Interrogatório de Lula. Generalidades que não vêm ao caso, por Armando Coelho Neto

Interrogatório de Lula. Generalidades que não vêm ao caso

por Armando Rodrigues Coelho Neto

Defender o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva é tarefa árdua. É atrair para si a lama que há tempos atiram contra ele. Seria mais cômodo endossar a demonização promovida pela dita grande mídia contra ele. É o que se tem feito, até por parte de muitos que se beneficiaram daquela lama.

Sistema podre (“Sempre se soube”), por conta disso ou daquilo, foi possível formar ou acumular grandes riquezas, legislar em causa própria, se beneficiar de Proer e similares, conquistar anistias e perdões fiscais. Dos pixulés aos agrados de gaveta e contas em paraísos fiscais, como poderia o “Trem Brasil” caminhar sem aquela locomotiva? Numa sociedade movida a pedágio, como alguém poderia alguém transitar de graça? Portanto, nenhuma surpresa. O resto é moral hipócrita, mas parece estar fora do contexto.

Com alguma frequência, o ex-presidente Lula destacava ser “preciso mudar a forma de se fazer política nesse país”. Com igual ênfase, sempre apregoou a necessidade de financiamento público de campanhas. Portanto, se não sabia como o “Trem Brasil” trilhava, pelo menos presumia com qual combustível. Suas falas, porém, seriam ou são nítidos sinais de um não endossar a forma de lubrificar a engrenagem. Eis que, “sempre se soube”, não daria para entrar na lama do sistema e dela sair limpo e cheiroso. Até numa guerra pela paz derramar sangue é inevitável. Permito-me, pois, ainda que também fora do contexto, essa leitura romântica sobre “Jararaca viva”. É dela que vem a coragem de defender o ex-presidente Lula.

O contexto é o interrogatório de Lula. Convenhamos, ficou muito antipática aquela história de “senhor ex-presidente”. Parece haver ruídos no protocolo, mas isso verdadeiramente não vem ao caso.

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Entremos nas generalidades, pois o juiz Sérgio Moro disse querer contextualizar e tinha a obrigação de fazer perguntas. Sem direito a contextualizações, o réu poderia responder ou não. Moro quis contextualizar as coisas ao seu modo e não queria que o réu se queixasse da imprensa. Entretanto, fez várias perguntas sobre entrevistas concedidas por Lula à imprensa. Moro sabia que o que ali estava fazendo tinha tudo a ver com a imprensa municiada pela Farsa Jato. Sabia também que o clima de mídia forçou a aceitação da denúncia. Uma vez aceita, era preciso seguir o ritual da lei (ouvir o acusado).

A acusação foi pública em razão da pessoa, como disse Moro. Mas, a defesa não poderia ser pública (feriu pesos e contrapesos de um Estado de Direito?). Dar publicidade seria abrir exceções à regra. Mas, fazer interpretações elásticas ou restritas são exceções permitidas, pois servem para acusar (?). Recorrer à imprensa só vale para acusar ou para contextualizar a acusação (?). Criticar a imprensa pelo mesmo motivo pró-defesa não serve(?). O fato é que ao negar, Moro diminuiu o impacto do vexame. Já pensou o Zé Povinho, lá no meio do mato, ouvindo Lula dizer “eu quero saber da prova e do crime que cometi”?

Quem esperava um Lula acuado se surpreendeu com sua objetividade, serenidade, altivez, segurança, firmeza, dignidade. Olho no olho, o “analfabeto” não se acovardou diante de papeis sem assinatura, que poderia até já ter ou não visto. Papeis, aliás, que Sérgio Moro sabe nada valer. Quando muito, sob a perspectiva do direito, corresponderiam aos tais “atos preparatórios”, que pela lei e pacifica jurisprudência, só são puníveis quando inerentes ao tipo penal. Por exemplo, petrechos para falsificação de dinheiro é crime, mesmo que a falsificação não ocorra. Assim, a intenção de compra, ainda que verdadeira e criminosa fosse, não se consumaria com formulários sem assinatura. Mas, Moro tinha a obrigação de perguntar. Foi com base neles que aceitou a denúncia.

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Sérgio Moro queria contextualizar. Mas queria a seu modo, sob a perspectiva da acusação. Se imparcial, o faria também sob a óptica da defesa (outro prato da balança da deusa Themis). Lula contextualizou, ao lembrar que ali estava por haver dado meios para a Farsa Jato atuar e “não me sinto vítima disso”. Ainda que assim o tenha dito, aquele réu é, sim, vítima. E da pior forma, pois não tem estado diante da lei em si, mas sim da leitura torpe, tirana, raivosa e política da comoção midiática. A Farsa Jato padece do drama das teses acadêmicas malfeitas: o autor tem uma conclusão e depois sai em busca de justificativas para ela. Mas isso não vem ao caso.

 “Sempre se soube”. A culpa vem por presunção. Daí soar natural que numa explosão de espontaneidade, o réu figurativamente tenha contextualizado: sua mulher já deve ter saído pra comprar sapato, provar trinta e não comprar nenhum (olhei um ‘tripex’, não gostei, não comprei). Disparou pérolas do gênero, o senhor se sente culpado por haver quebrado empresas nacionais e haver desempregado milhares de trabalhadores? E disse mais que “Ninguém sabia… Nem eu, nem a imprensa, nem o senhor, nem o ministério público e nem a PF. Só ficamos sabendo quando grampearam o Youssef”.

Pela lei, o interrogatório não era para ter nada de novo e não teve. Tudo já havia sido dito e contextualizado pela imprensa. Só faltava a explicação pública e formal do réu. Mas, a imprensa, que para Moro não vem ao caso, criou a expectativa nacional sobre o novo, que só poderia ser a prisão que não houve.

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Moro queria contextualizar e um detalhe foi esquecido: se o Partido dos Trabalhadores é uma quadrilha, outra já está no poder. Pior, a quadrilha pronta para dar o bote 2018 tem como cartão de visita uma foto ao lado próprio Moro. Mas isso também não vem ao caso.

Armando Rodrigues Coelho Neto – jornalista e advogado, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo

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7 comentários

  1. O que o jornalista, advogado

    O que o jornalista, advogado e delegado (aposentado da PF) escreve dispensa qualquer comentário, se pra quem tem juízo e usa um mínimo do sua massa cinzenta, tá tudo bem explicadinho.

    Parabénn, Dr. Armando Coelho Neto.

  2. Depois do fiasco que foi o

    Depois do fiasco que foi o interrogatório de Curitiba, agora vem o anúncio de mais uma denúncia de obstrução da justiça. Dessa vez, a obstrução de Lula foi, pasmem! feita no próprio interrogatório. Não tem limites essa perseguição. Não tem limites a falta de provas legais e a invenção de farsas criminais levantadas contra o réu mais precioso do momento: Lula.  É monstruosa a sede de vingança de cada perdedor que ajudou a contruir esse golpe. Na Itália, a tal operação era contra a máfia que sustentaria o poder político. Aqui, criou-se uma máfia jurídica para perpetuar o golpe político e o ataque do sistema financeiro a todos os nossos direitos. É cruel e o grande centro do golpe do fim do mundo para nós, chama-se lava jato. Só que não. Não vamos aceitar assim tão mansamente.

  3. Até cair a ficha…

    É de abismar…

    Encontrou-se milhões do Serra…

    Encontrou-se contas e valores nas planilhas das empreiteiras para aécio e outros, muitos outros…

    Já do LULA, nada…

    Será que o LULA é mais esperto que o Serra?

    Que o aécio?

    Que o FHC?

    Que todos os políticos brasileiros?

    A esperteza cria histórico, cadê os rastros desta esperteza?

    Quem conseguiu tirar 40 milhões da miséria a partir da esperteza?

    O Maior de todos presidentes cairia por um triplex de terceira categoria no Guarujá?

    Ainda que fosse uma apartamento na Avenue Foch em Paris…

    Quem não entender que o que acontece com o LULA é politico está olhando para o dedo e não para aquilo que o dedo aponta!

    É preciso entender que os efeitos do golpe começam a fazer sentido…

    O golpe em sua primeira hora nos deu a PEC 55, que é a jabuticaba do capitalismo brasileiro!

    Os juros tem prioridade sobre o capital e o trabalho!

    Depois que pagar todos os centavos dos rentistas e só então se farão investimentos que irão gerar trabalho –  o que sobrar…

    E as empreiteiras, que não defendo, serão CANIBALIZADAS pelo setor financeiro e vão ter que entregar seus anéis…

    A Brasken vai acabar caindo nas mãos do bancos credores!

    A industria de defesa cairá para o setor financeiro…

    Por isso o governo não fez nada para reativar a economia!

    Para que a insolvência se torna uma realidade e assim os bancos se apossem de tudo que puder…

    O setor financeiro vai canibalizar toda economia…

    • O golpe e os banqueiros

      Paulo Setúbal – banco Itaú –  e Octávio de Barros – banco Bradesco – são dois dos apoiadores do golpe.

      A economia está em crise. Porém, somente no primeiro trimestre deste ano, o lucro do Itaú aumentou 20% e chegou a R$ 6,17 bilhões. O lucro do Bradesco aumentou 13% e chegou a R$ 4,65 bilhões.

      Ilan Goldfajn, empregado do Itaú, foi nomeado presidente do Banco Central pelo golpista Temer.

      “Mas isso não vem ao caso” , diriam alhures…

  4. O Processo

    Kafka ja sabia por qual enredo um processo pode levar uma pessoa e um Pais. Lula e, nos enquanto espectadores, foi levado à esse processo grotesco. Não sei como Sergio Moro planeja sair dessa, mas parece que ele caiu na sua propria armadilha e, agora, custe a quem custar, devera condenar a Luis Inacio e enterrar sua carreira de juiz digno.

    Doutor Armando Coelho Neto esta muito bem na fita, digo, na foto. Agora sei quem é o interlocutor com o qual dialogamos todas as segundas pelo GGN.

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