Escuta e suspeita: ler sem salvar o sentido
por Eliseu Raphael Venturi
Quando Paul Ricoeur propõe a distinção entre hermenêuticas da confiança e da desconfiança, ele não organiza um simples mapa metodológico. Ele nomeia uma tensão estrutural da interpretação moderna: a oscilação permanente entre a aposta de que o sentido pode ser acolhido e a suspeita de que ele se constitui, desde a origem, como defesa.
A hermenêutica da confiança parte de um gesto fundamental de hospitalidade. Ler é admitir que algo quer dizer, mesmo quando diz mal, mesmo quando diz pouco. O texto, a obra, o discurso, não são tratados como engodo, mas como tentativas finitas de dar forma a uma experiência que excede seus meios.
Interpretar, nesse registro, é aproximar-se, reconstruir, ampliar. O intérprete não se coloca acima do objeto; ele se deixa afetar por ele. A compreensão não é captura, mas encontro.
Essa postura sustenta a tradição segundo a qual o sentido não está simplesmente dado, mas pode emergir no diálogo entre horizontes. Mesmo quando reconhece a historicidade, a opacidade e os limites da linguagem, a hermenêutica da confiança mantém uma aposta decisiva: a de que a linguagem, apesar de tudo, ainda é um lugar possível de verdade, não como adequação, mas como acontecimento.
Por outro lado, a hermenêutica da desconfiança nasce quando essa aposta se torna insustentável. Ela emerge da constatação de que o sentido não apenas falha, mas frequentemente opera como máscara. O que se diz não coincide com o que se faz; o que se afirma não esgota o que move. Interpretar passa a significar desmontar, desvelar, desarticular. O intérprete já não acolhe: interroga. Já não escuta: suspeita.
Nesse registro de leitura, o discurso não é tomado como expressão, mas como sintoma. A linguagem deixa de ser lugar de manifestação e passa a ser campo de encobrimento. O que importa não é o que aparece, mas aquilo que foi necessário recalcar para que algo pudesse aparecer assim. A interpretação não amplia o sentido; ela o corrói. Não busca reconciliação, mas desestabilização.
Ricoeur percebe, contudo, que essa oposição não pode ser resolvida pela escolha de um dos polos. A confiança ingênua se torna complacência; a desconfiança radical se converte em cinismo. Se tudo diz algo verdadeiro, nada precisa ser interrogado. Se tudo é máscara, nada merece escuta. Em ambos os casos, a leitura perde sua potência ética.
É nesse ponto que a proposta de Ricoeur se torna mais sutil do que muitas de suas recepções. A hermenêutica da desconfiança não é um fim em si mesma. Ela cumpre uma função crítica necessária, mas limitada. Seu gesto é negativo: desmontar ilusões, denunciar falsos universais, expor racionalizações. Mas, se ela se absolutiza, resta apenas um mundo sem palavra confiável — e, com ele, um sujeito reduzido à suspeita permanente.
A hermenêutica da confiança, por sua vez, não pode mais ser inocente. Ela só é possível depois de atravessada pela desconfiança. Não se trata de restaurar o sentido como se nada tivesse acontecido, mas de aceitar que toda compreensão se dá sobre ruínas. Confiar, aqui, não é acreditar; é arriscar uma escuta sabendo que ela pode falhar.
Ricoeur não propõe uma síntese pacificadora entre essas posições. Ele sustenta uma tensão. Ler passa a ser um exercício instável: escutar sem ingenuidade, suspeitar sem destruir completamente o campo do sentido. A interpretação se torna uma prática ética, não porque leva a um resultado correto, mas porque exige do intérprete uma posição — nem salvadora, nem demolidora.
Nesse regime, o sentido não é algo a ser resgatado intacto, nem algo a ser definitivamente desmontado. Ele é algo a ser trabalhado, deslocado, exposto em sua fragilidade. Interpretar é aceitar que o sentido não coincide consigo mesmo, mas também que sua falha não autoriza o silêncio absoluto.
Essa posição intermediária não é confortável. Ela impede tanto a tranquilidade da compreensão plena quanto o gozo da denúncia. Exige uma atenção constante ao modo como o sentido se produz, se protege e se desfaz. A leitura deixa de ser uma técnica e se aproxima de uma experiência: algo acontece ao leitor, que já não pode se apoiar inteiramente nem na confiança, nem na suspeita.
Talvez seja esse o ponto em que a hermenêutica, ao tocar seus próprios limites, se aproxima daquilo que a psicanálise radicaliza: a constatação de que nem todo sentido pode ser dito, mas que nem por isso ele pode ser simplesmente descartado. Algo insiste, não como verdade oculta, mas como resto irredutível que exige não interpretação plena, mas sustentação.
Ler, nesse horizonte, já não é decifrar nem acolher sem reservas. É habitar o intervalo entre escuta e desconfiança, sabendo que o sentido não salva, mas que sua ausência absoluta tampouco é habitável. É nesse espaço instável, sem garantias, que a interpretação deixa de ser método e se torna gesto ético, situado e sempre incompleto.
Eliseu Raphael Venturi é doutor em direito.
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