FHC, a ovelha desgarrada de uma família nacionalista e democrática

Na sequência, imagens de FHC, Felicíssimo Cardoso e Leônidas Cardoso.

Por Roberto Bitencourt da Silva

Lendo importante livro do historiador Leonardo Brito, a respeito do jornalismo brasileiro com linha editorial nacionalista (1), me deparei com uma instigante informação.

O autor faz referência a um periódico que circulou de 1949 a 1957, chamado “Emancipação” e que guardava relações com o Centro de Estudos e Defesa do Petróleo e da Economia Nacional (CEDPEN) e com a Liga da Emancipação Nacional (LEN).

Ambos os organismos coletivos preconizavam bandeiras sintonizadas com o nacionalismo econômico e com o anti-imperialismo. Basicamente defendiam o controle nacional e estatal das riquezas naturais e do processo de industrialização do país.

O jornal “Emancipação”, de acordo com Brito, teve como um dos editores o general Felicíssimo Cardoso, tio do sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Fazendo um rápido levantamento em dois jornais dos anos 1950 – o getulista “Última Hora” e o comunista “Imprensa Popular” –, não é difícil observar o destaque alcançado pelo tio de FHC, na defesa dos interesses nacionais.

Presidente do CEDPEN e conselheiro da LEN, Felicíssimo constantemente questionava os “trustes” e os “interesses estranhos”, que “querem deixar o país em situação degradante de semicolônia fornecedora de matérias-primas” (“Imprensa Popular”, 07/03/1951, p.1).

Recebia ainda telegramas de entidades de trabalhadores, que lhe congratulavam pela defesa dos interesses nacionais. O general esposava a tese – consoante a um ingrediente democrático participativo – de que os “problemas do país devem ser debatidos pelo povo”, pois, “em última análise, os problemas do país” são seus.

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O pai de FHC, o também general do Exército Leônidas Cardoso, por sua vez, não deixava por menos. Ativista do CEDPEN, diretamente envolvido na campanha popular “O Petróleo é nosso!”, foi perseguido pelo Conselho de Segurança Nacional, em 1953, sob a alegação de envolvimento com “atividades comunistas, subversivas” (“Última Hora”, 26/5/1953, p.3).

Leônidas chegou a ter o seu nome ventilado como eventual candidato do então Partido Comunista do Brasil (PCB) – o partido mudou de nome em 1960, rebatizado como Partido Comunista Brasileiro –, para o governo do estado de São Paulo, em 1954.

Elegeu-se, por São Paulo, deputado federal pelo Partido Trabalhista Brasileiro, de Jango, Pasqualini e Brizola, em 1954. Sempre nas fileiras nacionalistas, populares e anti-imperialistas.

Entre outros, junto com o irmão Felicíssimo e o trabalhista e deputado federal carioca Sérgio Magalhães – figura de proa na defesa da lei de limitação das remessas de lucros, regulamentada por Jango em 1964 – destacou-se na defesa da legalidade, contra a movimentação golpista e reacionária, que pretendia rasgar a Constituição e impedir a posse de Juscelino na Presidência, em 1956.

Leônidas e Felicíssimo foram nacionalistas, anti-imperialistas, democratas e legalistas. Na contramão, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso manteve um governo entreguista, nada cioso com os interesses nacionais. Disso todos sabem.

Contudo, o que FHC revelou nesse turbulento ano de 2015 foi uma novidade em seu currículo, demonstrando inúmeras atitudes favoráveis a ações golpistas. Flertou com o que de pior e mais reacionário a sociedade brasileira pode exibir.

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FHC definitivamente desprezou o legado familiar, abraçando todo-pimpão causas e comportamentos que seu pai e seu tio abominavam. Só Freud para explicar.

Roberto Bitencourt da Silva – historiador e cientista político.

(1)    Leonardo Brito. “A imprensa nacionalista no Brasil: o periódico O Semanário (1956-1964)”. Paco Editorial: Jundiaí-SP, 2010.

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16 comentários

  1. Quem explica não é Freud, mas a economia

    FHC chegou a compartilhar por algum tempo dos ideais de sua família (basta ver os livros que escreveu em sua juventude). Mas teve olhos para ver que o nacional-estatismo havia se esgotado nos anos 80, deixando o país em um atoleiro de estagnação e inflação. Ele promoveu o desmonte do nacional-estatismo, tirando o país do atoleiro e preparando o ciclo de crescimento da primeira década do século 21. Lula manteve a macroeconomia herdada de FHC, e o país conheceu anos de prosperidade. Dilma quis ressuscitar o nacional-estatismo, e o resultado é esse que vocês estão vendo.

    FHC, como Vargas, é daqueles personagens que alteram o rumo de um país, para o bem ou para o mal. Mas ele não tem o carisma de Vargas, e é notoriamente desajeitado com as palavras, pecando às vezes por falta de sutileza e outras vezes por excesso de sutileza. Penso que sua importância só será plenamente reconhecida em algumas décadas, quando a Era Vargas for definitivamente parte do passado. No momento estamos vivendo uma espécie de síndrome do retorno, na verdade não apenas nós, mas toda a América Latina. Se efetivamente retornarmos ao passado, à época anterior ao Plano Real, o país não terá um novo Lula antes de ter um novo FHC.

    • Eu e minha circunstância. Apenas isso.

      De minha parte não vejo muita similitude entre FHC e Getulio Vargas. Vargas lutou com todas as suas forças para o Brasil torna-se uma potência, uma nação, para tranpor o Brasil da republica velha a um Pais em desenvolvimento.

      FHC foi apenas a circunstância de seu tempo. Foi muito mais dirigido que dirigiu. Disso poucos se dão conta.

      Nem daqui ha cem anos ele tera um grande lugar na historia. Pelo contrario, quando seus socios da atual imprensa se forem, ai sim, os historiadores poderão contar a historia mais proxima da realidade. E ela não sera generosa com Fernando Henrique Cardodo, tal qual ele mesmo nunca o foi para com o povo brasileiro.

      • Isso sim é coisa para Freud explicar

        Essa rejeição desproporcional e quase histérica à pessoa de FHC, que eu tenho observado em quase todos os comentaristas aqui, é que Freud deve explicar. Não tem nexo lógico, pois tudo o que FHC fez foi aplainar o caminho para o PT. Acho incrível que não percebam uma coisa tão óbvia: sem FHC e seu legado, Lula não teria existido – ao menos não o Lula que conhecemos. Tivesse ele tido a má sorte de vencer umas das três primeiras eleições que disputou, ele só teria duas alternativas: fazer mais ou menos o mesmo que FHC fez, e assim ficar totalmente desmoralizado junto às bases, ou partir para uma aventura populista estilo Alan Garcia no Peru, que fatalmente terminaria em hiperinflação e popularidade zero. Com certeza não foi por acaso que Lula nunca mexeu na macroeconomia herdada de FHC. Dilma mexeu, e você está vendo o resultado.

        Tal como Vargas, FHC fez a transição entre duas fases históricas distintas. O modelo nacional-estatista de Vargas estava esgotado nos anos 80, e FHC liquidou-o, preparando o caminho para a era petista. E não creio que tenha sido mau para o povo, como você colocou – o povo não achou, tanto que reelegeu-o uma vez.

  2. Não há muito o que comentar,

    Não há muito o que comentar, já que o artigo-reportagem apresenta fatos muito bem registrados e documentados. Eu sempre digo a colegas e amigos que se deixam levar pelo canto da sereia e que ainda se auto-enganam em relação a FHC, sobretudo em relação ao homem público que foi senador e depois presidente, que a maior decepção não foi Sarney (ex-Arena e Ex-PDS), Collor (que eu desde os 14 anos sabia muito bem quem era, de fato), Lula, Dilma ou o PT. Mas FHC.

    E quando lemos e/ou estudamos o sociólogo FHC não é menor a decepção. Fernando Henrique simplesmente não é nada do que tentam nos ‘vender’ os bajuladores da mídia, a elite financeira e empresarial do País ou aquela intectualidade conservadora e que cheira a naftalina.

  3. O ex-Presidente FHC vem de

    O ex-Presidente FHC vem de uma ilustre familia militar, seu avo Marechal Joaquim Inacio Cardoso foi militar do Imperio,

    dois tios, os Generais Ciro do Espirito Santo Cardoso e Augusto Inacio Cardoso foram Ministros da Guerra de Getulio, este ultimo foi o Ministro da Guerra durante a Revolução Paulista de 1932, o pai do ex-Presidente era tambem General.

    O unico esquerdista era o tio General Felicissimo, que inclusive participou do Congresso Mundial da Paz de 1951, um evento

    promovido pelo Comintern, Seção Internacional do Partido Comunista da URSS.

    O titulo está bem confuso, FHC pode não ser classificado de “nacionalista” mas democrata ele sempre foi, reconheceu a vitoria de Lula e passou o poder com absoluta correção e ainda fez uma transição de comum acordo e em boa ordem.

    • Oi AA, curto as suas
      Oi AA, curto as suas postagens sobre economia, mas sinceramente, o FHC pode ter tido um passado democrático. Mas em 2015 foi o general do golpe, virou colunista quase semanal dos jornalões, os juristas que assinaram o processo de impeachment são próximos a ele, etc..

      E o que falar da teoria da dependência???

    • Mais ou menos, AA. Quando lhe

      Mais ou menos, AA. Quando lhe interessa ele “flexibiliza” sua noção de democracia. Não só agora em 2015 ao dar apoio ao golpe “indiretamente”.

      Mas também em 2005 no auge do mensalão quando chantageou Lula, “desista da reeleição que a gente desiste do impeachment”. Essa proposta indecente está devidamente registrado nas colunas dele no Globo e Estadão, senão me engano. Não aconteceu nem uma coisa nem outra porque a base social do Lula reagiu.

      PS: Para não deixar passar a bola quicando: Seu tio deve estar tristíssimo lá no além vendo o que faz seu sobrinho aqui na terra

    • Passou a faixa, mas não sem

      Passou a faixa, mas não sem antes comprar mais um mandato criando a reeleição e alterando as regras para facilitar a vitória no primeiro turno…

  4. Sempre a História

    Nassfi.: o avô do ex presidente assustou Benjamim Constant, quando propôs fuzilar D. Pedro II e toda família imperial, tal como fizeram os russos com sua realiza. Foi o próprio Benjamim quem registrou, horrorizado, o epsódio.

  5. Ou seja, e resumindo: FHC é

    Ou seja, e resumindo: FHC é um duplo traidor, da família dele e do povo brasileiro. Além de golpista. Precisa de mais o quê para colocá-lo num pé de página do lixo da história?

  6. Como o AA disse, FHC foi

    Como o AA disse, FHC foi realmente um democrata.

    A passagem de faixa presidencial teve um apelo simbólico muito grande. Um sociólogo, um membro da elite, aceitando democraticamente o resultado das urnas, e passando a faixa presidencial a um operário.

    Figueiredo não teve o mesmo gesto com Sarney, na transição de um governo militar para um civil.

    Eu acho que no fundo FHC não acreditava no sucesso do Lula, pelo seu baixo nível cultural/intelectual.

    Intimamente, acredito, FHC torcia para que o governo do Lula desse errado, e deu, com o estouro do mensalão no primeiro mandato.

    Aquela famosa frase dita com soberba por FHC ” vamos deixar ele sangrar”, FHC acreditava que o Lula iria definhar, e ele seria novamente aclamado pelo povo, e voltaria ao governo nos braços da multidão,como redentor.

    Deu tudo errado para o sociólogo, o Lula não só foi reeleito, como terminou o seu segundo mandato com uma popularidade de 85%. Nunca antes na historia do Brasil moderno, um presidente saiu com a popularidade tão alta

    Depois do sucesso nacional e internacional do Lula, FHC destrambelhou, despirocou, magoou.

    Deixou de ser democrata e passou para direita, extrema direita, radical de extrema direita, pré golpista, e hoje está no ápice de golpista.

    O próximo estágio do FHC se o Lula for eleito em 2018, é o suicídio.

  7. José de Alencar

    Ocorreu-me uma comparação súbita, entre dois vice presidentes: Entre o José de Alencar e o M. Temer.

    Esse último, na primeira chance para dar rasteira na Dilma, não hesitou. Escreveu uma carta

    (ou seria, jogou uma cartada?) na forma de punhal midiático informando-a que assumiria a Presidência caso necessário.

    Isto é, apoiaria o golpe, uma vez que fora desconsiderado pela Presidenta.

    Já o José de Alencar, até onde sei, recusou imediatamente a oferta de traição.

    Estarei errado ou sabendo pouco?

  8. PELEGO TRAIDOR

    Como assim ovelha desgarrada???

    O autor da reportagem está sendo muito bonzinho com ele.

    Ele é um PELEGO.

    Mesmo não sendo sindicalista, como PRESIDENTE DA REPÚBLICA, foi o maior PELEGO que esse país já teve.

    TRAIDOR de todas as causas  TRABALHISTAS.

    TRAIDOR dos TRABALHADORES.

    TRAIDOR dos APOSENTADOS.

    TRAIDOR da MULHER.

    TRAIDOR da FAMÍLIA.

    TRAIDOR da sua PRÓPRIA BIOGRAFIA.

    TRAIDOR da PÁTRIA. 

  9. Há muito me recuso a ser

    Há muito me recuso a ser surpreendido, mas de vez em quando, alguns bajuladores conseguem me tirar do sério!!!

    “O titulo está bem confuso, FHC pode não ser classificado de “nacionalista”…”, pode não é a palavra correta, pois na verdade ele não é !!!!

    Entreguista sim, pois sem querer me estender muito cito apenas dois dentre os vários.

    Vale do Rio Doce – Base de Alcantâra, que felizmente não conseguiu entregar !!!

    Deixo aos interessados pesquisar e divulgar os “feitos nacionalistas” deste individuo !!!!!

    Cambada de puxa-saco de traidores anti-nacionais !!!!!!!!!!!!! 

  10. FHC E SUA TERCEIRA VIA

    NEM TODO NACIONALISTA TEM BOA INTENÇÃO COM A PÁTRIA..O NACIONAL PODE SER DE DIREITA OU SER DE ESQUERDA  E O GLOBALISMO ELE PODE SER DE MULTINACIONAIS …OU SER DA INTERNACIONAL SOCIALISTA..SABEMOS O QUE O ESQUERDISTA QUER E SE OBRIGA AO DEFENDER SUAS DOUTRINAS SECULARES.NA SUA MAGOA E LUTA CONTRA O RICO ELE CAI NO MESMO MAL DA CORRUPÇÃO DE MAQUIAVEL..LIQUIDO E CERTO..SER NACIONAL PORÉM IMPOR QUE A NAÇÃO SEJA MARXISTA ISTO É COLOCAR COMO OPÇÃO DO CIDADÃO QUE ELE OU SEJA ESCRAVO VERMELHO COMUNISTA OU SEJA ESCRAVO AZUL..CAPITALISTA…A IDEIA DE FHC DO SOCIAL DEMOCRATA NÃO TEVE PODER NEM MORAL NUNCA PARA EQUILIBRAR CAPITAL E SOCIAL…AO JUNTAR SEUS PSDB COBRE COM O PFL ESTANHO..ESTE BRONZE..DOIS CAVALEIROS SOBRE UM SÓ CAVALO…ELE OBRIGA UMA TENSÃO EM UM CENTRO QUE INSTAVEL RESSURGE A BATALHADE POBRES CONTRA RICOS..PARA ISSO A ERAL TERCEIRA VIA NÃO É OUTRA QUE NÃO A DIREITA JUDICIAL..DA ERA ESPACIAL E DO DIGITAL E DO JURIDICO OUSADO DE HOJE.

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