1 de julho de 2026

Educar para o futuro: O que os gregos podem nos ensinar?, por Michel Aires

O que se torna imprescindível no processo pedagógico é a palavra como instrumento do debate, da contradição e da argumentação.

Educar para o futuro: O que os gregos podem nos ensinar?

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por Michel Aires de Souza Dias

O tema fundamental da educação grega é o conceito de Areté (virtude, excelência), que remonta aos tempos mais antigos. Por volta do século VIII a.C, para se defenderem de ataques constantes, as primeiras comunidades gregas se uniam em unidades cada vez maiores (sinecismo), formando os poleis, que deram origem às primeiras cidades gregas. Nessa época, a finalidade da formação (paidéia) era a preparação dos cidadãos para a luta e a defesa da polis (cidade). Foi com os poemas de Homero que conhecemos o ideal de educação dos gregos, como Areté. Por meio da tradição oral grega, os poemas eram transmitidos pelos poetas (Aedos), ensinando os valores do homem aristocrático, guerreiro, bom, belo e forte. Como nos explica Ferreira (2010, p. 14): “É natural, portanto, que nos primeiros tempos, a excelência do homem — a Areté — fosse o ideal heroico, a coragem e destreza no combate e que, em consonância com isso, nos primeiros séculos da existência da pólis, a educação do jovem fosse essencialmente militar e visasse à aprendizagem direta ou indireta do manejo das armas”. Extremamente belicosos, os gregos viam na guerra uma atividade nobre e “é nos campos de batalha que o cidadão alcança a glória e de que a sua areté reside na coragem em combate” (LEÃO, FERREIRA, FIALHO, 2010, p. 15). Os nobres (Aristói) não somente se preocupavam com o combate em campo, mas também com a administração e a defesa da polis. Eles também se dedicavam à arte, à poesia, à música e aos exercícios físicos (LEÃO, FERREIRA, FIALHO, 2010). Foram essas atividades que começaram por formar o espírito do homem grego.

A partir da época clássica (Sec. V a.C), quando surge a democracia em Atenas, houve uma inflexão no processo educativo. Neste período surge um conjunto de instituições na póleis que apresentam características parecidas. Em Atenas surge a Assembleia do povo (Eclésia), com funções legislativas, fiscalizadoras e de governança; o Conselho (Aeropágo), com funções jurídicas; e os Magistrados (Arcontes), com funções administrativas. Apesar de desenvolverem instituições parecidas no âmbito político, como a Apela, a Gerúsia e os Éforos; no âmbito do ensino, os espartanos valorizaram mais a educação física e militar, enquanto Atenas valorizou mais a educação intelectual (LEÃO, FERREIRA, FIALHO, 2010). As virtudes fundamentais da pedagogia espartana era a obediência e a disciplina. Com isso, o patriotismo, o espírito coletivo, o amor e o sacrifício à pátria tornaram-se características de sua pedagogia: “A finalidade desta educação era fazer deles soldados, pelo que tudo era sacrificado a esse fim único” (LEÃO, FERREIRA, FIALHO, 2010, p. 21).  Já nas outras póleis, em particular em Atenas, “a formação não se centrou exclusivamente no treino físico e na preparação militar, mas evoluiu para um sistema educativo que visava o desenvolvimento harmônico das faculdades” (LEÃO, FERREIRA, FIALHO, 2010, p. 25). Nessa época surge uma maior valorização da razão. A razão se torna o centro do processo pedagógico para educar os indivíduos para o convívio social e harmônico na pólis.

De acordo com Silva e Pagni, à medida que Atenas vai se tornando urbana, artesanal, comercial e democrática, os antigos valores aristocráticos da Areté, que formavam para a virtude ou excelência moral e intelectual perdem sentido. No atual estágio do avanço social, cultural e político da história grega, no século V a. C, foi preciso formar bons cidadãos, que participassem ativamente da vida pública. Naquela época surgiu a necessidade de formar uma nova Paideia que satisfizesse aos ideais do homem da polis. Para esse fim, tornou-se imprescindível a formação consciente do espírito. O saber, o cultivo do conhecimento e a busca da verdade deveriam ser as forças espirituais da administração da cidade: “A Areté que agora se inaugura está voltada para a formação do cidadão para o governo da polis, cuja preocupação se centra na formação política, ética e moral dos indivíduos para o exercício do poder. A virtude que mais interessa desenvolver é a cívica, mediante o respeito às leis e à participação nas atividades políticas” (PAGNI; SILVA, 2007, p. 21-2).

O que se torna imprescindível no processo pedagógico é a palavra como instrumento do debate, da contradição e da argumentação. Daí o aparecimento dos sofistas naquela época, que eram sábios que ensinavam a arte de argumentar. Para esses pensadores, o saber se fundamenta no debate, na oposição de ideias, na luta dos opostos, que constituem a origem da vida política. A palavra se torna a essência dos enfrentamentos políticos: “A arte política é essencialmente exercício da linguagem; o logos, na origem, toma consciência de si mesmo, de suas regras, de sua eficácia, através de sua função política” (VERNANT, apud PAGNI; SILVA, p. 22). Por meio da palavra (logos) os antigos foram capazes de criar a isonomia, a igualdade perante a lei; assim como a isegoria, a igualdade perante a assembleia. O que se torna relevante é o interesse comum, coletivo, que beneficia aos cidadãos e não mais os interesses particulares ou aristocráticos: “O interesse comum se sobrepõe ao interesse privado. Submete-se ao julgamento de todo o conjunto de crenças, de condutas e de conhecimentos considerados inquestionáveis, que, levado à praça pública, estará sujeito a críticas e controvérsias” (PAGNI; SILVA, 2007, p. 22).

Mas, o que os Gregos têm a nos ensinar sobre educação? Qual é sua grande lição? A grande preocupação pedagógica dos antigos se voltava à preservação e ao progresso da Pólis, buscando satisfazer aos interesses coletivos, pensando nos benefícios e felicidade de todos. Preparar os indivíduos para a vida política era seu grande objetivo.  É nesse sentido que a educação grega pode se tornar um modelo para o homem contemporâneo. O legado educacional dos antigos pode contribuir para a preservação da vida humana na terra. A educação política torna-se imprescindível em nossa atualidade, se quisermos preservar a existência humana. Hoje, tornou-se necessário reconciliar o progresso e o crescimento econômico com a preservação do meio ambiente. Não há como a humanidade sobreviver se os governos não conseguirem gerenciar a produção de alimentos, a energia, a água e o meio ambiente de modo racional e sustentável. Contudo, isso só pode acontecer se a humanidade se tornar consciente de suas ações e de seu comportamento autodestrutivo, que produz guerras, fome, violência, miséria, criminalidade e a degradação da natureza.

Para preservar a existência humana, o processo pedagógico deve mudar sua atual situação, tornando-se um instrumento de emancipação da consciência política Hoje, a educação está voltada a uma visão utilitarista, onde a organização, a administração e a disseminação dos conhecimentos são determinadas por uma lógica mercantilista. Os indivíduos não são formados para a assimilação da cultura e a reflexão crítica, mas são adestrados para a disputa e para os valores individualistas. Eles são preparados para a especialização técnica. Toda formação visa o desempenho, a eficiência e a aquisição de habilidades para se adaptar às exigências do mercado de trabalho. O resultado disso é a formação de pessoas frias, egoístas, preocupadas apenas com suas vidas, desinteressados dos problemas sociais e políticos.

Ao refletir sobre a educação no mundo capitalista, o filósofo alemão Theodor Adorno (1995) concluiu que é a própria incapacidade do indivíduo de refletir sobre a realidade que impede sua emancipação. No mundo administrado, os indivíduos são modelados e uniformizados pelo aparato técnico e científico e pelos vários mecanismos de manipulação de massa. Hoje, mesmo com o avanço das tecnologias da informação, onde se reduziu o tempo e o espaço para a circulação da informação e do conhecimento, as pessoas ainda estão aprisionadas nas malhas da socialização. A formação dos sujeitos é determinada a priori, impossibilitando que eles adquiram autonomia e liberdade de pensamento. Os mecanismos de controle da sociedade capitalista determinam a subjetividade do indivíduo em seu íntimo, naquilo que deveria constituir o núcleo de sua autonomia. A deterioração da experiência formativa produz sujeitos impotentes, paralisados e incapazes de ação. A ausência de reflexão, a adaptação, a inaptidão à experiência e o conformismo caracterizam a formação do indivíduo massificado.

Em uma época de pós-verdade, onde os fatos objetivos têm menos importância do que as crenças e os apelos aos sentimentos e emoções, a educação para o futuro exige uma nova Areté: a emancipação política. Com a fragmentação dos saberes e o adestramento para o trabalho, a educação abandonou sua função de educar para o esclarecimento, a autonomia de pensamento e a reflexão crítica. Os indivíduos perderam a capacidade de compreender a totalidade concreta da realidade histórico e social. Já não são mais capazes de refletir sobre as mediações sociais e as relações de poder que determinam sua vida, assim como se conscientizar da aparelhagem técnica e ideológica que mantém seus modos de pensar. Dessa forma, tornou-se uma exigência histórica educar os indivíduos para a conscientização da realidade. Para usar uma expressão de Kant (2009), torna-se necessário que o cidadão seja capaz de refletir com autonomia sobre os problemas sociais e político de seu presente, participando ativamente da vida publica, por meio do uso público de seu entendimento. É necessário que pela reflexão das condições históricas e sociais, os indivíduos sejam imunizados contra as ideologias, sendo capazes de desenvolver o esclarecimento e a conscientização da realidade, tornando-se cidadãos ativos na sociedade.

Referências

ADORNO, T. W. Educação e Emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.

KANT, I. Resposta à pergunta: Que é iluminismo? In: KANT, I. A paz perpétua e outros opúsculos. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 11-9

LEÃO, D. F; FERREIRA, J. R.; FIALHO, M. do C. Cidadania e Paideia na Grécia antiga. Coimbra: CECH, 2010.

PAGNI, Pedro; DIVINO, José da S. A educação na filosofia de Sócrates. In: PAGNI, Pedro A; SILVA, Divino J (Org). Introdução à filosofia da educação: temas contemporâneos e história. São Paulo: Avercamp, 2007, p. 19-33.


Michel Aires de Souza Dias – Doutor em educação pela Universidade de São Paulo (USP)

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Michel Aires

Graduação em filosofia pela UNESP. Mestre em filosofia pela UFSCAR. Doutor em educação pela USP. Tem experiência nas áreas de Filosofia e Educação, com ênfase na Teoria Crítica, em particular, nos pensamentos de Herbert Marcuse e Theodor Adorno. Possui artigos publicados nas áreas de educação, filosofia e ciências sociais.

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3 Comentários
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  1. ODONIR OLIVEIRA

    8 de março de 2024 9:41 am

    Muito bom.

  2. rmgomes

    8 de março de 2024 1:19 pm

    Esta afirmativa: “Os indivíduos perderam a capacidade de compreender a totalidade concreta da realidade histórico e social. Já não são mais capazes de refletir sobre as mediações sociais e as relações de poder que determinam sua vida, assim como se conscientizar da aparelhagem técnica e ideológica que mantém seus modos de pensar”, me parece absurdamente pedante e colonizadora. Além de relativamente equivocada.

    O “juízo filosófico” apresentado, em minha opinião, se beneficiaria bastante de um diálogo com a Antropologia Social, com a Ciência Política e, sobretudo com a Sociologia. Em especial, com a perspectiva da Educação Decolonial.

  3. Cícero

    12 de março de 2024 12:01 pm

    Muito bom texto!
    Com o advento de uma política extremista, onde o carro-chefe é a violência, o ódio e a discriminação em nome de um ufanismo vazio, é mister (re)lançarmos um olhar sobre os autores gregos e sua preocupação com a educação da população. Levando em consideração que a base da sociedade deve muito aos gregos e romanos, faz-se, urgente, uma retomada de valores observando-se as lições há muito oferecidas.
    Ora, a educação é para a vida em sociedade, posto que o gérmen de uma nação é a família, é imperioso que se eduque o jovem para a vida feliz e produtiva. Uma vida feliz e produtiva não se limita ao trabalho puro e simples com o intuito de arrecadar e ajuntar dinheiro. Mas a uma satisfação e aproveitamento da vida sem afetar o meio nem, muito menos, a sociedade.
    Sócrates, Platão, Aristóteles, Epicuro, Cícero, Maquiavel, Rousseau, Kant, Sartre, Simone de Beauvoir, Althusser e tantos, nos oferecem visões, saídas, soluções e dicas importantíssimas.
    Abracemos a paideia, a areté e alcancemos a autarcia!

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