Keynesianismo perneta e tempestade perfeita, por Jorge Alexandre Neves

O neoliberalismo desorganizou por completo a economia brasileira. De um lado, passamos a ter problema sério com a inflação. De outro lado, não há qualquer perspectiva de elevação do PIB.

Keynesianismo perneta e tempestade perfeita

por Jorge Alexandre Neves

Ainda sob o impacto do artigo do Gal. Rego Barros (1), fico me perguntando como o presidente Bolsonaro irá reagir ao colapso socioeconômico que se avizinha. Será que ficou assim tão soberbo com uma popularidade cujo nível máximo não passa, se é que passa, quase nada dos 40%?

A combinação de inépcia com incompetência está nos empurrando para um abismo profundo. A Bloomberg mandou o recado do “mercado” (2). Avisou o que já era visível por vários indicadores, em particular as taxas de juros de longo prazo, o governo perdeu totalmente a confiança dos “agentes do mercado”.

O neoliberalismo desorganizou por completo a economia brasileira. De um lado, passamos a ter problema sério com a inflação. Em setembro, tivemos a maior taxa para o mês em 17 anos (3). A prévia da inflação de outubro é a maior em 25 anos (4). E, talvez o pior de tudo, as pressões inflacionárias começam a se disseminar, deixando de ser apenas algo concentrado nos alimentos (5). Para completar, o IGPM explodiu (6), fazendo com que a renovação dos alugueis sofra reajustes extremamente altos, de quase 18% para aqueles reajustados neste mês.

De outro lado, não há qualquer perspectiva de elevação do PIB. Muito pelo contrário! Os empresários não têm demonstrado a menor disposição de elevar a produção, nem mesmo quando se trata apenas de utilizar a capacidade ociosa, o que não requer novos investimentos (7). Esse comportamento – que indica uma enorme aversão ao risco por parte dos empresários – está sendo, pelo menos em parte, responsável pela elevação da inflação. Vivemos uma crise de oferta, que tem levado a uma falta generalizada de insumos (8), em particular na construção civil (9). O Brasil mergulhou em uma situação rara e assustadora, uma estagflação.

Como chegamos a uma situação tão desastrosa? A economia brasileira já vinha mergulhada em uma forte depressão desde muito antes da epidemia de Covid-19 (10). O lado da estagnação já vinha sendo construído desde a posse de Levy no Ministério da Fazenda, em 2015. Essa tendência se manteve no governo Temer e se aprofundou no governo Bolsonaro. Com a pandemia de Covid-19, contudo, Paulo Guedes e Jair Bolsonaro foram obrigados a aceitar a iniciativa do Congresso Nacional de criar um grande programa emergencial de transferência de renda. Ocorre que esse tipo de iniciativa sozinho é insuficiente para provocar uma recuperação econômica sustentável. É um keynesianismo perneta, que não tem como se sustentar em pé. A verdade é que o governo Bolsonaro conseguiu fazer um bom programa de auxílio emergencial porque provocado a fazê-lo pelo legislativo e porque fez uso de uma estrutura organizacional muito bem azeitada que já existia, a do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), que inclui a Caixa Econômica Federal e toda a sua expertise.

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O auxílio emergencial conseguiu estimular a demanda, mas seria necessário também impulsionar a oferta. Para tanto, o governo teria que tomar iniciativas para alavancar as outras “pernas” do keynesianismo: a) investimentos públicos que impulsionassem a economia e; b) a disponibilização de crédito. Nenhuma das duas coisas foi feita. No caso do investimento, se ao invés de ter entrado numa disputa ridícula com o Congresso e implementado o valor do auxílio de R$ 500,00 (e R$ 1.000,00 para mães singulares) proposto pelos parlamentares, teria tido mais de R$ 50 bilhões para investimentos (1/6 do que vai custar o auxílio emergencial até dezembro), sem aumentar o gasto em nada em relação ao que já está sendo feito (é claro que outras opções também existiam). No que concerne o crédito, o Banco Central até fez uma tentativa de aumentar a oferta a partir de liberações de compulsório (11). Todavia, a elevada aversão ao risco por parte de um sistema bancário extremamente oligopolizado impediu que o crédito chegasse na ponta (12). Teria sido preciso fazer o que foi feito no governo Lula, em 2009 e 2010, usar os bancos públicos e estatais para aumentar a oferta de crédito. Mas, obviamente, a equipe econômica de Paulo Guedes jamais faria nada disso. Se recusou a fazer investimentos públicos, bem como não aceitou usar os bancos públicos e estatais para forçar a elevação da oferta de crédito e a queda do spread bancário. Assim, mais de 700 mil empresas faliram (13), o que contribui sobremaneira para dificultar a procura por emprego por parte dos brasileiros que pararam de trabalhar desde março.

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Hoje, a taxa de desemprego é recorde (14) e vai continuar subindo (15). Portanto, para todos os lados que se olha, não há um único indicador animador que leve a uma expectativa de recuperação econômica em 2021. Sem querer voltar muito no tempo, o início da pandemia teria sido uma grande oportunidade para deslanchar um programa keynesiano robusto de reconstrução econômica do Brasil. Estávamos com inflação despencando – foi extremamente baixa em março (0,07%), sendo seguida por dois meses de deflação – e juros também em queda, apesar da depreciação cambial, que, em vista de inflação e juros em queda, poderia ter o efeito benéfico de elevar a competitividade, contribuindo para o esforço de reconstrução econômica.

Todavia, não seria a equipe econômica de Paulo Guedes – aquele que leu Keynes no original, antes mesmo de ir para Chicago (ohh, céus, Chicago!!! O novo Olimpo?!?!) – que conseguiria fazer um programa keynesiano robusto. Assim sendo, aqui estamos, à beira de uma tempestade perfeita. Tormenta esta que, com sua enorme soberba (insinuada, ou mais do que isso, pelo Gal. Rego Barros) e reconhecida (até por ele próprio) ignorância, o presidente Bolsonaro talvez ainda não tenha percebido estar se formando no horizonte. Quando se der conta, o que fará? Não vai ser coisa bonita de se ver!

Jorge Alexandre Barbosa Neves – Ph.D, University of Wisconsin – Madison, 1997.  Pesquisador PQ do CNPq. Pesquisador Visitante University of Texas – Austin. Professor Titular do Departamento de Sociologia – UFMG – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas
  1. Ver: https://www.correiobraziliense.com.br/opiniao/2020/10/4884811-memento-mori.html.
  2. Ver: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/nelsondesa/2020/10/bloomberg-ve-sinais-sinistros-no-brasil-e-rebeliao-dos-investidores.shtml?utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_campaign=compwa.
  3. Ver: https://www.correiobraziliense.com.br/economia/2020/10/4881275-inflacao-de-setembro-e-a-maior-em-17-anos.html#:~:text=A%20infla%C3%A7%C3%A3o%20oficial%20de%20setembro,alguns%20casos%2C%20a%203%25.
  4. Ver: https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/10/23/ipca-15-previa-da-inflacao-oficial-acelera-a-094percent-em-outubro.ghtml.
  5. Ver: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2020/10/28/inflacao-comeca-a-mostrar-pressoes-mais-disseminadas.ghtml.
  6. Ver: https://portal.fgv.br/noticias/igp-m-setembro-2020
  7. O cenário atual é de capacidade ociosa elevada e constante, desemprego alto e salários baixos. Ver: https://exame.com/blog/sergio-vale/inflacao-baixa-por-agora-mas-ha-riscos-no-longo-prazo/. Sérgio Vale escreveu este artigo antes da publicação dos indicadores sobre a elevação da inflação. Todavia, ele já identificava as evidências de que a inflação poderia se acelerar.
  8. Ver: https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/economia/audio/2020-10/faltam-insumos-e-industrias-tem-dificuldades-em-atender-clientes.
  9. Ver: https://sbtinterior.com/noticia/construcao-civil-falta-de-insumos-e-alta-de-precos-preocupa-construtoras,9988713624806.html.
  10. Ver: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/05/brasil-oscila-entre-a-estagnacao-e-a-depressao-avaliam-economistas.shtml.
  11. Ver: https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/03/23/bc-muda-compulsorio-e-libera-temporariamente-r-68-bilhoes-ao-mercado-financeiro.ghtml.
  12. Ver: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2020/05/20/donos-de-pequenos-negocios-nao-conseguem-ter-acesso-a-credito-prometido-pelo-governo.ghtml.
  13. Ver: https://brasil.elpais.com/brasil/2020-07-19/716000-empresas-fecharam-as-portas-desde-o-inicio-da-pandemia-no-brasil-segundo-o-ibge.html#:~:text=Desde%20que%20a%20pandemia%20do,feira%20(16%2F07).
  14. Ver: https://www.poder360.com.br/economia/taxa-desemprego-atinge-14-nivel-mais-alto-desde-o-inicio-da-pandemia/.
  15. Ver: https://valorinveste.globo.com/noticia/2020/09/30/taxa-de-desemprego-deve-crescer-ate-185percent-no-1o-trimestre-de-2021-diz-lca.ghtml.

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