Levy tenta justificar um dos planos mais desastrosos da história, por Luis Nassif

As empresas já sentiam a queda no consumo. Com o choque tarifário, houve enorme aumento de custos. Ao mesmo tempo, houve o trancamento total do crédito. As empresas foram literalmente esmagadas

O artigo do ex-Ministro Joaquim Levy, hoje na Folha, é a demonstração cabal do que batizei, em outros tempos, de “cabeça de planilha”. É a incapacidade absoluta de enxergar o todo.

No artigo, Levy explica todos os problemas que acometiam a economia até 2014:

* bancos públicos inchados pelos aportes do governo;

* contas públicas pressionadas pela politica imprudente de redução dos encargos da folha;

* tarifas atrasadas pelo receio de aumento da inflação.

Aí ele fez um checklist e tratou cada problema individualmente, sem a menor noção sobre as implicações das medidas sobre o todo. E não apenas sobre o cenário econômico, mas sobre o social e, por consequência, o político.

A ideia dele era um choque único sobre todos os problemas. Faria o mal de uma vez e, depois, o bem – as medidas de alívio – aos poucos. Assim que as medidas fossem tomadas – supunha ele – haveria um choque de confiança e os investidores voltariam rapidamente ao país, permitindo a recuperação em V.

A única medida positiva de sua gestão foi levar o funcionário do Banco do Brasil, Ivan Pinheiro, à Petrobras, Com seu trabalho silencioso e eficiente, consertou os enormes erros produzidos pela corrupção anterior e pela gestão desastrosa de Graça Foster.

Atribui o fracasso do plano à “fadiga com o partido do governo e seus equívocos”, seguido das pautas bombas da Câmara Federal, comandada por Eduardo Cunha. Em nenhum ponto admite o óbvio: o desgaste final do governo Dilma foram justamente as pautas bombas dele, Joaquim Levy, logo em seguida a uma campanha onde Dilma propôs justamente o contrário.

De qualquer modo, o desastre de Levy – similar, aliás, ao desastre do pós-Plano Real – mostra um dos grandes equívocos do pensamento econômico de mercado: a incapacidade absoluta de enxergar além das medidas fiscais imediatas. Ou seja, se tenho cinco problemas e tento resolver os cinco de uma vez, posso estar criando um problema maior ainda, que são os efeitos somados, das cinco soluções encontradas.

Essa visão plana da economia é de uma mediocridade acachapante, que se repete ano após ano.

Confira o que foi o plano Levy.

Cenário – tinha uma economia que vinha em franca aceleração, apesar da perda de dinamismo de 2014, com a retração das cotações internacionais de commodities. Vinha também de grandes desequilíbrios, provocados pela atuação voluntarista de Dilma Roussef-Guido Mantega. Havia, de fato, muitos problemas a serem enfrentados. Ao decidir pelo tratamento de choque – tratar todos os problemas de uma só vez – o resultado foi o seguinte:

* Choque tarifário, ao alinhar todas as tarifas ao mesmo tempo, provocando grande impacto na inflação.

* Choque cambial – ao permitir o desafogo do câmbio de uma só vez.

* Choque monetário –  com receio da propagação da inflação, Levy aumentou os juros e trancou o crédito completamente.

Sua ideia – de um autismo assustador – é que, assim que as medidas fossem tomadas, os investidores acreditariam, haveria uma queda na taxa de juros longa e, quando isso acontecesse, o país seria inundado de investimento produtivo.

Conseguiu produzir o efeito engavetamento na economia o mesmo, aliás, de 1995, com os erros do Plano Real.

A lógica é simples:

1. Com o aquecimento da economia, consumidores e empresas se endividam para aumentar as compras, os estoques, o capital de giro.

2. Quando a economia começa a cair, tem que haver uma transição suave, permitindo às empresas voltarem ao padrão anterior de capital de giro. Como se faz isso? Sinalizando claramente a etapa de sacrifícios que virá pela frente, e flexibilizando o crédito para permitir a transição para a nova etapa.

Levy fez justamente o contrário.

As empresas já sentiam a queda no consumo. Com o choque tarifário, houve enorme aumento de custos. Ao mesmo tempo, houve o trancamento total do crédito. As empresas foram literalmente esmagadas e se tornaram presas fáceis para os bancos avançarem ávidos sobre as garantias apresentadas. 

É assim que se cria o chamado efeito engavetamento. As empresas que mais cresciam, na etapa anterior, são as primeiras a bater no muro criado. Atrás delas, vêm os fornecedores que vão batendo, com o efeito engavetamento.

Dilma errou profundamente ao enfrentar Eduardo Cunha na eleição para a Câmara, sem avaliar corretamente a correlação de forças. Mas o maior fator de desgaste, justamente o que destruiu instantaneamente a imagem do governo, foi o plano Levy, que ia contra tudo o que ela declarou na campanha.

De útil, sobrou apenas o PPI, que serve para o general Tarcisio, Ministro da Infra Estrutura de Bolsonaro, apresentar como coisa sua.

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