10 de junho de 2026

Groenlândia em disputa estratégica, por Edna Aparecida da Silva

Washington identifica a China como principal concorrente estratégico, redefinindo os parâmetros da posição internacional dos Estados Unidos.
Navio da Marinha Real Dinamarquesa patrulha a costa da capital da Groenlândia, Nuuk: interesse de Trump na ilha faz parte da nova configuração geopolítica e econômica mundial. AP Photo/Evgeniy Maloletka

Donald Trump reacendeu disputa pela Groenlândia, destacando seu valor estratégico para EUA e segurança nacional.
EUA ampliaram controle sobre investimentos estrangeiros, visando limitar presença chinesa em setores estratégicos globais.
Groenlândia é foco por minerais críticos e posição geopolítica, com Dinamarca adotando regras alinhadas à política americana.

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Groenlândia em disputa estratégica: investimento, segurança e a competição entre Estados Unidos e China

por Edna Aparecida da Silva

O debate recente sobre a Groenlândia ganhou novo impulso a partir das declarações e iniciativas de Donald Trump, que passaram a associar o território a interesses diretos de segurança e projeção de poder dos Estados Unidos.

Ao evocar controle e até anexação, essas falas recolocaram a ilha no centro das disputas estratégicas contemporâneas. Mais do que episódios retóricos isolados, elas funcionam como expressão visível de transformações mais profundas na forma como os Estados Unidos articulam poder, economia e segurança.

Essa inflexão não é episódica nem exclusiva da Groenlândia. Ela se insere em uma reconfiguração mais ampla da economia política internacional norte-americana. Ao longo da última década — e com maior intensidade sob os governos Trump — consolidou-se em Washington um consenso bipartidário que identifica a China como principal concorrente estratégico, redefinindo os parâmetros da posição internacional dos Estados Unidos.

Nesse contexto, o investimento estrangeiro passou a ser tratado como um instrumento de poder estatal, articulado diretamente a preocupações de segurança nacional, controle de setores estratégicos e contenção de vulnerabilidades associadas à competição sino-americana.

Um dos principais vetores dessa transformação tem sido a expansão dos regimes de segurança de investimento. Nos Estados Unidos, esse movimento se consolidou com o fortalecimento do Comitê de Investimento Estrangeiro (CFIUS), especialmente após a aprovação do Foreign Investment Risk Review Modernization Act (FIRRMA), em 2018.

Novas estratégias globais de investimento

A reforma ampliou o escopo da triagem para setores estratégicos, ativos sensíveis e participações não controladoras, introduzindo uma lógica mais preventiva de avaliação de riscos. Embora o CFIUS atue formalmente sobre transações realizadas nos Estados Unidos, esse novo enquadramento passou a produzir efeitos extraterritoriais indiretos, ao reconfigurar estratégias globais de investimento e sinalizar riscos regulatórios elevados para determinados perfis de investidores. Em especial capitais de origem chinesa.

A reforma do FIRRMA incluiu ainda a categoria de “excepted investors”. Ela se refere aos investidores estrangeiros oriundos de países considerados de baixo risco estratégico. Aliados como Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Reino Unido, que ficam parcialmente excluídos da jurisdição ampliada do CFIUS para determinados tipos de investimentos sensíveis.

Essa exceção, contudo, não é automática nem permanente. Ela está condicionada à adoção, por parte dos países de origem desses investidores, de marcos regulatórios e práticas institucionais compatíveis com os critérios de segurança nacional definidos pelos Estados Unidos.

Nesse sentido, o CFIUS passou a desempenhar também uma função externa, operando como instrumento de negociação política e regulatória com países aliados e incentivando a convergência normativa em matéria de triagem de investimentos como condição para um acesso diferenciado ao mercado norte-americano.

Mais do que uma reforma doméstica, esse modelo passou, assim, a operar como referência regulatória para economias aliadas. A triagem de investimentos transformou-se em um instrumento de alinhamento estratégico, por meio do qual países próximos aos Estados Unidos vêm adotando marcos legais funcionalmente compatíveis com o CFIUS.

Objetivo é limitar presença chinesa

Esse processo não decorre de jurisdição direta, mas da combinação entre sinalização regulatória, coordenação política e convergência normativa em torno da noção de risco estratégico. Na prática, essa dinâmica tem produzido a exclusão sistemática de capitais chineses — inclusive por meio de participações minoritárias, estruturas societárias indiretas ou projetos classificados como sensíveis do ponto de vista geopolítico.

Essa estratégia de filtragem e alinhamento regulatório é complementada por instrumentos executivos e orçamentários voltados à reconfiguração material das cadeias de suprimento.

Desde o início da década de 2020, por meio do Defense Production Act (DPA) e do programa Industrial Base Analysis and Sustainment (IBAS), o Departamento de Defesa dos Estados Unidos passou a financiar cadeias de suprimento de terras raras explicitamente desvinculadas da participação chinesa.

Essas iniciativas buscam assegurar o acesso a materiais críticos para os setores de defesa e tecnologia e reduzir dependências estruturais em relação a cadeias dominadas pela China, incluindo projetos e parcerias localizados em países aliados e territórios estratégicos, como a Groenlândia.

Terras raras e outros recursos estratégicos

É nesse quadro que a Groenlândia adquire centralidade analítica. O território combina duas dimensões centrais da rivalidade sino-americana: sua posição geográfica no Ártico, relevante para vigilância e defesa estratégica, e a presença de recursos minerais críticos, especialmente terras raras, essenciais para sistemas de defesa, infraestrutura digital e tecnologias associadas à transição energética.

Esses minerais integram cadeias globais altamente concentradas, nas quais a China ocupa posição dominante em etapas sensíveis, como refino e processamento, ampliando preocupações norte-americanas com dependências externas e vulnerabilidades estratégicas.

O caso dinamarquês ilustra de forma particularmente clara como essa lógica se projeta para fora dos Estados Unidos. Embora a Groenlândia detenha ampla autonomia sobre assuntos domésticos e gestão de recursos naturais, a autoridade sobre segurança e política externa permanece com a Dinamarca.

Desde 2020, o país opera um regime de triagem de investimentos estrangeiros baseado em critérios de segurança nacional, funcionalmente alinhado ao modelo norte-americano. Esse arcabouço não reproduz o CFIUS de forma literal, mas incorpora seus princípios centrais, permitindo revisar, condicionar ou bloquear investimentos em setores estratégicos e traduzindo, em contexto nacional, a lógica de controle preventivo do capital estrangeiro.

Com o tempo, esse mecanismo reconfigurou de forma significativa os resultados de investimento na ilha. Projetos inicialmente apresentados em termos desenvolvimentistas — especialmente em infraestrutura aeroportuária e mineração de terras raras — foram atrasados, reestruturados ou descontinuados após intervenções regulatórias. A exclusão não se limitou a investimentos majoritários, alcançando também participações indiretas e vínculos societários com empresas chinesas.

Um caso emblemático envolve a Greenland Minerals, posteriormente rebatizada como Energy Transition Minerals e associada à produtora chinesa Shenghe Resources. Após a revogação da licença do projeto de terras raras e urânio de Kvanefjeld, a empresa iniciou processos judiciais bilionários contra autoridades groenlandesas e dinamarquesas. O episódio ilustra como a incorporação do investimento à lógica da segurança redistribui riscos, amplia a incerteza jurídica e afasta o capital de setores considerados estrategicamente sensíveis.

Esse movimento regulatório vem sendo acompanhado por iniciativas legislativas recentes voltadas a reforçar o controle e a reorganização das cadeias de suprimento de minerais críticos. Em 14 de janeiro de 2026, um grupo bipartidário de parlamentares apresentou o Developing Overseas Mineral Investments and New Allied Networks for Critical Energies (DOMINANCE) Act, voltado a ampliar a produção doméstica e a fortalecer parcerias com países aliados para mineração, processamento e refino de minerais estratégicos fora da influência chinesa.

Ao articular financiamento público, coordenação internacional e critérios de segurança, esse tipo de iniciativa complementa os mecanismos de triagem de investimentos e reforça a lógica segundo a qual a segurança econômica depende tanto da exclusão de capitais considerados sensíveis quanto da promoção ativa de cadeias produtivas alinhadas geopoliticamente.

A Groenlândia, portanto, não deve ser compreendida apenas como um território em disputa, mas como um espaço onde se materializam transformações mais amplas da economia política internacional do investimento. A rivalidade entre Estados Unidos e China tem impulsionado a integração entre segurança nacional, regulação econômica e controle de capital, com efeitos que se estendem para além das fronteiras norte-americanas.

O caso dinamarquês-groenlandês revela como mecanismos inspirados no CFIUS são mobilizados para reorganizar cadeias de suprimento, limitar a presença chinesa em setores estratégicos e reforçar a posição dos Estados Unidos e de seus aliados na competição geopolítica contemporânea.

Edna Aparecida da Silva é pesquisadora do INCT/INEU e autora do capítulo “Investimento e segurança no governo Trump: CFIUS e a proteção da inovação como política de segurança nacional” no livro organizado por BOJIKIAN, N. M. P.; MENEZES, H. Z. (orgs.). A economia política do governo Trump. Curitiba: Appris, 2021.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Maria Luiza Falcão Silva

Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

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