Contra a violência do sistema, a luta sem violência, por Dora Incontri

Indiscutível que é preciso desmontar esse sistema capitalista neoliberal, que agora, para implantar suas medidas extremas de imperialismo e sujeição, precisa recorrer ao nazi-fascismo

Contra a violência do sistema, a luta sem violência, por Dora Incontri

Estamos inseridos numa ordenação social e política, brasileira e internacional, de extrema violência estrutural. Explorados, espoliados, calados, agredidos se saímos em manifestações pacíficas (inconformada até agora com tantos que ficaram cegos no Chile, com os ataques a indígenas que levavam caixões de seus entes queridos em passeatas na Bolívia, com todas as repressões violentas de que qualquer saída às ruas tem sido alvo aqui no Brasil…)

Indiscutível que é preciso desmontar esse sistema capitalista neoliberal, que agora, para implantar suas medidas extremas de imperialismo e sujeição, precisa recorrer ao nazi-fascismo, como estamos presenciando no atual (des)governo brasileiro.

A questão é: por que caminhos poderemos desconstruir esse sistema e como poderemos estabelecer novas formas de relações sociais, econômicas e políticas na sociedade humana, de modo que haja mais justiça, mais fraternidade, mais paz… isso para aqueles que têm a esperança de que assim poderemos fazer. E é preciso ter essa esperança, como um compromisso.

Algumas reflexões despretensiosas aqui: primeiro, não dá para pensar em mudanças apenas dentro de um território, de uma nação. Estamos interligados globalmente, o capital é internacional, o império americano, dirigido por banqueiros e corporações, pelo complexo industrial-militar, intervém em toda parte. E agora, os chineses também estão se expandindo num novo império. Por conta disso, um governo, por exemplo, como o de Evo Morales, que estava colocando a Bolívia num rumo de desenvolvimento e autonomia, beneficiando as classes populares, é simplesmente destituído. Soluções meramente nacionais, portanto, não dão conta do problema.

Segundo, é preciso priorizar a crise climática do planeta. A esquerda brasileira, por exemplo, ainda se aliena majoritariamente dessa questão – essencial, imprescindível – pois não teremos sociedade melhor, sem vida na Terra. Simples assim!

Postas essas duas premissas, como anarquista cristã, falo agora de outros aspectos desses possíveis caminhos de transformação. Pessoalmente não acredito na política tradicional. Perigoso hoje falar nisso, porque é o que o nazifascismo usou e ainda hoje usa como argumento para instalar ditaduras e acabar com a democracia. Entre um sistema totalitário à direita ou à esquerda, preferível sempre uma democracia, por pior que seja. Mas a democracia, como temos visto nos séculos XX e XXI acaba sempre se metamorfoseando em ditatura, porque é falsa, governada pelo poder econômico, sem real participação popular, grudada em interesses de classe e em interesses coorporativos. Quando ela se faz melhor, sobram algumas migalhas de benefícios para o povo. Mas só.

Acredito, ao invés, em caminhos como auto-organização popular, economia solidária, cooperativismo, comunidades e municípios autossustentáveis, com democracia direta, participativa. Poderíamos pensar nisso como meio e como meta. Mas como chegar até lá?

Muita coisa há de ser feita! Aqui recorro a grandes inspirações que são esquecidas hoje: Henry Thoreau, Leon Tolstoi, Gandhi e Martin Luther King. Eles se inspiraram uns nos outros: Gandhi recebeu influência de Thoreau e Tolstoi; e Martin, de Gandhi. Eles indicaram caminhos de desobediência civil, de resistência passiva, de ativismo político não-violento.

Quando se fala de não-violência, muitos podem achar que se trata de uma atitude passiva, apática, descomprometida. Ao contrário, Gandhi dizia que o oposto da não-violência não é a violência, mas a indiferença. Os métodos trilhados por esses líderes são métodos de luta firme, comprometida. Trata-se de não cooperar com o que está aí – é a não colaboração com o mal. Então, não basta sair em passeata nas ruas. As elites e os governantes não estão nem aí para as manifestações populares… continuam tranquilos, fazendo o que querem, retirando direitos, usufruindo de privilégios… São necessárias ações que atinjam o interesse de quem está no poder. Não cooperar com o sistema – o que passa pelo boicote de marcas, de compras, de produtos até a greves gerais, a achar alternativas concretas de autossustentabilidade. A questão é que tais caminhos exigem mudanças pessoais profundas: renunciar ao consumismo, desenvolver empatia com o outro, buscar eliminar ou pelo menos diminuir a carne, acreditar que é possível a união entre as pessoas para ações colaborativas (e não cada um pensar em só salvar o seu), termos iniciativas para mutirões de hortas coletivas, de educação solidária… enfim, é preciso uma mudança radical de mentalidade, para passarmos a nos ajudar mutuamente e não sermos concorrentes uns dos outros; para nos sensibilizarmos com a dor do mundo, com a vida ferida do planeta, para nos mobilizarmos para despertar a consciência de quem ainda dorme, alienado…

Revolução armada para mudar esse mundo? Nunca deu resultado: de Robespierre a Lenin, de Mao a Fidel… Muito sangue corrido e como diria Gandhi: os meios não justificam os fins, os meios já fazem parte dos fins. Não podemos pensar em estabelecer justiça e paz, semeando cadáveres e tortura, prisões e gulags. Não digo que tais revoluções não tenham tido seu valor histórico e necessário em certos contextos, mas como anarquista espírita e cristã, estou pensando aqui num caminho que não exclua os exploradores, mas antes os converta; que não mate os capitalistas, antes consiga ferir seus interesses e os conscientize de que se não houver uma mudança brusca de direção, eles, seus filhos e seus netos não sobreviverão.

Tudo isso pode parecer utópico, inalcançável, romântico… mas é de utopia que podemos e devemos nutrir nossas ações presentes. Lideranças como a do Papa Francisco, que agora em março está convocando um encontro internacional de jovens para o evento Economia de Francisco e Clara, em Assis, é um sinal concreto de que esse pode ser um caminho.

Ou então, a dor extrema do planeta e da humanidade obrigarão à escolha de soluções mais solidárias.

 

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