Do Oásis à Guerra, por Jorge Alexandre Neves

O Chile, assim como a Espanha até recentemente, sempre era apontado pela imprensa tradicional como exemplo a ser seguido pelo Brasil. Vemos, agora, a dura realidade chilena explodir à nossa frente.

Foto Patricia Faermann - GGN

Do Oásis à Guerra

por Jorge Alexandre Neves

Vi em um vídeo do YouTube a apresentadora mostrar duas falas do presidente do Chile, Sebastián Piñera, com diferença de duas semanas. Na primeira, ele afirmava ser o Chile um oásis na América Latina, ao passo que no segundo, declarava estar o país em situação de guerra. O que ocorreu com o Chile para uma virada tão grande em tão pouco tempo?

A verdade é que o Chile nunca foi um Oásis. O país tem alguns dos melhores indicadores econômicos, e até mesmo alguns sociais, da América Latina. Contudo, esses indicadores têm sido alcançados a um enorme custo para a população.

É bem conhecido o fato de que um trabalhador americano precisa ganhar um salário muito mais alto do que um trabalhador europeu para ter o mesmo padrão de vida, em função da falta de sistemas públicos de saúde e previdência nos EUA. De fato, como ressalta a Organização Internacional do Trabalho (OIT), “Sistemas públicos de previdência, educação e saúde são também poderosas ferramentas para reduzir as desigualdades no presente e no futuro” [aqui; página 90].

A total privatização dos serviços de previdência, de saúde e de ensino superior, entre outros, no Chile, faz com que os níveis reais de desigualdade e pobreza sejam muito maiores do que aqueles que costumamos mensurar utilizando, fundamentalmente, indicadores de renda. De que adianta se ter uma renda relativamente mais elevada, se o cidadão médio tem que gastar fortunas com saúde, educação superior e pagamento de taxas previdenciárias extremamente elevadas, em função da ausência de contribuições trabalhistas (é a multidimensionalidade da pobreza e do desenvolvimento tão ressaltada por Amartya Sen). Isso tem como consequência uma população adulta em situação de estresse financeiro agudo e uma população idosa empobrecida. Se considerarmos esses fatores, o Chile tem níveis de desigualdades muito superiores aos brasileiros, embora o coeficiente de Gini da renda chileno seja inferior ao brasileiro. Isso, obviamente, enquanto o Brasil ainda contar com serviços públicos, como o SUS, a Previdência Social e as universidades públicas.

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Na minha última coluna aqui do GGN, ressaltei a diferença entre políticas públicas de socialdemocratas e de neoliberais, na comparação entre Portugal e Espanha, de 2015 a 2018. O Chile, assim como a Espanha até recentemente, sempre era apontado pela imprensa tradicional como exemplo a ser seguido pelo Brasil. Vemos, agora, a dura realidade chilena explodir à nossa frente. Essa explosão se dá pelas contradições do liberalismo. Assim como numa bomba atômica ao se colocar partes em contato forma-se uma massa crítica explosiva, o liberalismo político entra em combustão em função do liberalismo econômico.

Há cerca de um ano e meio atrás [aqui], eu ressaltava que o avanço da direita liberal estava se mostrando extremamente efêmero, na América do Sul. Ali, eu apontava justamente Sebastián Piñera como a última esperança da direita liberal no nosso subcontinente. Não sabia eu, naquele momento, que até este sucumbiria tão rápido. Com a anunciada derrota humilhante de Maurício Macri, na Argentina, Bolsonaro e o Brasil ficarão ainda mais isolados na Região. Quanto tempo Bolsonaro se segurará no cargo, dada essa nova onda antiliberal na América Latina? Como ele não é, originalmente, um liberal, tomará a iniciativa de mudar suas políticas econômicas, voltando a seu passado pró intervenção do estatal? Sejam quais forem as respostas a essas perguntas, teremos tempos instáveis pela frente.

Jorge Alexandre Barbosa Neves – Ph.D, University of Wisconsin – Madison, 1997;  Pesquisador PQ do CNPq; Pesquisador Visitante University of Texas – Austin; Professor Titular do Departamento de Sociologia – UFMG Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas

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