso?” E mais recentemente o silêncio em relação aos 80 tiros assassinos.

Como alguém com tal plataforma de atrocidades pode ter tido o maior número de votos no primeiro turno e em seguida ser eleito presidente da República? Não se trata aqui de avaliar as forças geopolíticas, a influência dos Estados Unidos, nem dos interesse econômicos e políticos em jogo que levaram a mídia oficial e a classe empresarial a jogar todas as fichas nesse candidato para manter seus próprios interesses. A pergunta permanece: o que faz a maioria da população brasileira votar nesse candidato?

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Podemos supor que sua votação expressiva se deu APESAR dessas características negativas, que seus eleitores minimizam em prol de ser “ficha limpa”, não ser corrupto, ser “patriota”, trazer de volta os valores da família, da pátria e da propriedade privada, de ter com ele um economista de renome, consertar a economia do país, colocar a ordem no caos da política, etc.

Mas também podemos pensar que essa quantidade enorme de votos se deu não apesar disso mas JUSTAMENTE POR CAUSA dessas caraterísticas que nós julgamos negativas, mas que para muitos são positivas.

Escutamos a narrativa de eleitores de Bolsonaro que dizem  “não ter mais saco” de ser “politicamente correto” e não poder “sacanear” negro, gay, fazer piada machista, antissemita, em nome da “liberdade de expressão”. As falas do candidato liberam os diques da pulsão de morte e autorizam o gozo sádico de pisar no outro, no diferente, no fora-da-norma da elite branca, heterossexual, racista, rica, machista, escravocrata, cristã (católicos ou protestantes) e homofóbica.

O que está em questão é que esses grupos antes acuados e considerados “gentalha desprezível” adquiriram fortemente na última década direito e voz de cidadania e começaram a frequentar espaços antes reservados só à elite (classe alta) e aos que não eram mas queriam ser (classe média).

O racismo é definido por Lacan como o ódio dirigido ao gozo do Outro, diferente, o Héteros, em grego, o que não é espelho, igual, mesmo. Foi esse ódio mal contido e mal disfarçado que agora explode ao se ver autorizado pelas palavras do “Mito”  (significante que seus eleitores passaram a usar para qualificar o candidato e agora presidente da extrema direita no Brasil).

Durante a campanha, esse candidato soltou diversos significantes degradantes que como dardos espetam etiquetas no suposto gozo desprezível e degradado. Eis alguns significantes que foram utilizados em seu discurso: a “indolência” e a “promiscuidade” dos negros, o gozo sexual do gay que deve ser isolado, evitado e motivo de “porrada”, as mulheres supostamente desavergonhadas que foram nuas na manifestação do #EleNão, segundo uma das mentiras de Fake News forjadas. A manifestação convocada em outubro de 2018 entre o primeiro e segundo turno das eleições presidenciais por grupos de mulheres arrastou multidões de homens, mulheres, crianças, idosos, famílias, grupos de negros, LGBTQIs etc nas maiores cidades de todo o Brasil.

Agora, em nome do “Mito”, pode-se ser cruel e, como na guerra, fazer o que bem entender com o outro já que ele é um “inimigo do povo”.  Na guerra – respondeu Freud a Einstein à questão de Por que a guerra? – pode-se fazer do outro o objeto de sua pulsão de crueldade, e assim, como o outro é inimigo pode-se: humilhar, xingar, machucar, torturar e matar.

O fascismo é como a guerra: o ódio ao outro é a regra. Devido às características próprias da linguagem, aquilo que é possível se torna rapidamente um imperativo.  E a ordem é: Odeie! A possibilidade de saciar seu sadismo no outro se torna um dever. E o gozo da agressividade se satisfaz fazendo do outro a um objeto de descarga de sua privada pulsão de morte, pois ele é um ser abjeto (também voltaremos a esse ponto).

A esse fator de gozo sádico liberado – e rapidamente comandado por fidelidade ao “ Mito”  – se associa  outros três fatores:

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1 – Bolsonaro surge no campo eleitoral revestido com a capa de o representante do “anti-sistema”, como uma exceção à regra do “todos corruptos” da classe política.

Dentro do caos político e do desarvoramento causado em grande parte pela mídia oficial que, desde 2014 com a eleição de Dilma, apostou no pior, Bolsonaro surge como o homem simples, genuíno, cuja fala sem pudor, nem educação, nem papas na língua lhe dá um “atestado de autenticidade”.

Esse perfil é típico dos fascistas. Hitler também era considerado um homem simples que fala com uma linguagem popular e direto ao povo. Ao propor governar com as forças armadas, armar os “homens de bem” da população civil e incitar seu uso para defender a propriedade privada, ele é o garantidor da ordem estabelecida pelas elites.

Ao se colocar como representando o Brasil, acima de todos, e o representante de Deus, acima de tudo (com o aval e orações da igrejas evangélicas), ele se apresenta como um “Salvador da pátria, da família, da religião, da moral e da propriedade”. Encarnando assim o Significante mestre, capaz de unificar o Brasil, como o “patriota”. Esse paradigma do patriotismo bate continência hoje para americanos e libera para eles terras, armas e dinheiro de forma vergonhosa.

Pai ideal restaurador da ordem e da lei, ele promete fazer,  auxiliado por uma Ministra de Deus, uma repartição dos seres em “do bem” e “do mal” e assim extrair o joio do trigo que a elite comerá em paz. E para os outros (como os “nordestinos burros”) o capim. Com essa repartitória, o Mito promete limpar o gozo sujo e deixar tudo limpinho e cheiroso. Esse método se chama higienismo e parte da premissa que não só tem seres humanos superiores a outros como tem seres humanos que simplesmente não são humanos. É isso que se espera de um Salvador da pátria: colocar “ordem e progresso”, como está escrito na bandeira do Brasil.

Esse o lugar do Salvador é o lugar do Ideal do eu que a massa coloca o líder (cf. Freud), o qual sustenta determinados ideais com os quais cada indivíduo se vê representado. Assim cada um pode dizer do líder “Ele me representa”. É o lugar do pai ao qual cada um devotará amor estando cego para seus defeitos e rivalizará com seus pares da massa pelo amor deste e fará tudo para chamar a atenção dele, para agradá-lo e receber em troca seu amor.

É essa massa que é manipulada pelo Twiter presidencial. Daí não ser necessário o líder dar ordem disso ou daquilo, basta expressar um desejo, uma rejeição, apontar um inimigo para seus seguidores com uma fidelidade canina atacar. É o caso dos seguidores do “Mito” que transformam em ato de violência o ataque verbal de seu líder a determinados sujeitos a serem eliminados do convívio social. E assim instaura a lógica da segregação, da exclusão que pode ir até o extermínio ou o exílio. Essa é a dimensão real do horror da massa.

2 – O “Mito” ou “O messias”, estruturalmente está, portanto, no lugar do Um da exceção do Pai da horda primitiva do mito freudiano, que representa a Lei sim, mas está –  sem escrúpulo algum –  acima dela fazendo todos lhe prestarem obediência e andarem todos direitos no mesmo passo sob a mira das armas da lei, da qual é exceção.

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O Pai do mito freudiano da horda tinha todas as mulheres para si e escravizava os homens. Porque as pessoas se submetem a ele? Por medo e paradoxalmente admiração. E também por gozo masoquista de ser usado como um objeto de gozo do pai, justamente como a fantasia masoquista descrita por Freud em seu estudo sobre o problema econômico do masoquismo.

Na fantasia masoquista o sujeito é um objeto de gozo do pai e seu espancamento no corpo do filho é sinal de seu amor.  Ao se reduzir a um objeto do gozo do Outro – uma fantasia que pode ser atuada em relação ao líder – o sujeito abre mão de sua identidade, de seus desejos e aspirações e se torna um vazio a ser determinado, definido e nomeado por seu dono e senhor. E assim paradoxalmente as sevícias e castigos do senhor são interpretados como prova de amor.

3 – O Messias, como Hitler, apresenta uma onipotência e megalomania que o faz se identificar com o Um do poder que messianicamente tem a solução para todos os males. Na narrativa paranoica, o líder é imbuído de uma certeza tal que não apresenta nenhuma divisão subjetiva. Ele é retido por um ideal ao qual tem uma identificação imediata, como por exemplo, a promessa messiânica: “Tenho a missão de salvar a Alemanha de seus inimigos: os judeus”.

Na versão brasileira: “Deus quer que eu seja presidente da república”.  O neurótico está sempre dividido, hesita, duvida mas também é capaz de dialética, ou seja, de opor tese e antítese e chegar à sínteses, capaz de se contradizer, se desdizer, voltar a trás, se retificar e concluir. Sempre entre-dois, dois desejos contraditórios, entre o sim e o não, consciente e inconsciente, o neurótico fica fascinado diante do paranoico que não hesita, que é habitado por certezas e tem certezas sobre o rumo a seguir.

Assim, o líder terá um bando de neuróticos hipnotizados que não querem saber de sua divisão e de sua falta e se agarram ao pensamento único do Mestre e Senhor (que não tem mesmo mais do que um pensamento) e saem por aí repetindo que nem papagaios slogans, memes e palavras de ordem de seu líder. E passam ao ato em nome do líder executando as piores atrocidades como os ataques racistas, homofóbicos, misóginos.

Eis um aspecto da psicologia das massas do fascismo made in Brasil. Mas o neurótico é também dividido estruturalmente em relação à crença: “no creo en la brujas, pero que las hay, las hay”. Devido a essa divisão subjetiva, há sempre a possibilidade de arrancar um neurótico do “pero que las hay las hay ” e daí ele poderá deixar de acreditar em  papai noel, bruxas e super-heróis.

Antonio Quinet – Psicanalista, escritor e dramaturgo

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