Imperialismo sem maquiagem
por Filipe Reis Melo
Os últimos ataques dos EUA contra a Venezuela: sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, roubo de navios petroleiros, e bombardeio de pequenas embarcações pesqueiras nas costas venezuelanas são ações típicas do velho e conhecido imperialismo estadunidense. Há apenas uma nuance: o presidente Donald Trump decidiu exercer o imperialismo sem maquiagem. Foi descartado o uso da desculpa esfarrapada dos Direitos Humanos ou da democracia, invocada tantas e tantas vezes. Após o sequestro do presidente Maduro, o Departamento de Justiça dos EUA já admitiu que o Cartel de los Soles não existe e, por isso, a acusação de chefe desse hipotético cartel foi desconsiderada. Agora é imperialismo sem hipocrisia. O império quer fazer da Venezuela a sua colônia de onde pretende roubar a sua maior riqueza, o petróleo.
Entre 1947 e 1989, apesar do contraponto representado pela antiga União Soviética, os EUA exerceram a sua hegemonia de forma inconteste na economia, na cultura e na esfera militar. Naquele período, os EUA articularam 70 golpes de Estado ao redor do mundo. Mais recentemente, atacaram o Afeganistão (2001), o Iraque (2003), a Somália (de 2007 a 2025), a Líbia e a Síria (2011). Articularam golpes de Estado em Honduras (2009) e na Ucrânia (2014). Em 2023 veio à tona o caso da espionagem dos EUA sobre a Petrobras, a presidente Dilma Rousseff e outras autoridades brasileiras. Somente nos últimos doze meses, os EUA bombardearam sete países: Irã, Síria, Iêmen, Somália, Iraque, Nigéria e Venezuela.
Um império que perde paulatinamente a sua hegemonia torna-se mais agressivo, na busca de frear a sua perda relativa de poder. A China ultrapassou os EUA na maioria dos setores de alta tecnologia e ocupa o primeiro lugar em pesquisas sobre 66 dessas tecnologias, como energia nuclear, robótica, biologia sintética e pequenos satélites. Já os EUA, lideram 8 setores, entre os quais computação quântica e geoengenharia. Para que tenhamos uma ideia da perda relativa dos EUA, até o ano 2000, os EUA lideravam mais de 90% das tecnologias avaliadas, enquanto a China liderava menos de 5% delas. No que se refere ao comércio internacional, nesse mesmo período, os EUA deixaram de ser o principal parceiro comercial do mundo. A China ocupa esse lugar. Em termos de paridade de poder de compra, o Produto Interno Bruto (PIB) da China (US$38,19 trilhões) já superou o dos EUA (US$29,18 trilhões).
No plano militar, o império estadunidense permanece como a maior potência do planeta, com cerca de 700 bases militares espalhadas por todos os continentes, exceto na Antártica. No entanto, especificamente no que se refere a mísseis hipersônicos, que são os mísseis que se deslocam a velocidades superiores a 6.000km/h (cinco vezes a velocidade do som – Mach 5), a Rússia lidera essa tecnologia. Os EUA não dispõem de um sistema antimísseis capaz de fazer frente a misseis Mach 10 ou Mach 20.
O desgaste entre os EUA e os seus mais próximos aliados europeus é um indicador da perda da capacidade dos EUA de mantê-los alinhados aos objetivos do império. Os temas guerra na Ucrânia e Groelândia são os exemplos mais patentes desse desacordo.
Já passou da hora de o Brasil se preparar para se defender num mundo em que o poder faz a lei. É urgente uma reestruturação na formação dos militares brasileiros e uma articulação sul-americana para minimizar as consequências dos prováveis ataques do império.
Filipe Reis Melo – Professor de Relações Internacionais da UEPB
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