Compromisso com Lava Jato dá curto-circuito na mídia, por Ricardo Amaral e José Chrispiniano

Em artigo, assessores do ex-presidente Lula dizem que texto de colunista do Estadão expõe má consciência da imprensa sobre seu papel na farsa que condenou Lula e deu em Bolsonaro

Foto: Reprodução

Compromisso com Lava Jato dá curto-circuito na mídia 

Por Ricardo Amaral e José Chrispiniano*

Raros textos são tão reveladores da má consciência da mídia sobre seu papel na farsa jurídica da Lava Jato quanto o artigo de Eliane Cantanhêde (“Nem heróis nem vilões”) no Estadão deste domingo. Em busca de uma imparcialidade tardia, o texto reflete o dilema atual do jornalismo brasileiro: como descartar, sem maior prejuízo de credibilidade, os “heróis” que ela criou ao longo de uma cobertura parcial e politicamente direcionada. E como dar essa guinada sem fazer justiça ao “vilão” Luiz Inácio Lula da Silva.

O artigo concede que José Genoíno foi condenado no mensalão “talvez exageradamente” e admite que haveria “alguns excessos” na sentença do tríplex contra Lula. Mas abordar dois notórios erros judiciais com a naturalidade de um passeio pelo jardim não é exatamente uma correção de rumo. É seguir sancionando a instrumentalização do Judiciário e do Ministério Público como arma de disputa política, como fez nossa imprensa com a Lava Jato do começo ao fim, que agora parece necessário e inexorável.

A cobertura da Lava Jato entrou em curto-circuito junto com a operação em si porque nem uma nem outra se sustentam em fatos e provas, mas na simbiose típica dos julgamentos midiáticos. Nesta semana em que se comprovou a relação indecente e ilegal da força-tarefa com o FBI, Deltan Dallagnol ganhou mais tempo para se defender no Jornal Nacional que os advogados de Lula ao longo de cinco anos. Não custa lembrar: de janeiro a agosto de 2016, o JN somou 13 horas de noticiário negativo contra Lula, preparando a denúncia do powerpoint que hoje se volta contra Dallangnol.

O tratamento editorial abusivamente desequilibrado da Globo ditou a cobertura da mídia e de seus colunistas, que hoje se agarram nas “provas robustas”, jamais exibidas, do caso Atibaia. Da mesma forma que na desmoralizada ação do tríplex, também neste processo Lula foi condenado por “atos indeterminados”. E a prova mais “robusta” dos fatos é um laudo técnico, ignorado por Sergio Moro e censurado pela Globo, mostrando que foi depositada para um executivo da Odebrecht, e não para “obras no sítio”, a tal transferência de R$ 700 mil incluída na sentença.

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O reconhecimento da farsa judicial contra Lula não é, portanto, uma questão de “simpatia” pelo ex-presidente ou pelo PT, por parte de um procurador-geral indicado por Jair Bolsonaro, muito menos dos ministros do Supremo Tribunal Federal, como propõe o artigo. É uma imposição de justiça, diante da qual autores e cúmplices não imaginavam ter de prestar contas tão cedo. Uma questão objetiva, a ser examinada à luz da lei por instituições que, por definição, têm de preservá-la e preservar-se acima de circunstâncias políticas.

É tão fácil quanto fútil afirmar que o PT, Lula ou quem quer que seja “demoniza” a Lava Jato, sem enfrentar objetivamente a suspeição de Moro e a dos procuradores, como sustenta a defesa do ex-presidente em dois pedidos de habeas corpus que tramitam no STF. Ninguém foi mais demonizado neste país do que Lula, seu partido e sua família, por uma imprensa que erigiu falsos heróis e agora se vê na contingência de descartá-los, como fez com Aécio Neves e Eduardo Cunha quando perderam utilidade.

O dilema da mídia – e dos interesses que vocaliza – é lançar fora o veneno da Lava Jato preservando seu principal efeito, que foi a proscrição política de Lula. E, se possível, reconstruir o mito Sergio Moro, o que exige falsificar duas vezes a história. Em primeiro lugar, a Lava Jato não combateu a impunidade: negociou-a no balcão das delações que premiaram 99% dos acusados. E foi com a cobertura da mídia que Sergio Moro “fez a diferença”, demonizou Lula, o PT e a própria política, abrindo o caminho para Jair Bolsonaro, o filho que agora rejeitam.

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(*) Ricardo Amaral e José Chrispiniano são jornalistas, assessores do PT e do ex-presidente Lula.

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8 comentários

  1. O texto trás tudo, tudo que nós leitores do blog sabemos e nos causa asco, ao saber de tantas canastrices que fizeram com aqueles que realmente são os patriotas brasileiros. Perfeito do início ao fim.

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  2. Às 16,47 “fel” escreveu que “o texto traz tudo que nós leitores do blog sabemos…” mas infelizmente os leitores da midia cafajeste são quase todos eles tão cafajestes como, pois quando se lê comentários que fazem, lamentavelmente mostram quanto são ignorantes, hipócritas ou cafajestes mesmo. E infelizmente são poucos os leitores que, como nós, acessam esses blogs (do nassif, o 247, o tijolaço, o viomundo,etc) e nos nossos ambientes de traballho, nos botécos, nas filas por aí, as conversas são pura idiotice, demonstrando a ignorância dos que não sabem e nem querem saber de nada. No fundo, dá é muito desânimo ver a imbecilidade da maioria da população. Veja só um exemplo: uma noite dessas um senhor já idoso como eu me pediu uns trocados porque morava em outra cidade, tinha trazido sua esposa ao hospital na minha cidade e estava com muita fome,dizendo que nunca tinha estado numa situação como agora. Dei o dobro do que ele pedia e perguntei em quem ele havia votado para Presidente. Respondeu-me que em bolsonaro…fez uma pausa, disse que queria votar no Lula mas como ele não concorreu optou por BOÇALNARO (GRIFO MEU). Arrependido pela ajuda que dei (como faço em vários semáforos da vida sem me arrepender)…saí intimamente lamentando a burrice, tanta ignorância e sem perspectiva de que isso melhore um dia…..desalentador, infelizmente, com apenas uma única esperança: que partidos de esquerda comecem a questionar sobre o que fazer ante tanta burrice na hora de votar.

  3. Necessário mas, quem sabe, incompleto. Não dá para acreditar que a imprensa, assim como o judiciário são ou possam ser considerados isentos. Nunca foram em tempo algum. O judiciário e a imprensa são iguais a polícia do rio, sem tirar nem por. Todas as instituições brasileiras são feitas do mesmo barro. Quando os ministros do supremo diziam que as instituições funcionavam normalmente era verdade, é assim que funcionam.
    Achar que uma instituição vá garantir os interesses nacionais é uma imbecilidade que não se sustenta em nenhum período da história desde a independência e mesmo antes.
    O erro do PT foi acreditar no contrário. Não houve facada nas pelas costas. O problema agora, por parte deles, vai ser recontar a história diante do estrago real, que não será pequeno. Para eles vai ser uma questão de sobrevivência física, qual será a velocidade que serão varridos.

  4. So mesmo a jornalista limpinha e cheirosa para se prestar a mais um serviço fedorento para seus patrões, não importa se na folha ou no estadão.
    Pena de aluguel, uma pena!

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  5. O correto é que deve ser feito tudo o que os caminhos legais da justiça permitir, para se descobrir as ilegalidades e até conivência e/ou participação, nos crimes praticados pelas traidoras, criminosas e vendidas autoridades do judiciário, da mídia e as demais autoridades envolvidas do setor público e do setor privado. A partir daí formar as denúncias, os processos, as condenações e a prisão dessa corja de bandidos, vendidos, traidores e corruptos mercenários. Aqueles e aquelas que conseguirem se livrar da prisão restará a degradação moral e a repugnância que sua figura e existência, receberá da população decente e da verdadeira pátria amada Brasil.

  6. Todos os brasileiros e todas as nossas instituições foram traídas….
    a lei fundamental e suprema que serviu de base para o golpe e para a formação Lava Jato foi a Constituição dos Estados Unidos

    Brasil vai entrar pra História como único país que substituiu a sua Constituição pela de outro país

    Quem duvida que se prepare para ser humilhado muito mais vezes por Bolsonaro e Moro

  7. “O dilema da mídia – e dos interesses que vocaliza – é lançar fora o veneno da Lava Jato preservando seu principal efeito, que foi a proscrição política de Lula.”

    É sério? Existe mesmo isso de dilema dessa mídia q condenou sem provas?

    Sei não. Não acredito. Ou então eu não entedi nada.

    A mídia sabia muito bem o q tava fazendo. E agora até pode jogar toda a culpa no MPF. E até mesmo alegar q o juíz foi induzido a erro pelo MPF.

    Mas vai fazer malabarismo pra tb culpar o Lula. No mínimo bater na tecla de q ele foi negligente com a Petrobras, q não deu a devida importância e largou na mão de bandidos, que – por pragmatismo político – fez vista grossa etc

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