Programa de Ações Financeiras: Mídia, Política e Estabilidade Sistêmica
por Fernando Nogueira da Costa
Nenhuma política macroeconômica transformadora fracassa apenas por erro técnico. Ela tende a fracassar caso ignore o conflito distributivo, o tempo político e o papel estruturante das expectativas.
Um Programa de Ações Financeiras (PAF), elaborado para inicialmente debater com colegas e, depois, levar ao debate público, ao propor uma reorientação coordenada da política monetária, da política de crédito e da gestão da dívida pública, na economia brasileira, entra necessariamente em choque com interesses consolidados. Enfrentará, então, uma gramática midiática neoliberal, moldada pelo regime macroeconômico em vigor desde 1999.
Esta análise parte de uma premissa central: o PAF só será viável se for tratado como um processo político-institucional gradual, acompanhado por uma estratégia de comunicação e por “linhas vermelhas” de alerta de modo a evitarem risco sistêmico. O objetivo não será minimizar o conflito, mas organizá-lo no tempo.
A mídia econômica dominante não atua como simples observadora. Ela opera como ator político, porque é formadora de expectativas, mediadora entre mercado financeiro e opinião pública, guardiã informal do regime do Tripé Macroeconômico vigente.
Assim, qualquer deslocamento relevante na política monetária ou financeira é enquadrado não em termos de resultados, mas de credibilidade, confiança e regras do jogo. O PAF, por definição, será lido como ameaça a esse equilíbrio narrativo.
É possível esperar cada reação midiática de acordo com as fases do PAF.
Na fase preliminar, marcada por estudos técnicos, reorganização interna do Estado e mudanças procedimentais discretas, a reação midiática tenderá a ser limitada. Surgirão notas cautelosas, com vocabulário ambíguo, sinalizando vigilância. Nessa preparação silenciosa o objetivo não será atacar, mas testar.
Na Fase 1 de ajustes procedimentais, será quando alterações operacionais começarão a aparecer: coordenação maior entre Tesouro Nacional, bancos públicos e Banco Central, ajustes finos na gestão da liquidez. A mídia passará a emitir alertas moderados. O enquadramento típico será o da erosão da autonomia técnica. Ainda não haverá pânico, mas já se construirá uma narrativa preventiva.
Na Fase 2 de reorientação operacional, entrará a fase do conflito aberto. A ampliação seletiva do crédito, a redução do peso dos juros como principal instrumento de estabilização e mudanças graduais no perfil da dívida pública ativarão a retórica clássica: intervencionismo, risco fiscal, fuga de capitais. Editorialmente, o PAF passará a ser tratado como erro histórico anunciado.
Na Fase 3 de consolidação institucional, se os resultados reais começarem a aparecer — investimento, emprego, crescimento — a crítica não desaparecerá, mas mudará de forma. A mídia passará a questionar a sustentabilidade e a durabilidade dos ganhos. Caso os resultados ainda forem incompletos, a retórica de crise se intensificará. Em ambos os casos, a oposição narrativa persistirá.
Na Fase 4 de normalização, caso o novo arranjo se estabilize, ocorrerá um deslocamento silencioso. O que era visto como heresia passará a ser tratado como adaptação técnica. Não haverá autocrítica explícita, mas haverá incorporação seletiva do novo consenso.
Diante dessas reações midiáticas esperadas de oposição neoliberal, é prudente preparar uma comunicação política paralela. Deve ser classificada por princípios e fases.
Como princípios estruturantes, uma política financeira transformadora não poderá ser anunciada como ruptura abstrata. O plano de comunicação do PAF deverá seguir quatro princípios:
1. implementar antes de anunciar;
2. falar em efeitos concretos, não em modelos;
3. evitar linguagem defensiva frente ao mercado;
4. traduzir escolhas técnicas em ganhos sociais observáveis.
Então, a comunicação por fases será, na fase inicial, utilizar um vocabulário técnico e continuísta, enfatizando aperfeiçoamento e coordenação. Na fase intermediária, a comunicação deverá se apoiar em resultados empíricos simples e territoriais ou localizados. Apenas na fase de consolidação caberá a politização explícita do conflito distributivo, apresentada como escolha democrática entre projetos.
As “linhas vermelhas” referem-se à gestão do risco sistêmico. O gradualismo do PAF não será concessão ideológica, mas necessidade sistêmica. Algumas ações não poderão ser feitas de forma abrupta.
Por exemplo, confrontos legais ou simbólicos diretos contra o Banco Central do Brasil deverão ser evitados. A prática precederá a reforma institucional.
No caso da dívida pública, administrada pelo Tesouro Nacional, a desindexação deve ser gradual, via leilões de títulos de dívida pública prefixados e alongamento de prazos, sem quebra contratual.
Quanto aos fluxos de capital de entrada e saída, os controles deverão ser prudenciais e técnicos, não anúncios políticos genéricos.
No tocante à política fiscal, sua expansão sem coordenação monetária tenderia a ser neutralizada por elevação dos juros e consequentes encargos financeiros dos títulos de dívida pública.
Deverá se estar muito atento ao discurso moderado dos policy makers. A ideologização precoce do conflito enfraquecerá a política antes dos resultados.
Essas “linhas vermelhas” funcionarão como amortecedores institucionais do processo de transição.
Em uma síntese estratégica, deve estar sempre presente o seguinte: o PAF não é um programa maximalista nem uma lista de desejos. Trata-se de uma estratégia de reconstrução da capacidade do Estado brasileiro de coordenar finanças, crédito e crescimento.
Sua viabilidade prática dependerá menos da elegância teórica e mais da leitura correta do tempo político, da reação dos agentes e da capacidade de transformar resultados econômicos em legitimidade social.
A mídia reagirá negativamente — não por erro de comunicação, mas por conflito estrutural do neoliberalismo com o Estado social-desenvolvimentista. O desafio não é convencê-la, mas tornar suas narrativas incompatíveis com a realidade observável.
Em última instância, o sucesso do PAF residirá ao transformar exceção em rotina, política em normalidade e conflito em escolha democrática explícita da maioria do eleitorado.
Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected].
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