Em 2015, a professora de língua portuguesa Débora Garofalo se candidatou a uma vaga de tecnologia e inovação em uma escola municipal da periferia da zona sul de São Paulo, cercada por quatro grandes favelas e marcada pela violência e pelo tráfico. O que veio depois rendeu prêmios internacionais, virou política pública estadual e chegou a 3,7 milhões de estudantes, tudo começando com lixo recolhido das ruas.
Neste ano, Débora foi reconhecida como a professora mais influente do mundo pelo Global Teacher Prize, considerado o Nobel da educação, na categoria inédita Global Teacher Influencer of the Year, entregue em Dubai. Em 2019, ela já havia sido a primeira brasileira e sul-americana a chegar ao top 10 do prêmio. Na última quinta-feira (11), foi homenageada também com o Prêmio Faz Diferença 2025, na categoria Educação, no Rio de Janeiro.
Ponto de partida
Ao chegar à EMEF Almirante Ary Parreiras, Débora fez uma avaliação com os alunos e descobriu que 70% deles apontavam o lixo como um problema central em suas vidas, fonte de doenças como dengue e leptospirose e obstáculo para chegar à escola. A resposta foi transformar o problema em matéria-prima.
“Eu só tinha dois caminhos: ou ia me lamentar ou ia pegar esse lixo como objeto de conhecimento. Preferi a segunda opção, mesmo sabendo que ia dar muito trabalho”, contou.
O primeiro protótipo foi um carrinho feito com materiais descartados, movido por bexiga com base na Terceira Lei de Newton. No dia seguinte, crianças já apareciam na porta da escola com tampinhas, rolinhos e bexigas querendo mais aulas. “Eu soube que tinha encontrado um caminho, só precisava ser lapidado”, disse Débora.
Em três anos e meio, os resultados foram expressivos: a nota do Ideb da escola nos anos finais saltou de 4,2 para 5,2; a evasão escolar caiu 93%; o trabalho infantil foi reduzido em 95%; e mais de uma tonelada de lixo foi retirada das ruas e transformada em protótipos, de filtros de água a sensores de transbordamento de córrego.
Política pública
O projeto chamou atenção além dos muros da escola. Débora foi convidada para a Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, transformando a metodologia em currículo oficial para 5,4 mil escolas. Criou também os Centros de Inovação da Educação Básica Paulista, escolas ociosas reconvertidas em espaços de criação, deixando o estado com 18 unidades e uma carreta móvel itinerante ao se desligar do cargo, em 2022.
Depois, levou experiência semelhante ao Rio de Janeiro, onde ajudou a estruturar os Ginásios Educacionais Tecnológicos, resultando no lançamento de 300 escolas voltadas à tecnologia e inovação. Hoje, atua como consultora e formadora de professores em outros estados e municípios.
Surpresa
O reconhecimento mais recente chegou de madrugada, literalmente. Débora estava em casa quando o telefone tocou às 3h da manhã de um sábado. Do outro lado da linha, os organizadores do Global Teacher Prize diziam que uma passagem de avião para Dubai já estava comprada.
“Falei: não vou, não tem nada comprado, este ano não fui convidada. Disseram: a gente já comprou a passagem para você, você pega o avião agora uma hora da tarde”, relembrou, entre risos.
Ao chegar ao evento, no mesmo hotel onde havia sido finalista em 2019, e, admite ela, com a mesma roupa, Débora foi surpreendida diante de um jantar com mil pessoas. A nova categoria, Global Teacher Influencer, reconhecia justamente o impacto de seu trabalho além da sala de aula.
“Eu desabei. Naquele momento, eu me senti muito feliz, porque eu não estava ali sozinha. Eu estava com todos os professores brasileiros, com todos os estudantes que diariamente lutam”, disse.
Tecnologia sem tela
Para Débora, um dos maiores equívocos do debate atual sobre educação é confundir tecnologia com dispositivos eletrônicos. Ela cita o caso de São Paulo, que distribuiu um tablet por aluno sem que isso se traduzisse em melhora nos índices de aprendizagem.
“O ponto não é ter ou não infraestrutura. É a intencionalidade pedagógica que vai chegar na ponta. O que a gente precisa, muitas vezes, é olhar para o lado e entender que o simples funciona”, afirma.
Ela também critica a proibição pura e simples do celular nas escolas: “É um tiro no pé. Proibimos porque era mais fácil, mas isso não resolve. O que resolveria é trazer uma educação midiática para dentro da sala de aula.”
Na sua visão, a aprendizagem efetiva exige que o estudante erre, frustre-se, construa e colabore. “O estudante precisa passar por erro, por processo de frustração. A educação 5.0 fala disso: humanizar o processo e trabalhar habilidades socioemocionais.”
Toda essa trajetória está registrada nos livros da série Robótica com Sucata, publicados pela editora Moderna. O terceiro volume chega ainda no segundo semestre deste ano.
*Com informações da Agência Brasil.
LEIA TAMBÉM:
Deixe um comentário