A crise da formação no ensino público
por Michel Aires de Souza Dias
Em nossa atualidade, há uma crise de autonomia e de transmissão dos valores que fundaram a escola pública no século XIX. Os modos de organizar, administrar e transmitir conhecimento fundamentam-se na lógica do capital e numa visão utilitarista do ensino. As escolas e as universidades seguem a mesma lógica mercantilista e da gestão empresarial. As políticas pedagógicas em nossa atualidade têm como única finalidade adaptar os indivíduos ao mercado de trabalho e às ideologias que sustentam as formas de domínio social existentes. O resultado disso é o declínio da autonomia dos estabelecimentos de ensino, que fez desaparecer o “ideário humanista que valoriza a formação cultural e política do Espírito (…). A escola e a universidade perderam sua natureza de Bildung, de formação como processo geral de humanização da vida” (MATOS, 2021). A crise da educação, portanto, se caracteriza pela deterioração da formação cultural do espírito.
Os alemães do século XVIII entendiam a Bildung (formação) como uma transformação na esfera subjetiva, ou seja, como formação da personalidade individual e da vida interior, estando ligada ao processo de formação cultural. Foram os alemães daquela época que desenvolveram uma intelligentsia que se dedicava as criações espirituais, como a arte, a filosofia, a literatura e a poesia, tornando a Alemanha uma terra conhecida por seus poetas e pensadores, como Hegel, Novalis, Lessing, Goethe, Herder, Schiller e os irmãos Schlegel. Segundo o sociólogo Nobert Elias (2011), foram esses poetas, pensadores e artistas que se tornaram os grandes representantes da vanguarda espiritual da classe burguesa. Eram numerosos indivíduos que se encontravam na mesma situação social e possuíam as mesmas origens, mas que viviam isolados ou em um pequeno círculo, formando uma elite intelectual em relação ao povo. Apesar disso, eram considerados cidadãos de segunda classe pela aristocracia cortesã. O que eles tinham em comum era o amor pela natureza, pela liberdade, a exaltação da solidão e o culto das emoções, sendo inimigos da razão fria e calculista
Foi esse espírito da Bildung que ajudou a promover o Iluminismo por toda Europa. Por meio da formação cultural a classe burguesa cultivou a si e as suas habilidades intelectuais. Sem essa formação do espírito, ela não se estabeleceria como uma classe dominante, não teria formado os grandes quadros administrativos, os especialistas, os juristas, os intelectuais e políticos que deram origem ao Estado burguês. As grandes produções culturais e as grandes descobertas no campo das ciências, da filosofia e das artes, desde o renascimento, são formas de expressão da Bildung, que ajudaram a formar o espírito burguês e, em consequência disso, ajudaram a desenvolver o capitalismo em seu sentido e significado universal.
As primeiras medidas para institucionalizar o ensino público surgiu na França, em 1792, três anos após a Revolução Francesa. Houve uma Comissão de Educação da Assembleia Legislativa Francesa, presidida pelo Marquês de Condorcet. Condorcet era um dos enciclopedistas, sendo reconhecido pela sua grande preocupação com os pobres, os ignorantes e as vítimas do Antigo Regime. Tal como Kant, Condorcet compreendia a educação como Esclarecimento, como a capacidade autônoma do indivíduo para fazer uso de seu próprio entendimento. O conhecimento conteria uma característica fundamental, que é o de emancipar para a formação da consciência livre, levando o sujeito à pensar por si mesmo, sem à ajuda alheia. Nesse sentido, a instrução pública seria uma estratégia dos poderes seculares com o objetivo de promover a equidade, a razão autônoma e o primado da diferença de talentos sobre a diferença de fortuna (BOTO, 2003).
Foi pensando numa sólida formação cultural e política do espírito que os iluministas procuraram pensar a escola pública. Como observa Boto (2003), com os iluministas a reflexão sobre o gesto de educar traz consigo a marca da utopia, acompanhada por um desejo de transformação da vida social e política. Era nesse sentido que, para Kant (2008), a educação não deveria apenas possibilitar a assimilação dos conhecimentos, mas deveria desenvolver a autonomia para que o indivíduo pudesse fazer uso público de sua razão. Por meio do esclarecimento o indivíduo deveria superar sua menoridade e ser capaz de se conscientizar e refletir sobre os problemas urgentes de sua época, participando da vida política de sua nação. Foi pelo mesmo sentimento de cidadania que Rousseau (2004), em sua pedagogia, queria formar o homem a imagem e semelhança da natureza, mas não para que ele fosse um selvagem, mas para que não se deixasse levar pelas paixões ou pelas opiniões alheias. O importante era que ele aprendesse a ver com seus próprios olhos e a sentir com seu próprio coração, para que nenhuma autoridade o governasse sem o seu consentimento. O grande filósofo Hegel (1992) viu na educação uma forma de espiritualização do homem, que deveria reconhecer no Estado a mais alta manifestação da cultura do espírito, superando o egoísmo humano e desenvolvendo uma vida mais justa e feliz para os indivíduos.
Foi essa formação cultural e política do espírito que o ensino público contemporâneo relegou ao ostracismo das bibliotecas. Em nossa atualidade, os alunos saem do ensino médio ou mesmo da universidade sem nunca terem lido as obras fundamentais da cultura espiritual, que são o mais alto patrimônio da humanidade. O lixo cultural produzido pela sociedade de massas satisfaz não somente alunos, mas também professores. Novelas, filmes enlatados, programas de auditórios, jogos de futebol, reality shows e cultos religiosos deformam o espírito, adulteram a vida sensorial e obscurecem a realidade. Em nossa época, a atrofia da imaginação e a espontaneidade do consumidor cultural é perpetuada pela própria constituição dos produtos culturais padronizados.
Hoje, as elites, em sua dominação progressiva sobre os mais pobres, só conseguem perpetuar seu poder porque monopolizam a formação cultural. A desumanização perpetuada pelo processo capitalista de produção, e pela indústria cultural do entretenimento, impede que a classe trabalhadora tenha acesso aos verdadeiros bens culturais. Todas as tentativas de lançar novas políticas pedagógicas nas escolas são apenas caricaturas, que nutrem de ilusão uma massa idiotizada e bestializada pela cultura de massa. Nesse sentido, a escravidão continua suave e democrática.
Referências
BOTO, Carlota. A civilização escolar como projeto político e pedagógico da modernidade: cultura em classe, por escrito. Cad. Cedes, Campinas, v. 23, n. 61, p. 378-397, dezembro 2003 Disponível em https://doi.org/10.1590/S0101-32622003006100008
BOTO, Carlota. Na revolução francesa, os princípios democráticos da escola pública, laica e gratuita: o relatório de Condorcet. Educ. Soc., Campinas, vol. 24, n. 84, p. 735-762, setembro 2003 Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
ELIAS, Norbert. O Processo Civilizador: uma história dos costumes. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
HEGEL, G.W.F. Fenomenologia do espírito. Trad. Paulo Meneses. Petrópolis: Vozes, 1992
KANT, I. Resposta à pergunta: Que é iluminismo? In: KANT, I. A paz perpétua e outros opúsculos. Petrópolis: Vozes, 2008. p.11-9
MATOS, Olgária. Escola e Universidade: Eros e educação. A terra é redonda, 2021. Disponível em https://aterraeredonda.com.br/escola-e-universidade-eros-e-educacao/
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio, ou da educação. São Paulo: Martins Fontes, 2004
Michel Aires de Souza Dias – Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP).
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Evandro Condé
17 de março de 2023 9:53 pmApenas no Ensino Público?