Fim do terror ou terror sem fim?, por Ricardo Cappelli

Em Santa Maria, numa solenidade militar, o presidente defende armar a população. Diz ainda “que precisa mais do povo ao seu lado que do Parlamento”.

Fim do terror ou terror sem fim?

por Ricardo Cappelli

A conjuntura parece estar evoluindo rapidamente para um impasse. A velocidade dos fatos impressiona.

Bolsonaro resolveu enquadrar as Forças Armadas demitindo dois generais.  Juarez Aparecido de Paula, presidente dos Correios, cometeu o “pecado” de tirar fotos com parlamentares da esquerda.

Santos Cruz, desafeto de Olavo de Carvalho, foi o segundo. O general moderado virou o principal interlocutor com o Congresso.

Carlos Bolsonaro queria sua cabeça. Depois de Villas Bôas comprar a briga de Santos Cruz, foi preciso ganhar tempo. O “mergulho público” de Olavo foi planejado. A vitória do “Astrólogo da Virgínia” humilha o exército.

Guedes partiu para cima do Congresso afirmando que os deputados haviam abortado a “Nova Previdência”.

Na sequência, Bolsonaro demite de forma grosseira Joaquim Levy. O ex-ministro de Dilma se recusou a transformar o BNDES no DOI-CODI das gestões anteriores. Não basta desmontar o banco, é preciso desmoralizá-lo.

Em Santa Maria, numa solenidade militar, o presidente defende armar a população. Diz ainda “que precisa mais do povo ao seu lado que do Parlamento”.

É nítida a opção do Capitão pela guerra permanente, sem mediações.

Moro segue seu calvário. Seu isolamento é crescente. As denúncias do Intercept inverteram o jogo. O ex-juiz, que antes dava apoio a Bolsonaro, virou refém do bolsonarismo.

Por fim, a peça silenciosa mais importante. O mercado reduz pela 16º semana consecutiva sua projeção para o PIB: apenas +0.93%.

Neste cenário, faz sentido a radicalização e a “busca racional” pelo isolamento?

Leia também:  Bolsonaro sinaliza uso da força para manifestações como as do Chile

Causa inquietação a forma como os militares se imiscuem crescentemente na vida política nacional. Agora temos um general da ativa na Secretaria de Governo. Os telefonemas do general Villas Bôas para o STF são freqüentes, dizem fontes ligadas ao tribunal.

O soco na mesa do general Heleno demonstra o desconforto dos militares com a crise. A prisão de Lula é cada vez mais insustentável. A caserna faz circular que não aceita a liberdade do ex-presidente. O que isso significa?

Qual será a conseqüência da desmoralização da Lava a Jato somada à depressão econômica?

Onde querem ir Bolsonaro, Guedes e os generais com a escalada de ataques? De quem será a culpa pelo fracasso? Da política? Da democracia?

O mais provável é que Bolsonaro ignore as graves revelações do Intercept. Se ceder, perderá apoio no seu núcleo ideológico sem ganhar nada em troca. Não faz sentido.

Será a senha para que o submundo do Estado Policial passe a atuar nas sombras sem nenhum limite. Sob a fachada de uma democracia liberal, podemos ter um Estado de Terror, com os fins justificando abertamente quaisquer meios para liquidar “os inimigos da nação”.

O impasse parece ser a opção consciente do Capitão. Fraturar ainda mais a sociedade é um projeto. Parte da oposição parece fazer a mesma aposta, sonhando com uma fantástica e improvável guinada à esquerda.

Evitar o pior exigirá a convergência dos democratas, de diferentes matizes. A luta permanece sendo entre civilização e barbárie, política e obscurantismo. É sempre melhor construir o fim do terror do que arriscar viver num terror sem fim.

5 comentários

  1. Patético o plano de Bolsonaro… Apenas uma pequena minoria da população brasileira apóia esse idiota, robôs de Twitter não pegam em armas.

    • Que porcentagem da população você acha que apoiava as milícias italianas e alemãs na década de 1920 e 1930? Não precisa ser muita gente, basta ser muito violento e barulhento que você subjuga a maioria. Se você juntar um punhadinho de gente que vai sair matando sindicalistas, políticos de esquerda e líderes comunitários, você instala o fascismo em um país.

      Inclusive, isso já está acontecendo no Brasil, todo dia matam sindicalista, líder comunitário… Daqui a algum tempo, como a esquerda vai ficar no cretinismo parlamentar e não vai agir para derrubar o governo fascista, vamos ter milícias suficientemente engajadas para implantar uma ordem fascista no Brasil. Para completar, já existem milícias no Brasil, como a UDR no campo e as milícias cariocas. Inclusive milícias institucionalizadas, como a ROTA em São Paulo.

      A esquerda deveria estar em alerta total e agindo vigorosamente para intimidar os fascistas, inclusive formando comitês de auto-defesa e contra-milícias. Mas como a esquerda brasileira é MUITO bundona e covarde, e, principalmente, padece de confusão mental permanente, achando que isso tudo vai passar logo, quando todos os indícios demonstram que logo menos estaremos vivendo no inferno, provavelmente no inferno viveremos. Ou nós emparedamos violentamente os fascistas, ou preparem-se para mais uma ditadura de Ustras e quetais. Fim das liberdades democráticas, terrorismo de Estado, é isso que nos aguarda se não agirmos decisivamente agora.

    • Sua posição é perigosa. As milícias italianas e alemãs eram muito pouca gente dentro da população. A questão é que matavam os líderes sindicais e comunitários da esquerda e incendiavam os centros comunitários, sedes de sindicatos e partidos.

      Boa parte da esquerda está equivocada na interpretação do que seja o fascismo em curso hoje no Brasil. Acha que Bolsonaro é uma brincadeira ou um “mal passageiro” que logo será superado. Dá risada das idiotices ou espera pacientemente tudo isso passar. A verdade é que todos os sinais indicam que estamos indo rumo ao inferno, a uma ditadura militar com o fim das liberdades democráticas e terrorismo de estado.

      A esquerda hoje tem ou uma política idiota, ou uma não política. Ou espera recompor um “centro” com o PSDB que nuncá recuperará, porque o grau da crise é sistêmico, e não conjuntural; ou cruza os braços e espera uma boa notícia, “amanhã o sol se levanta”. O problema é que daqui pra lá teremos 20 anos de terror.

      Pergunta: se a situação se deteriorar e as forças armadas derem um golpe militar, o que a esquerda vai fazer?
      Pergunta: o que a esquerda faz em relação às práticas e regulamentações ditatoriais do TSE e de todo o Judiciário?
      Pergunta: o que a esquerda faz diante do assassinato de dirigentes por milícias rurais (como a UDR) e urbanas?

      A verdade é que a hora já chegou e a ficha ainda não caiu. Estamos em processo de fechamento do regime, e se não formos certeiros na resposta, viveremos pelas próximas décadas de nossas vidas sob o terrorismo de estado de Ustras e quetais. Nós sabemos o quão sórdidos os fascistas brasileiros podem ser.

      Parece certo que o cretinismo parlamentar atual da esquerda nos levará ao desastre; e que o único desenvolvimento atual capaz de barrar o processo de degeneração nacional são as mobilizações populares, um enfrentamento de classes.

  2. E além disto tudo temos ainda o idiota do Wilson Witzel, “encontrando” ligações do tráfico do Rio com o Hezbollah. O nível esta baixíssimo.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome