Ilegitimidade política por trás da crise dos caminhoneiros, por J. Carlos de Assis

Foto: Marcelo Pinto/Fotos Públicas

Por J. Carlos de Assis

Governos competentes são testados nas crises. Quando são incompetentes e não sabem enfrentá-las, colapsam. O governo golpista de Temer demonstra, em face da grave crise dos caminhoneiros, extrema incompetência gerada, em última instância, por sua ilegitimidade. Ninguém o respeita, ninguém o teme, ninguém lhe confere qualquer credibilidade. Suas ordens não são cumpridas sequer pelas forças de segurança e pelas Forças Armadas. O que é uma sorte, já que pela vontade do Presidente poderíamos caminhar para um banho de sangue.

A origem dessa crise está na adoção do receituário neoliberal num setor de alto interesse para o país, ou seja, os transportes e a produção de derivados de petróleo. Para atender a interesses norte-americanos, Pedro Parente cortou em 25 a 30% a produção das refinarias nacionais de petróleo, criando uma situação de “mercado” favorável à importação em larga escala de combustíveis oferecidos pelas petrolíferas estrangeiras, sobretudo dos Estados Unidos. Com isso os preços dispararam.

Nem todos os caminhoneiros sabem disso, mas o aumento do preço não se deve a impostos – que existem há décadas na cadeia do petróleo, sem aumentá-los -, mas na redução da produção nas refinarias. Os neoliberais, que são mestres em lei de oferta e de procura, poderiam explicar à sociedade brasileira que quando a produção das refinarias cai os preços  sobem. Sobretudo quando a fórmula de preços de Parente contém uma  mistura de combustíveis produzidos internamente, mais baratos, com os importados, mais caros.

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Portanto, essa greve tem um duplo conteúdo: de uma parte, conteúdo econômico, pela degradação da renda dos caminhoneiros, patrões e empregados, derivada do aumento, até mesmo diário, do preço do diesel; de outro lado o conteúdo político da escravização do país aos métodos neoliberais de “mercado”, os quais abrem possibilidades para a alienação da soberania brasileira em setores vitais como o pré-sal, a água, a terra amazônica, sem falar no esmagamento do valor do trabalho por expedientes infames como a reforma trabalhista.

Há quem pense que essa greve é de natureza estritamente corporativa, portanto com pouco conteúdo político. É um equívoco. A sociedade é composta de corporações. Em situação normal cada corporação busca seu próprio interesse, mas, em situações de crise econômica e política, há uma convergência inevitável de interesses. Estamos num desses momentos. A maior evidência disso é a convergência de interesses de caminhoneiros, patrões, empregados e autônomos, com petroleiros, com professores, e o que mais vier.

As forças políticas, a despeito de seu descrédito, terão de encontrar uma saída viável para essa crise gigantesca que o país atravessa. Este é o único caminho para evitar uma intervenção militar de última instância. Claro que essa saída não passa pela quadrilha que ocupou o Palácio do Planalto para execução da famigerada Ponte para o Futuro, madrinha da estupidez praticada na Petrobrás. É preciso, com a necessária prudência, encontrar uma saída aceitável pelos caminhoneiros, e sem ferir os interesses da sociedade, com algum mecanismo similar ao proposto pela Ação Popular que o senador Roberto Requião enviou à Justiça.

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P.S. A íntegra da ação popular proposta pelo senador Roberto Requião como contribuição ao fim da crise encontra-se no site www.frentepelasoberania.com.br

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6 comentários

  1. Caro J.Carlos de Assis
    Não há

    Caro J.Carlos de Assis

    Não há crise, há um projeto economico criminosos entreguista sendo implantado e os que se recusam a aceitar esse projeto.

     

    É um jogo de braço. Entre  e inter as classes

    Saudações

  2. competência

    Ao contrário sr. Assis,

    O governo da/o quadrilha, dessa porra, com militares, com congresso, com as igrejas com tudo É extremammente competente.

    Para roubar e destruir, para f. o povo, para entregar o patrimônio do Brasil.

    No lugar que eles pisam não nasce grama!

     

  3. TEMERÁRIA ILEGITIMIDADE PREDATÓRIA

    Na minha humilde opinião, além da ilegitimidade originária do governo, decorrente de sua gênese golpista, há o pesado agravante de servir, de maneira espúria e temerária, à construção do caos, para favorecer interesses predatórios.

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