Economia Política do Lobby Armamentista
por Fernando Nogueira da Costa
Para discutir por qual razão, mesmo após centenas de mortes em massacres por tiroteios nas escolas, tema o documentário, candidato ao Oscar, “Quartos Vazios” no Netflix, o sistema americano não consegue aprender, é necessário articular isso com Economia Política do lobby armamentista. É preciso então abrir essa caixa-preta pela análise da Economia Política, porque aí o fenômeno deixa de parecer “irracional” e passa a fazer um sentido duro — e perturbador.
Há quatro engrenagens capazes de funcionarem juntas: complexo industrial-armamentista, mídia, Estado e ideologia do individualismo radical. Nenhuma, isoladamente, explica o horror, mas a interação entre elas explica a persistência.
Primeiro, destaca-se o complexo industrial-armamentista como regime de acumulação. Nos EUA, armas não são apenas bens de consumo, porque são ativos políticos. A indústria armamentista fatura bilhões de dólares por ano. Depende de volume, para os ganhar, e não de uso “responsável”. Para tanto, precisa da armas circularem amplamente entre civis.
A National Rifle Association (Associação Nacional de Rifles da América), conhecida pela sigla NRA, é uma poderosa organização dos EUA, dedicada a defender o direito constitucional de portar armas. Fundada em 1871, atua intensamente como grupo de lobby para barrar leis de controle de armas, defendendo a Segunda Emenda.
Anuncia seus objetivos serem promover a segurança no tiro, caça, e, principalmente, a proteção dos direitos dos proprietários de armas de fogo e autodefesa. Mas tem enorme influência política, considerada um dos grupos de pressão mais fortes nos Estados Unidos, financiando políticos e legisladores se apoiarem sua pauta contrária a restrições ao porte de armas.
O lobby do NRA financia campanhas, redige projetos de lei e pune politicamente qualquer tentativa de regulação. Do ponto de vista econômico, cada tragédia não reduz a demanda — pelo contrário, a aumenta a corrida por armas após massacres, ou seja, o sistema é anticíclico à comoção moral.
Este é um ponto-chave: mortes infantis não são uma falha do sistema, são um custo externo tolerado do modelo de negócios.
O Estado americano está capturado e assume uma impotência deliberada. Ele não é fraco, ele é sim seletivamente forte para garantir contratos militares, proteger patentes, reprimir protestos e sustentar ações da indústria de armas em Wall Street. É fraco para regular armas civis, oferecer saúde mental universal e proteger escolas preventivamente. Isso não é contradição: é priorização política.
O Estado atua como garantidor do mercado armamentista e não como protetor do bem-estar coletivo. A violência internalizada vira um problema “privado”, não uma falha pública.
A própria mídia apresenta a violência como espetáculo e como anestesia. Nessa situação, cumpre dois papéis simultâneos, aparentemente opostos, mas complementares.
Primeiro, faz a espetacularização com a cobertura contínua, a repetição de imagens, as narrativas centradas no agressor e não nas vítimas inocentes. Apresenta rankings implícitos tipo “o pior massacre desde…”. Isso cria efeito de contágio, oferece “legado simbólico” aos autores e converte dor em audiência.
Segundo efeito é a naturalização. Com o tempo, a repetição produz fadiga moral com as manchetes repetitivas: “mais um tiroteio”, “tragédia inevitável”, “problema complexo demais” etc. A mídia transforma um crime estrutural em fatalidade recorrente.
Outra culpada é a ideologia do individualismo radical. Ela mantém toda “iniciativa particular”, inclusive criminosa, como edificante. A ideologia dominante sustenta a violência ser resultado de indivíduos falhos, o Estado ser sempre suspeito, a segurança ser responsabilidade privada e a liberdade é ausência de regulação, não presença de proteção.
Consequência direta disso tudo é não se discutir estrutura, mas discute-se sim o “caráter”, a “família”, a “doença mental”. Então, o sistema sai ileso. O massacre vira um desvio moral individual e não um produto previsível de um arranjo econômico-institucional.
Em uma visão sistêmica, a engrenagem se completa em cinco mecanismos interativos. A indústria precisa vender armas. O lobby bloqueia a regulação. O Estado protege o mercado, não a vida. A mídia transforma horror em espetáculo. A ideologia culpa o indivíduo e absolve o sistema.
O ciclo se retroalimenta. As crianças mortas não interrompem o circuito. Elas não têm poder econômico, eleitoral nem simbólico suficiente para fazê-lo entrar em colapso.
Sob a abordagem da Economia Política, os tiroteios escolares nos EUA não são um “fracasso moral coletivo”, mas a expressão coerente de um capitalismo armado, individualista e capturado por interesses privados. Onde a vida não entra na contabilidade, a morte vira acúmulo estatístico.
Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com.
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Clydes
4 de março de 2026 9:21 amSou apreciador destes ótimos textos.