21 de maio de 2026

A Lição Estratégica das Terras Raras em Minaçu, por Luiz F. Dias Fº

A conta não fecha para o país: perpetuamos o ciclo que nos impede de ascender ao clube das nações verdadeiramente desenvolvidas e soberanas.
Minaçu - Goiás - Reprodução

Serra Verde, produtora brasileira de terras raras, se funde com empresa dos EUA e assina contrato de 15 anos com apoio estatal americano.
Brasil fica com etapa inicial de processamento; EUA e Europa controlam etapas de maior valor e tecnologia da cadeia produtiva.
Especialista alerta para risco de dependência tecnológica e defende projeto nacional com transferência de tecnologia e indústria local.

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Estado Mínimo para Nós, Estado Máximo para Eles: A Lição Estratégica das Terras Raras em Minaçu

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por Luiz Fernando Dias Filho

Em 20 de abril de 2026, o mapa global dos minerais críticos sofreu um abalo silencioso, com epicentro em Minaçu (GO). A Serra Verde, única produtora em escala comercial de terras raras pesadas fora da Ásia, anunciou sua fusão com a norte-americana USA Rare Earth e um contrato de fornecimento de 15 anos com uma entidade capitalizada por agências do governo dos Estados Unidos. A narrativa oficial celebra a atração de investimentos, a garantia de venda e a inserção do Brasil em uma cadeia global. Como diretor de um centro de pesquisa mineral, minha análise, baseada nos detalhes técnicos do acordo trazidos pela reportagem da Revista Brasil Mineral, aponta para uma direção mais preocupante: este movimento consolida um modelo onde o Brasil abandona a pretensão de dominar a cadeia produtiva de alta tecnologia e se contenta em ser, mais uma vez, o fornecedor de matéria-prima para as indústrias dos outros. O caso Serra Verde é um microcosmo perfeito de uma contradição maior: enquanto os países centrais, notadamente os EUA, utilizam todas as ferramentas de Estado para garantir sua soberania tecnológica e controlar cadeias estratégicas, setores influentes no Brasil ainda propagam a falácia do “Estado mínimo” e da abertura indiscriminada, nos condenando ao papel eterno de colônia de exploração.

A Anatomia de uma Fusão Estratégica: Quem Fica com o Quê?

Vamos dissecar a operação. Ela tem três pilares: a fusão societária com a USA Rare Earth; um contrato de offtake de 15 anos com uma Sociedade de Propósito Específico (SPE) financiada por capital público-privado dos EUA; e um financiamento de US$ 565 milhões da DFC, agência de desenvolvimento financeiro do governo americano.

O resultado é uma empresa multinacional com operações no Brasil, EUA, França e Reino Unido. O que cada localidade recebe? O Brasil, especificamente Minaçu, fica com a mina e a planta de processamento primário, que produz um Carbonato Misto de Terras Raras (MREC), um concentrado intermediário que ainda precisa passar por etapas complexas até virar metal e ímã. É a etapa de menor complexidade tecnológica e valor agregado na cadeia. Já os ativos da USA Rare Earth, que agora controlam o fluxo downstream, incluem a Less Common Metals (LCM), no Reino Unido, um dos maiores produtores mundiais de metais e ligas de terras raras, a planta de ímãs permanentes em Stillwater, Oklahoma (EUA), e o depósito Round Top, no Texas. A separação dos óxidos individuais, a metalização e a fabricação dos ímãs permanentes de alto desempenho, etapas que concentram o know-how proprietário, as patentes e a maior fatia do valor final, ficam todas no exterior.

Em resumo: o Brasil fornece o minério concentrado. O Primeiro Mundo transforma-o no componente crítico para motores de veículos elétricos, turbinas eólicas e sistemas de defesa. Esta não é uma parceria entre iguais. É a integração subordinada de nosso recurso natural a uma cadeia de valor cujo cérebro e coração estão alhures.

O “Estado Empreendedor” Norte-Americano em Ação

Aqui reside a primeira lição estratégica, frequentemente ignorada por nossos arautos do liberalismo radical. Esta operação não foi viabilizada apenas pelo “livre mercado”. Ela foi orquestrada e garantida por instrumentos de Estado dos Estados Unidos.

A DFC (U.S. International Development Finance Corporation) não é um banco comercial qualquer. É uma agência estatal federal com mandato explícito de financiar projetos que promovam os interesses estratégicos, de política externa e de segurança nacional dos EUA. Seu empréstimo de US$ 565 milhões à Serra Verde tem um objetivo claro: reduzir a dependência americana (e ocidental) da China no fornecimento de terras raras pesadas, como disprósio e térbio. É política industrial e geopolítica disfarçada de operação de crédito.

Da mesma forma, a SPE que assina o contrato de 15 anos é “capitalizada por agências do governo dos EUA em conjunto com fontes privadas”. Ou seja, o Estado norte-americano entra como garantidor e comprador de último recurso, criando a segurança de demanda necessária para o projeto brasileiro avançar, mas em seus termos. Eles não estão apenas comprando um produto; estão assegurando um suprimento estratégico e, ao fazê-lo, direcionando o desenvolvimento da cadeia global conforme seus interesses.

O Contrassenso Brasileiro: Vender o Almoço para Comprar a Janta?

A ironia histórica é cortante. Enquanto observamos os Estados Unidos, a pátria-mãe do capitalismo moderno, utilizando seu aparato estatal de forma pragmática e agressiva para defender sua base industrial e tecnológica, uma parcela significativa da elite política e midiática brasileira continua a pregar a cartilha do Estado mínimo, das privatizações sem contrapartidas estratégicas e da abertura comercial como fim em si mesmo.

Critica-se qualquer tentativa de planejamento estatal nacional como “intervencionismo retrógrado”. Demonizam-se empresas estatais que poderiam ser instrumentos dessa política (vide o debate sobre a criação de uma empresa nacional de minérios estratégicos). No entanto, o mesmo grupo olha para os EUA e Europa com admiração, sem perceber que a força dessas economias reside justamente na simbiose entre um setor privado dinâmico e um Estado indutor, financiador e protetor de setores considerados vitais. Eles admiram o resultado, mas rejeitam os instrumentos que o produziram. É um contrassenso estratégico de consequências desastrosas.

O Custo da Commoditização: Do Minério ao Ímã, uma Viagem de Valor (e de Soberania) Perdida

Aceitar o papel de mero fornecedor de commodity tem um custo mensurável. Estudos do setor mostram que o valor de uma tonelada de ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro (NdFeB), contendo disprósio e térbio, pode ser dez a vinte vezes superior ao valor da tonelada equivalente de óxidos de terras raras (TREO) brutos, a forma química básica antes de virar metal e componente industrial. O salto de valor ocorre justamente nas etapas de separação, metalização e fabricação de ligas e ímãs, etapas que, no acordo Serra Verde-USAR, foram integralmente localizadas no exterior.

O contrato de 15 anos com preços mínimos garantidos, celebrado como uma grande vitória, assegura fluxo de caixa e reduz o risco financeiro do investimento em Minaçu. Do ponto de vista do acionista e do gestor do projeto, é um bom negócio. Do ponto de vista do projeto nacional de desenvolvimento, porém, é a institucionalização da renúncia. Troca-se a oportunidade de capturar uma fatia maior do valor futuro (e os empregos qualificados, a arrecadação tributária sobre valor agregado e o aprendizado tecnológico que vêm com ela) por uma estabilidade de receita no patamar mais baixo da cadeia.

É a lógica do extrativismo do século XXI: exportamos o recurso natural com algum processamento primário, e importamos de volta o produto tecnológico final a um preço multiplicado. A conta fecha para a empresa, mas não fecha para o país. Perpetuamos o ciclo que nos impede de ascender ao clube das nações verdadeiramente desenvolvidas e soberanas.

Por um Projeto Nacional de Minerais Críticos: Para Além do Extrativismo

O caminho alternativo existe, mas exige coragem para romper com a mentalidade colonial e adotar uma visão de Estado de longo prazo. O Brasil não precisa, e não deve renunciar aos seus recursos estratégicos. Precisa, sim, aprender com a prática de seus concorrentes e utilizar instrumentos de política pública para garantir que parte significativa da cadeia de valor se desenvolva em solo nacional. Isso não significa estatizar a mineração ou fechar-se ao capital internacional. Significa, simplesmente, negociar melhor: usar nossos recursos estratégicos para exigir investimento em tecnologia, qualificação de pessoas e etapas industriais no país, em vez de nos limitarmos a vender concentrado para o exterior.

Um Projeto Nacional de Minerais Críticos deve se assentar em três pilares concretos:

Retenção Mandatória de Etapas Downstream: Em projetos de grande escala e significado estratégico, como os de terras raras, lítio ou nióbio, a concessão de licenças e o acesso a financiamento público (via BNDES, por exemplo) devem estar condicionados à instalação, em prazo definido, de pelo menos uma unidade industrial de separação de óxidos individuais e, posteriormente, de metalização no país. Em outras palavras: não pode ser apenas “minério ou concentrado para exportação”, e sim “minério que gera fábricas e tecnologia aqui, dentro do nosso país.

Contrapartidas Tecnológicas e de Capital Intelectual: Parcerias com empresas estrangeiras são bem-vindas e necessárias. No entanto, os contratos devem incluir cláusulas obrigatórias de transferência de tecnologia e capacitação de mão de obra nacional, com metas auditáveis e prazos claros. A joint-venture societária é preferível ao mero contrato de offtake. O Centro de Pesquisa Mineral que dirijo, e instituições como as universidades federais e o IPT, devem ser partes integrantes desses acordos, atuando em cooperação técnica para a adaptação e domínio dos processos.

Financiamento Público Direcionado e Coordenado: O Estado brasileiro possui instrumentos poderosos, porém subutilizados de forma coordenada para este fim. O BNDES deve retomar linhas de crédito de longo prazo e juros subsidiários especificamente para plantas de processamento avançado de minerais críticos. A Finep deve lançar editais de inovação focados no desenvolvimento de processos de separação e metalização. A ANM e o Ministério de Minas e Energia devem mapear os depósitos e criar um regime tributário diferenciado que incentive a agregação de valor no território nacional, penalizando a exportação de matéria-prima bruta de itens estratégicos.

Em resumo: é usar BNDES, Finep, ANM e Ministério de Minas e Energia na mesma direção, com um objetivo explícito de transformar riqueza mineral em indústria, empregos qualificados e tecnologia nacional.

Este projeto exige que paremos de enxergar a mineração como um fim em si mesma, a simples extração e venda, e a vejamos como a base material para uma reindustrialização de alta tecnologia. O minério de terras raras de Minaçu deve alimentar, no futuro, uma fábrica de ímãs permanentes no Nordeste ou no Sudeste, que por sua vez abastecerá uma indústria nacional de motores para carros elétricos ou geradores eólicos. É assim que se constrói soberania: conectando elos da cadeia, gerando empregos complexos e internalizando o ciclo completo da inovação.

Não Podemos Trocar Dependências

A fusão Serra Verde-USA Rare Earth é um sintoma de uma doença mais profunda: a falta de um projeto nacional claro e corajoso para o século XXI. Ela nos mostra que, enquanto não definirmos coletivamente que tipo de país queremos ser, outros definirão por nós, moldando nosso papel na divisão internacional do trabalho a seu favor.

A lição final é cristalina. Não podemos trocar a dependência do fornecimento chinês por uma dependência do processamento e tecnologia norte-americana ou europeia. Isso não é ganhar autonomia; é apenas mudar o endereço do senhorio. A verdadeira soberania, em um mundo marcado pela disputa por recursos e tecnologia, passa inevitavelmente pelo domínio de cadeias produtivas estratégicas. Passa por ter o Estado como estrategista e indutor, e não como espectador ou vendedor de ativos. Passa por entender que recursos minerais críticos não são commodities como qualquer outra; são a matéria-prima da independência futura.

O Brasil tem todos os elementos para ser uma potência mineral do século XXI: o recurso, o mercado interno, a capacidade científica e o capital financeiro. O que nos falta, com urgência, é visão estratégica e vontade política para articular esses elementos em um projeto de país. Minaçu é um alerta: ou usamos nossas terras raras para construir autonomia tecnológica, ou seguiremos exportando futuro em troca de segurança de curto prazo para alguns projetos.

Luiz Fernando Dias Filho é diretor-geral do Centro de Tecnologia Mineral (CTM) do IFRN – Polo de Inovação Currais Novos (RN) e professor da área de Mineração. Tecnólogo em Ciências dos Materiais, mestre em Engenharia Mineral (UFPE) e doutorando em Geologia (Universidade de Coimbra), tem mais de duas décadas de atuação em empresas como Votorantim, Vale e Petrobras, além de experiência em pesquisa aplicada em minerais estratégicos e política mineral.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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  1. Cidadão sem cidadania

    23 de abril de 2026 10:23 am

    Nada tá perdido se lula for nacionalista como só a esquerda acredita, ele cancela essa venda e todas as outras concessões, lula nada fará porque é entreguista até a alma , tá entregando o pré sal , a avibras até hoje não foi salva e nem vai , o desejo de lula ser aceito pela classe dominante, é o que move ele e somente isso , lula não ganha mais .

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