Portugal: Socialdemocracia X Neoliberalismo, por Jorge Alexandre Neves

Leio no jornal O Globo (aqui), que a “recuperação econômica impulsiona socialistas na eleição em Portugal”. Será que é isso? Vamos aos fatos.

Portugal: Socialdemocracia X Neoliberalismo

por Jorge Alexandre Neves

Leio no jornal O Globo (aqui), que a “recuperação econômica impulsiona socialistas na eleição em Portugal”. Será que é isso? Vamos aos fatos. Na Tabela e no Gráfico (1), abaixo, trago as taxas de crescimento do PIB de Portugal e da Espanha, bem como as curvas de crescimento do PIB de ambos os países entre 2015 e 2018. Neste período, a Espanha estava sendo governada por uma coalizão conservadora, liderada por Mariano Rajoy, do Partido Popular (até junho de 2018, quando tomou posse Pedro Sánchez, do Partido Socialista Operário Espanhol). Por sua vez, desde novembro de 2015, Portugal vem sendo governado por uma coligação de centro-esquerda (socialdemocrata), chamada de “Geringonça”, liderada por António Costa, do Partido Socialista.

O Gráfico e a Tabela acima mostram bem que, no período de 2015 a 2018 o crescimento econômico foi mais vigoroso na Espanha do que em Portugal (observe-se no gráfico que a curva de crescimento do PIB tem uma inclinação positiva maior na Espanha do que em Portugal). O Gráfico abaixo mostra que, por sua vez, a queda do desemprego foi – no mesmo período de 2015 a 2018 – praticamente igual, nos dois países. As duas curvas de queda do desemprego são quase paralelas, no gráfico abaixo.

Contudo, ao passo que, na Espanha, em 2018, a coligação conservadora de Mariano Rajoy foi derrotada por uma coligação de centro-esquerda, a “Geringonça” caminha para uma consagradora vitória neste domingo, em Portugal. Essa comparação parece deixar bastante evidente que, portanto, o sucesso da coligação de centro-esquerda, em Portugal, não se deve à “recuperação econômica”. Onde estaria, então, o sucesso da “Geringonça”? O gráfico abaixo, acredito, nos traz a resposta para essa pergunta.

Pode-se ver no referido gráfico que, enquanto em Portugal o crescimento do PIB e a queda do desemprego têm sido acompanhados de uma elevação dos salários, na Espanha tem ocorrido o inverso, uma forte queda no valor real dos rendimentos do trabalho. Este último gráfico revela de forma profícua a diferença de um processo de “recuperação econômica” alcançado a partir de políticas públicas socialdemocratas e outro resultante de políticas econômicas neoliberais.

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Infelizmente, no Brasil, caminhamos pelo mesmo caminho da Espanha. Assim como ocorreu anteriormente na terra de Cervantes, temos passado por um processo de revisão da legislação trabalhista que nos conduz a um modelo crescentemente flexível (2). Aqui como lá, a flexibilização do mercado de trabalho está levando a uma forte precarização (3).

De 2003 a 2014, vivemos um período de gestão econômica de inspiração socialdemocrata, como Portugal tem vivido desde 2015 (4). Muito provavelmente, se não houver um aprofundamento do nosso “estado paralelo de exceção”, ao ponto deste tornar-se totalmente hegemônico, a partir de um novo golpe de Estado ainda mais violento do que o iniciado em 2016, ou seja, se o processo de destruição de nossa democracia for detido, não demorará muito para que voltemos a ter uma coalização de centro-esquerda no poder e, assim, outra vez usufruir das benesses das políticas públicas socialdemocratas, com seus processos de redução das desigualdade socioeconômicas (5).

Jorge Alexandre Barbosa Neves – Ph.D, University of Wisconsin – Madison, 1997.  Pesquisador PQ do CNPq. Pesquisador Visitante University of Texas – Austin. Professor Titular do Departamento de Sociologia – UFMG. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas
  • Todos os dados utilizados neste artigo têm como fonte a Eurostat.
  • Isso em um país que já tem, de longa data, um mercado de trabalho bastante flexível. Bem mais flexível do que o espanhol, antes de suas reformas.
  • Que terá terríveis consequências de longo prazo para o sistema previdenciário, como discuti em outra coluna minha no GGN (https://jornalggn.com.br/politica/uma-gota-no-oceano-por-jorge-alexandre-neves/).
  • Curiosamente, a coalizão lusitana de centro-esquerda foi apelidada de “Gerigonça” justamente por unir partidos políticos de inspirações ideológicas bastante diversas, porém sob a liderança de um forte partido de centro-esquerda. O mesmo se viu no Brasil, no período petista.
  • Espera-se que, em uma próxima oportunidade, uma coalização de centro-esquerda não repita erros como o das concessões de benefícios fiscais de forma descontrolada ou a capitulação ao neoliberalismo, como ocorreu em 2015. Outro risco, também, é que o “lulismo” se radicalize e, quando outra vez a esquerda chegar ao poder no Brasil, opte por um modelo mais distanciado do socialdemocrata, como discuti na minha última coluna no GGN (https://jornalggn.com.br/artigos/agua-de-morro-abaixo-fogo-de-morro-acima-por-jorge-alexandre-neves/).

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