Financial Times: investidores estrangeiros se afastam do Brasil, por Cesar Locatelli

O espanto com o governo Bolsonaro não parte somente dos progressistas, mas, igualmente, dos mais ferrenhos conservadores, com o Financial Times na comissão de frente

Por Cesar Locatelli

O jornal inglês, Financial Times, assim como seu par The Wall Street Journal, é um dos mais influentes arautos do establishment, nestes tempos de absoluto comando das finanças sobre os destinos econômicos, políticos e sociais dos humanos.

Não se verá em suas páginas nada que destoe da defesa insolente da austeridade nas contas dos governos, mesmo quando implique desemprego, fome e sofrimento para populações inteiras. Seu credo determina que os governos sejam mínimos, no que afeta as pessoas, e máximos, na proteção ao valor presente e futuro do dinheiro.

Essas ressalvas buscam evidenciar que o espanto com o governo Bolsonaro não parte somente dos progressistas, mas, igualmente, dos mais ferrenhos conservadores, com o Financial Times na comissão de frente.

Vejamos o que diz da matéria, “Investidores vão se afastar do Brasil até sinais de progresso”, escrita por Jonathan Wheatley, em 19/6, para o Financial Times:

“Os últimos 10 dias foram agitados no Brasil, mesmo pelos padrões daquele país propenso a escândalos. O ministro da Justiça foi acusado de conspiração, um alto assessor presidencial foi demitido depois de se desentender com o desbocado guru de seu chefe, e o chefe do banco nacional de desenvolvimento foi forçado a sair por alegações de impureza ideológica.”

O jornalista se mostra intrigado com a indiferença do mercado de ações e de câmbio a essa balbúrdia, diz ele: “Qualquer distração ou perda de capital político escasso deve certamente ser uma má notícia. No entanto, os mercados parecem impassíveis”. Bem, aqui é preciso ressaltar que o Banco Central tem o controle quase absoluto do mercado de câmbio, com reservas em moeda forte de 388 bilhões de dólares, e possibilidade quase infinita de vender proteção cambial a quem desejar, via swaps cambiais.

Leia também:  Paulo Henrique Amorim, a televisão brasileira e suas mortes, por Laurindo Lalo Leal Filho

Seu entendimento vai em outra direção: os estrangeiros têm expectativas diferentes dos brasileiros que operam nesses mercados. Wheatley opina:

“Enquanto os moradores [investidores locais, para ser mais exato] parecem ter mantido a fé no programa econômico liberal do novo governo, muitas vezes caótico, os estrangeiros são mais céticos. Dados da Bolsa de Valores de São Paulo mostram que os estrangeiros são vendedores líquidos de ações brasileiras desde a eleição de Jair Bolsonaro, o presidente de direita, em outubro passado.”

Wheatley faz algumas críticas aos governos petistas, mas revela o que inquieta os estrangeiros. Ele cita um gestor de recursos londrino que, com uma simples frase, consegue desnudar a política econômica da dupla Bolsonaro Guedes: “A grande questão dos meus clientes é de onde virá o investimento produtivo”.

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4 comentários

  1. “Com o STF com tudo”, o vagabundo Jair Bolsonaro segura firme o leme para fazer o Brasil afundar na depressão econômica que em algum momento impedirá o Estado de pagar os salários fabulosos e acima do teto dos Juízes golpistas. Seu pupilo General Villas Boas, seu pupilo.

  2. 1 – Ironia: a versão do programa está no Facebook, que dificulta o acesso para quem não está cadastrado.
    2 – Não chega a ser uma surpresa, por dois problemas que são consequências da forma como o capitalismo ultraliberal globalizado está sendo desenhado:
    2.1. O neoliberalismo financeirizou a economia, em crescente dissociação da “economia real” e da vida produtiva, maximizando a virtualidade já existente na moeda e nos instrumentos de política dita econômica, juros, financiamento, cálculo e formação de crédito e endividamento – meu conhecimento leigo e pessoal chega até aqui, rs. Entendi de maneira sistematizada porque a moeda era uma abstração com a economista Ann Pettifor no The Real News Network (https://www.youtube.com/watch?v=F4eGTY6RWeg). A lição mais recente do quanto a economia se tornou um jogo de cassino foi a crise de 2008, explicada em nu frontal no filme “A grande aposta”. As pesquisas de Thomas Piketty sobre a concentração de renda e riqueza e como o sistema capitalista se provou propenso ao aumento exponencial da desigualdade são parte do quebra-cabeça, assim como o surgimento social e econômico de excrescências como os hedge funds (o talvez ex-bilionário – a volatilidade é vertiginosa, rs -, USamericano Robert Mercer, financiador de Steve Bannon e que levou Trump à presidência, entre outras desgraças políticas mundiais, é formado em tecnologia de informação, cuja aplicação ao mundo financeiro o tornou um dos homens mais ricos e poderosos do mundo, até alguns anos atrás…) e a ideologia da “mente milionária” que tem tantos adeptos por aqui, como se a economia não precisasse ser lastreada na vida real, como num jogo qualquer de videogame ou de cassino, com suas próprias e autônomas regras. Se a economia passou a funcionar sob a lógica de apostadores em jogos de azar, e deixou gradativamente de lado sua relação com a vida social, material e produtiva, a tecnologia como instrumento de agilizar, concentrar e controlar a produção e transmissão de dados era o par perfeito para a bomba atômica do século XXI – não se pode esquecer que as Big Techs (apelido para as gigantes de tecnologia) estão se associando à indústria do petróleo em plena emergência climática global.
    2.2. O segundo aspecto é que, tendo a economia se tornado um jogo virtual e o neoliberalismo sido bem sucedido em sua pregação sobre o fim das utopias e a salvação pelo individualismo – como captação da esfera da individualidade pelo capitalismo para, como é seu mister, distorcer para se justificar como “lei natural” das relações humanas através da competição e concorrência -, não demorou para a política ser cooptada nesse jogo através do financiamento de campanhas, lobbies e o simultâneo esvaziamento do espaço público de disputa política (capitalismo é instintivamente antidemocrático e monopolista), passando a trabalhar para o “mercado financeiro”, sintomaticamente tornado um ator político mais importante que a sociedade, um oráculo fajuto, e dela se tornado refém – como explicar que os bancos que são devedores da União são seus credores em dívida pública? Assim, não demorou para que esses conglomerados mercado financeiro e tecnologia de informação confluíssem, resultado da lógica capitalista de acumulação e concentração às custas da espoliação da maioria, no controle social ubíquo e aparentemente irresistível – por que o autor do artigo não cria um blogue e sai do Facebook? essa conversa de vencer o inimigo em seu território não me convence… O Bill Gates já controla a Organização Mundial de Saúde e pretende patentear sementes na Índia – patrimônio natural!, além de já ter instalado lá, salvo engano, a digitalização da moeda para algumas transações financeiras (a valente e louvável dra. Vandana Shiva fala do papel das Big Techs neste controle nefasto da vida social, em especial em questões ambientais, em seus recentes livros e entrevistas, e a dra. Shoshana Zuboff lançou um catatau sobre as ramificações do capitalismo de hipervigilância – a propósito, Lula e Assange continuam presos mas Ola Bini, o ativista digital sueco foi solto no Equador e não poderá ser acusado de hackear os picaretas amarelos no Brasil, rs). Ou seja, estamos cercados por todos os lados e poros, e não adianta sorrir para o monstro…

    O que essa nova ofensiva do Facebook confirma é que a democracia e a sociedade estão acuadas pelos três instrumentos mais imediatos de garantia de sobrevivência: o acesso à informação para exercer de fato sua liberdade, o acesso ao dinheiro e à produção material de sua sobrevivência, e o direito aos bens naturais de subsistência (terra, água, sementes para produção de alimentos e para manter a saúde ecológica do planeta).
    Enquanto os capitalistas (e aqui não faz diferença se são de direita ou não) distraem os crédulos com brinquedinhos divertidos (os espelhinhos que, diz a anedota, os invasores ofereciam aos povos nativos para ludibriar em troca das riquezas naturais) como o Facebook, Instagram, Twitter e quejandos, a esquerda que deveria, por definição, ser revolucionária para transformar o mundo em lugar decente para todos, perdeu os dentes… não sabe mais morder nem latir, apenas abanar o rabo para o mercado, por medo de ser tachada, quem diria, de radical. Mas capitalistas e as direitas, quando radicais e extremistas, poderão sempre contar com as esquerdas pero no mucho, porque, afinal, quem pode ser contra o “desenvolvimento”, o “crescimento”, a “evolução”, a “tecnologia”, a “tecnociência”, sempre usados como amaciantes retóricos para a falta de argúcia e coragem das esquerdas em proporem novos modelos de sociedade.
    Por falar nisso, onde estão os adeptos da moderna teoria monetária, os economistas alternativos ou apenas decentes, como Laura Carvalho, aqueles que são quase sacrílegos de falarem em regulação do sistema financeiro? Medo da pecha de radical de esquerda?
    Continuem sussurando enquanto o monstro capitalista morde e nem assopra mais, e depois não reclamem de Trumps e Bolsonaros, que são apenas resultados mecânicos – sim, devem existir leis físicas na política – da falta de estrutura e impotência da vontade das esquerdas domesticadas.

    Global Tech Companies Renew Push for Control Over All Data
    https://www.youtube.com/watch?v=h-FNhH4L9Ec

    Money que é good e nós num have – Mamonas Assassinas
    https://www.youtube.com/watch?v=Exn7ZowK5A8

    Pink Floyd – Money (Official Music Video)
    https://www.youtube.com/watch?v=-0kcet4aPpQ

    Sampa/SP, 21/06/2019 – 15:33

  3. Pela segunda vez meu comentário aparece no lugar errado: eu estava lendo e pretendia comentar na reportagem sobre a nova moeda do Facebook (https://jornalggn.com.br/noticia/facebook-tera-sua-propria-moeda-o-que-isso-significa/) mas o comentário apareceu aqui, provavelmente porque agora os artigos aparecem relacionados a outros… e eu posso ter colocado no local errado, ainda que tenha verificado antes de finalizar. Será replicado lá por este motivo.

    Sampa/SP, 21/06/2019 – 17:35

  4. Com certeza há pessoas mais gabaritadas aqui, mas me chamou a atenção o fato dele comentar que os investidores estrangeiros estão se desfazendo das ações. Eu, ignorante que sou, não entendendo nem a pau o fato da bolsa estar subindo. Pelo menos encontrei uma explicação.

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