Frente ampla e seletiva é um paradoxo, por Francisco Celso Calmon

Todas as frentes e movimentos que se organizem e se movam contra o Estado policial e em defesa do Estado democrático são válidos, desde que não dividam e censurem os demais.

Frente ampla e seletiva é um paradoxo

por Francisco Celso Calmon

Uma frente ampla pelas liberdades democrática ou pelos direitos já, se for seletiva, estão não é nem ampla, nem pelos direitos e menos ainda pelas liberdades democráticas. 

Um movimento, assumindo a forma e o nome que for, mas que tenha por objetivo maior a recomposição do Estado democrático de direito, não pode prescindir de reconhecer Lula como preso político e exigir a sua libertação imediata.

Na luta contra a ditadura militar existiam visões estratégicas distintas que se expressavam através das seguintes palavras de ordens: Só o povo unido derruba a ditadura. Só povo organizado derruba a ditadura. Só povo armado derruba a ditadura. E tinha a junção das duas últimas, que a minha organização defendia, Só o povo organizado e armado derruba a ditadura. E havia uma genérica que unificava: Abaixo a ditadura! 

Poucos foram os movimentos amplos e unificados na história republicana do país, cito três: o Petróleo é nosso; Anistia Ampla, Geral e Irrestrita; Diretas Já. Sendo que todos surgiram pequenos e foram ganhando amplitude e unidade massivas.

A Frente pela legalidade, lançada por Brizola, para garantir a posse do Jango, após renúncia do presidente Jânio, organizou de militares a estudantes secundaristas em comitês populares pela resistência; e entre a iminente guerra civil ou o recuo dos golpistas da extrema direita, venceu a legalidade e a vontade popular e de parcelas legalistas das Forças Armadas. 

A Frente Ampla lançada por Lacerda, que contou vagarosamente com o apoio de Juscelino e depois de Jango, por seu caráter oportunista e cupulista, teve mais oposição que adesão e vida efêmera e sem sucesso.  

Na atual conjuntura a contradição principal é entre o Estado policial de militares, milicianos e togas fascistas e o Estado democrático de direito, numa linguagem social: entre a barbárie e a civilidade.

Todas as frentes e movimentos que se organizem e se movam contra o Estado policial e em defesa do Estado democrático são válidos, desde que não dividam e censurem os demais.

Há movimentos cuja centralidade é por Lula livre, há outros cuja centralidade é pela democracia. Todos devem compreender que não haverá recomposição do Estado de direito sem a liberdade de Lula. A diferença deve ser apenas de amplitude tática e não de objetivo. 

A manutenção da prisão de Lula é também a validação de uma Lava jato corrupta e corruptora. Enquanto Lula estiver preso não poderemos considerar a democracia recomposta e o retorno à vigência do Estado de direito.

Movimentos excludentes e oportunistas terão vida efêmera, movimentos sem base social não terão sustentação e fôlego para trafegar nesse mar tormentoso de nossa conjuntura, até alcançar o objetivo de dar um basta ao bolsonarismo.

Qualquer frente, seja de esquerda, seja das forças democráticas incluindo parte da direita, que exclua o Partido dos trabalhadores, nascerá atrofiada, pelo simples fato de que se trata do maior partido de esquerda do país e com a maior capilaridade social.  Contudo, o PT não deve se autoexcluir, estar presente e participar como protagonista que é de nossa história é seu direito e dever. 

O exemplo do “pacto” da anistia na vigência da ditadura militar, deve ser lembrando e servir como lição para não ser repetido.

Francisco Celso Calmon é Advogado, Administrador, Coordenador do Fórum Memória, Verdade e Justiça do ES; autor do livro Combates pela Democracia (2012) e autor de artigos nos livros A Resistência ao Golpe de 2016 (2016) e Comentários a uma Sentença Anunciada: O Processo Lula (2017).

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