21 de maio de 2026

Fernando N. da Costa: Economia Política do Lobby Armamentista

Há quatro engrenagens capazes de funcionarem juntas: complexo industrial-armamentista, mídia, Estado e ideologia do individualismo radical.
H.R. Giger

O complexo industrial-armamentista dos EUA lucra com a ampla circulação de armas, influenciado pelo lobby da NRA.
O Estado americano protege o mercado de armas, mas não regula o porte civil nem oferece saúde mental universal.
Mídia e ideologia individualista naturalizam a violência e culpam o indivíduo, mantendo o sistema intacto.

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Economia Política do Lobby Armamentista

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por Fernando Nogueira da Costa

Para discutir por qual razão, mesmo após centenas de mortes em massacres por tiroteios nas escolas, tema o documentário, candidato ao Oscar, “Quartos Vazios” no Netflix, o sistema americano não consegue aprender, é necessário articular isso com Economia Política do lobby armamentista.  É preciso então abrir essa caixa-preta pela análise da Economia Política, porque aí o fenômeno deixa de parecer “irracional” e passa a fazer um sentido duro — e perturbador.

Há quatro engrenagens capazes de funcionarem juntas: complexo industrial-armamentista, mídia, Estado e ideologia do individualismo radical. Nenhuma, isoladamente, explica o horror, mas a interação entre elas explica a persistência.

Primeiro, destaca-se o complexo industrial-armamentista como regime de acumulação. Nos EUA, armas não são apenas bens de consumo, porque são ativos políticos. A indústria armamentista fatura bilhões de dólares por ano. Depende de volume, para os ganhar, e não de uso “responsável”. Para tanto, precisa da armas circularem amplamente entre civis.

A National Rifle Association (Associação Nacional de Rifles da América), conhecida pela sigla NRA, é uma poderosa organização dos EUA, dedicada a defender o direito constitucional de portar armas. Fundada em 1871, atua intensamente como grupo de lobby para barrar leis de controle de armas, defendendo a Segunda Emenda.

Anuncia seus objetivos serem promover a segurança no tiro, caça, e, principalmente, a proteção dos direitos dos proprietários de armas de fogo e autodefesa. Mas tem enorme influência política, considerada um dos grupos de pressão mais fortes nos Estados Unidos, financiando políticos e legisladores se apoiarem sua pauta contrária a restrições ao porte de armas.

O lobby do NRA financia campanhas, redige projetos de lei e pune politicamente qualquer tentativa de regulação. Do ponto de vista econômico, cada tragédia não reduz a demanda — pelo contrário, a aumenta a corrida por armas após massacres, ou seja, o sistema é anticíclico à comoção moral.

Este é um ponto-chave: mortes infantis não são uma falha do sistema, são um custo externo tolerado do modelo de negócios.

O Estado americano está capturado e assume uma impotência deliberada. Ele não é fraco, ele é sim seletivamente forte para garantir contratos militares, proteger patentes, reprimir protestos e sustentar ações da indústria de armas em Wall Street. É fraco para regular armas civis, oferecer saúde mental universal e proteger escolas preventivamente. Isso não é contradição: é priorização política.

O Estado atua como garantidor do mercado armamentista e não como protetor do bem-estar coletivo. A violência internalizada vira um problema “privado”, não uma falha pública.

A própria mídia apresenta a violência como espetáculo e como anestesia. Nessa situação, cumpre dois papéis simultâneos, aparentemente opostos, mas complementares.

Primeiro, faz a espetacularização com a cobertura contínua, a repetição de imagens, as narrativas centradas no agressor e não nas vítimas inocentes. Apresenta rankings implícitos  tipo “o pior massacre desde…”. Isso cria efeito de contágio, oferece “legado simbólico” aos autores e converte dor em audiência.

Segundo efeito é a naturalização. Com o tempo, a repetição produz fadiga moral com as manchetes repetitivas: “mais um tiroteio”, “tragédia inevitável”, “problema complexo demais” etc. A mídia transforma um crime estrutural em fatalidade recorrente.

Outra culpada é a ideologia do individualismo radical. Ela mantém toda “iniciativa particular”, inclusive criminosa, como edificante. A ideologia dominante sustenta a violência ser resultado de indivíduos falhos, o Estado ser sempre suspeito, a segurança ser responsabilidade privada e a liberdade é ausência de regulação, não presença de proteção.

Consequência direta disso tudo é não se discutir estrutura, mas discute-se sim o “caráter”, a “família”, a “doença mental”. Então, o sistema sai ileso. O massacre vira um desvio moral individual e não um produto previsível de um arranjo econômico-institucional.

Em uma visão sistêmica, a engrenagem se completa em cinco mecanismos interativos. A indústria precisa vender armas. O lobby bloqueia a regulação. O Estado protege o mercado, não a vida. A mídia transforma horror em espetáculo. A ideologia culpa o indivíduo e absolve o sistema.

O ciclo se retroalimenta. As crianças mortas não interrompem o circuito. Elas não têm poder econômico, eleitoral nem simbólico suficiente para fazê-lo entrar em colapso.

Sob a abordagem da Economia Política, os tiroteios escolares nos EUA não são um “fracasso moral coletivo”, mas a expressão coerente de um capitalismo armado, individualista e capturado por interesses privados. Onde a vida não entra na contabilidade, a morte vira acúmulo estatístico.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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  1. Clydes

    4 de março de 2026 9:21 am

    Sou apreciador destes ótimos textos.

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