Efeitos de Rede, Partidos e Ideologia, por Fernando Nogueira da Costa

Uma Fake News pode ser a pequena modificação inicial capaz de produzir imensos efeitos secundários caóticos, afetando inclusive uma disputa eleitoral

Foto: Reprodução

Efeitos de Rede, Partidos e Ideologia

Por Fernando Nogueira da Costa[1]

 

Notícia publicada duas semanas antes da eleição presidencial norte-americana, crucial para todo o mundo: “A decisão das redes sociais Twitter e Facebook de limitar o compartilhamento de uma polêmica reportagem sobre o candidato presidencial democrata Joe Biden irritou os republicanos. Eles acusaram as empresas de censura e retaliaram com uma intimação para seus executivos depor no Congresso dos EUA”.

O caso reacendeu o debate sobre se as redes sociais devem controlar o conteúdo a circular entre seus usuários e, nesse caso, com quais critérios. Seus controladores, depois dos escândalos de sua interferência com contrapropaganda, nas eleições de 2016 nos EUA e 2018 no Brasil, tentam conter o fluxo de desinformações ou “fake News”.

Em Economia e Negócios, um Efeito de Rede, também designado externalidade de rede ou busca de economias de escala, é o efeito de um utilizador de um bem ou serviço sobre o valor do produto para outros utilizadores. Quando se apresenta, o valor de um produto ou serviço depende do número de utilizações de outras pessoas.

Em externalidade positiva, um utilizador pode usar uma rede social sem a intenção de criar valor para os outros utilizadores, mas acaba por fazê-lo, inapelavelmente. As redes sociais online, como Twitter, Facebook e Instagram, tornam-se mais úteis quantos mais utilizadores aderirem a elas.

O número de Dunbar define o limite cognitivo teórico do número de pessoas com as quais um indivíduo pode manter relações sociais estáveis. Neste tipo de relação, o indivíduo conhece cada membro do grupo e sabe identificar em qual relação cada qual se encontra com os outros indivíduos do grupo.

Proposto pelo antropólogo britânico e psicólogo evolucionário, Robin Dunbar, ao analisar pequenos grupos ao longo da História da Humanidade, esse número costuma variar entre 100 e 230 pessoas. O tamanho de pequenas comunidades – tribos, aldeias, grupos de interesse comum – costuma se manter nessa faixa. Por exemplo, 150 é a média do número de acadêmicos em uma sub-especialização de uma disciplina.

Um pergunta-chave contemporânea é se a derrocada em representatividade coletiva de um sistema partidário fragmentado se deve ao individualismo dos pretendentes a se tornarem “representantes do povo” e/ou às redes sociais intolerantes à hierarquia imposta de fora, autoritariamente?

As redes informais costumam ter uma relação altamente ambivalente, seja submissa a um mito, seja hostil com as instituições estabelecidas.

Há fluxo e refluxo irregular na história. Houve longas épocas quando as estruturas hierárquicas dominaram a vida humana e eras históricas mais raras quando as redes foram favorecidas, graças em parte às mudanças na tecnologia: imprensa, internet, etc.

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Quando a hierarquia predominava, o poder de cada indivíduo equivalia ao do seu degrau na escada organizacional de um Estado, corporação, ou instituição sistematizada de modo similar como um partido. O de feição leninista, seja à esquerda, seja à direita, impunha seu “centralismo democrático”. Cabia aos “índios” mitificar, de maneira bovina, “o cacique”, recitando a ladainha: “Tudo o que o seu mestre mandar… Faremos todos! E se não fizer? Levaremos bolo!”

No caso contemporâneo, o “bolo” é o congelamento, o isolamento ou o cancelamento. Quanto mais pessoas em um grupo social, maior a demanda por esforço na socialização por parte de seus indivíduos. O medo da solidão impera em meio aos ínfimos “likes”.

De maneira pressuposta, quando as redes predominam, o poder de cada um equivale ao da sua posição em um ou mais grupos sociais estruturados horizontalmente. Abominam, por isso, a hierarquia vertical de cima para baixo.

Dúvida atroz do militante moderno: é melhor hoje fazer parte de uma rede influente em lugar de uma hierarquia poderosa? De qualquer jeito, somos cidadãos de um Estado hierárquico, empregados de uma corporação hierárquica, estudantes ou professores de uma instituição educacional sob a hierarquia de títulos, currículos ou patotas.

São curiosos e expressivos os significados de “patota”: intenção ou ato de quem busca trapacear no jogo; ato para induzir alguém em erro; negócio sem inspirar confiança. No popular, refere-se à “turma de amigos”. Estes a gente escolhe, colegas não…

A maioria de nós se sente mais à vontade ao pertencer a mais redes em lugar de uma hierarquia. Muitas pessoas se encantam em ter contas no Facebook ou no Twitter para seguir os comentários levianos e agressivos de adeptos das Teorias Conspiratórias.

Temos, entre outras, redes de parentes, de amigos, de vizinhos, de colegas, de pessoas com compartilhamento dos interesses pessoais em artes ou esportes. A participação em atividades de instituições com estrutura hierárquica como igrejas ou partidos políticos têm maior relação com redes, enquanto se participa como voluntários sem expectativa de compensação monetária. Em caso inverso – igreja atuando como partido em conduta mercenária –, ainda esperamos ver até qual limite é atingido pelo cinismo social.

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Os mundos das hierarquias e redes se encontram e interagem. Dentro de qualquer grande corporação ou instituição, no mundo real, há redes bem distintas do “organograma” oficial. Um chefe acusado de favoritismo ou nepotismo deturpa o processo formal de promoções por mérito.

Nomenklatura (palavra russa derivada do latim) era como se designava a “burocracia”, ou “casta dirigente” da União Soviética (1917-1991). Ela incluía a alta hierarquia do Partido Comunista e submetia trabalhadores com cargos técnicos, artistas e outros oportunistas em busca de gozar da simpatia do líder para obter ascensão profissional ou mobilidade social. Nem a esquerda nem a direita se distanciaram dessa prática.

Redes com estrutura hierárquica são “mal-usadas” (sic) pelos carreiristas em busca de escalada profissional ou mobilidade social. Um YouTuber, também conhecido como celebridade do YouTube ao criar conteúdo visto por multidões, ao longo de um tempo breve ganha popularidade no site de compartilhamento de vídeos.

Networks (redes) apoiam tais celebridades. Obtêm patrocinadores corporativos. Estes pagam pela colocação de produtos (merchandising) em seus clipes ou inclusão explícita de anúncios online. Daí muitos midiáticos ambicionam se transformar em políticos profissionais com os votos de seus telespectadores, ouvintes, seguidores…

Será possível encontrar um meio-termo entre atenuar o papel das redes ou exagerar esse papel por contumazes defensores de teorias conspiratórias? Será possível uma narrativa histórica do futuro onde mudanças importantes serão compreendidas, essencialmente, como desestabilizações dessas hierarquias “artificiais”, insustentáveis ou efêmeras, estabelecidas pelas redes?

Há milhares de redes: redes de televisão, redes de computador, redes de transporte, redes financeiras, redes terroristas, redes de assistência médica, isso sem falar outras como educacionais, criminais, elétricas, de telefone, de rádio, etc. Redes sociais constituem redes de inteligência? Não parece.

Tudo isso dá a impressão de um mundo onde tudo está conectado à idiotice. Nele, os idiotas não têm consciência do malfeito a si e aos outros ao transmitir fake News ou contrapropaganda. Ao espalhar contrainformação, os membros das redes de ódio se imaginam conspiradores contra o establishment. São militaristas raivosos decididos a impor um ponto de vista diferente com “negacionismo científico”.

Um sistema de seres humanos idiotas, interativos entre si, provoca um sistema caótico. Uma fake News pode ser a pequena modificação inicial capaz de produzir imensos efeitos secundários, inclusive uma comoção social influente em uma eleição.

Em pesquisa realizada pelo Instituto Travessia (Valor, 16/10/2020), 28% definem-se como conservadores. Entre esses, há mais mulheres, pessoas entre 45 e 49 anos de idade, além de integrantes das classes médias baixa e alta. Esse percentual está muito próximo da base política atribuída ao bolsonarismo: em torno de 30% do eleitorado.

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Quem afirma ser socialista soma 19% do total, alia-se a 3% de comunistas. Nessa esquerda, a prevalência é entre homens de 35 a 44 anos e renda de até dois mínimos por mês. Entre os liberais (19%) e os progressistas (9%), os mais jovens (de 16 a 24 anos) formam a maioria. Se somar os 9% progressistas à esquerda resulta em 31%.

Entretanto, a enquete com alcance nacional a partir de 1.010 entrevistas por telefone, indica 32% preferirem candidatos à direita no espectro ideológico. Esses eleitores são majoritariamente homens, em idades de 35 a 49 anos, ganham entre 2 e 5 mínimos mensais na classe média baixa, mas também incorporam os mais ricos com renda de 10 salários ou mais. Só́ ficam de fora desse grupo os mais pobres, com renda de até 2 mínimos.

Os políticos de esquerda têm a preferência de 20% dos pesquisados, na maioria homens jovens (entre 16 e 24 anos). O centro tem o apoio de 16% do eleitorado, em um segmento no qual as mulheres predominam. A cota de “quem não sabe responder à pergunta” é bastante significativa por alcançar 32% e empatar com os direitistas.

No segundo turno, o efeito da rede (e de sistema partidário fragmentado) se afunila na opção binária: Tico ou Teco. Esses “2 neurônio” (sem S, sic) não conversam entre si e escolhem. Cerca de 1/3 se omite com votos nulos ou inválidos, outro 1/3 vota na direita. Se a esquerda se aliasse ao centro, em Frente Ampla, a centro-esquerda ganharia por pouco: 36% a 32%.

Mas esse seria o caso de voto majoritário, apurado em todo o território nacional. Tal como na eleição norte-americana, desconsidera as decisivas nuances locais. De maneira pragmática, predominará a reeleição de prefeitos “testados e aprovados” – e não a ideologia.

 

[1] Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Golpe Econômico: Locaute ou Nocaute da Economia Brasileira” (2020). Baixe em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/
E-mail: [email protected].

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2 comentários

  1. A justiça imparcial, é resultante da verdade, do direito e da misericórdia. A verdade, é pura luz ao passo que, a insinuação, a mentira, a injustiça e todo o mal, são trevas que não se sustentam na presença da luz, que é a verdade.
    Nosso parabéns a iniciativa de todos os promotores, organizadores e presentes, etc, nos justificados eventos cívico/cidadão em defesa da educação e da soberania do povo, da democracia, do Estado Brasileiro e Soberano e de políticas públicas inclusivas justas e que levem em conta as peculiaridades cada região do país, todas, voltadas ao bem-estar sustentável de toda a nação brasileira.
    Nossa contribuição aos eventos, com espelho histórico do Brasil, é essa, para que todos os cidadãos, por sua própria consciência e livre arbítrio, se assim interessar, conheçam um pouco e entendam, o porquê, do que acontece hoje com Brasil.
    https://jornalggn.com.br/brasil/links-para-a-historia-do-brasil-de-1894-a-2018/.
    É, triste, a história do povo brasileiro e do Brasil, que infelizmente, continuam sendo vítimas de injustiça e de maldades, vejam a história do Brasil e tirem suas conclusões, com a sua própria consciência.
    As elites rurais e urbanas, os banqueiros e investidores improdutivos (rentistas), a empresas e imprensa conservadora alinhadas à causa histórica de prejudicar o povo e a nação, partidos políticos oportunistas, CN, governos, justiça e tudo, infiéis ao povo que neles confiou, aéticos e impatrióticos, etc, que se julgam donos do Brasil. Ainda bem que, a história e a Internet, são testemunhas vivas que estão aí, para comprovarem toda essa saga impatriotica. Viva a Constituição Federal da República Federativa do Brasil que em seu Parágrafo único (ainda) do Artigo 1º diz e atesta, aliados aos Artigos 2º, 3º, 4° dentre outros que dizem e mandam, para o bem da nação, o que segue:
    Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
    I – a soberania;
    II – a cidadania;
    III – a dignidade da pessoa humana;
    IV – os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; (Vide Lei nº 13.874, de 2019)
    V – o pluralismo político.
    Parágrafo único. “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.”
    Art. 2º São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário.
    Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
    I – construir uma sociedade livre, justa e solidária;
    II – garantir o desenvolvimento nacional;
    III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;
    IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
    Art. 4º A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios:
    I – independência nacional;
    II – prevalência dos direitos humanos;
    III – autodeterminação dos povos;
    IV – não-intervenção;
    V – igualdade entre os Estados;
    VI – defesa da paz;
    VII – solução pacífica dos conflitos;
    VIII – repúdio ao terrorismo e ao racismo;
    IX – cooperação entre os povos para o progresso da humanidade;
    X – concessão de asilo político.
    Parágrafo único. A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações.
    É osso, confiemos em Deus e, se tivermos interesse em nos instruirmos, lendo, consultando e praticando o diz e manda a nossa Constituição Federal, a Constituição de nosso Estado, a Lei Orgânica de nosso município, estaremos trilhando o caminho certo para a verdadeira cidadania.
    E também se, proativamente, aprendermos a cobrar da imprensa, das mídias, dos formadores de opiniões e dos influenciadores digitais, etc, responsabilidade e compromissos com a informação verdadeira, com a justiça imparcial, com a cidadania e com a ética e, se lutarmos unidos e com justiça pelo que acreditarmos, como verdade constitucional, com certeza, venceremos a ignorância, o analfabetismo cidadão, o preconceito, a desigualdade, a pobreza,
    a miséria, a desumanidade, a falta de fraternidade, a injustiça e a impunidade, que historicamente, nos envergonha como nação.
    Que o povo, os estudantes, autoridades, os candidatos, eleitores e formadores de opinião lembrem-se e, sempre pensem nisso. O poder é do povo e, a democracia e o estado de direito existem Constitucionalmente , para viabilizarem por interesse desse povo, conforme dispõe o Parágrafo Único do Artigo 1º da Constituição Federal da República Federativa do Brasil, o seu bem-estar e a paz social com justiça imparcial para todos, igualitariamente.
    Paz e bem.
    Sebastião Farias
    Um cidadão brasileiro nordestinamazônida

  2. Na minha modesta opinião, o pior dos problemas é que a Internet, da forma que está sendo criminosamente aproveitada, passou a ser considerada uma testemunha ocular.
    Quando se tem vários ambientes concentrados num só ponto, em rede, torna-se muito fácil a criação de memórias ou percepções falsas, simplesmente por ficarem sujeitas à interferências e manipulações vindas de várias direções e de forma muito rápida. A rapidez impede a retroalimentação dos grupos com informações verdadeiras………………………

    ontem mesmo falei de Mana de Marae e hoje me surpreendo com este artigo………………não estamos elegendo representantes do povo, mas sim de grupos dominantes por terem mais grana do que seus adversários…………………………..

    foi por aí, pelo exposto no início, que os espertalhões da política passaram a comprar algoritmos que neste pondo de diferentes ambientes concentrado identificam apenas grupos de iguais para então separá-los e realimentá-los com desinformação e mentiras sobre seus adversários

    truque matemático é não deixar ninguém sozinho pela rede, sempre reunir com um seu igual

    Bem fez o STF ao passar a identificar grupos

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