21 de maio de 2026

A lógica paroquial da casta dos oligarcas políticos, por Fernando N. da Costa

A lógica paroquial e a lógica familiar se articulam para perpetuar o poder da casta oligárquica no Legislativo.
Reprodução

Lógica Paroquial da Casta dos Oligarcas Políticos

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por Fernando Nogueira da Costa

É necessário todos os cidadãos politicamente conscientes fazerem uma análise profunda das consequências do comportamento político voltado exclusivamente para a perpetuação dos mandatos do poder político ou legislativo da casta dos oligarcas (fantasiados de terno e gravata) com sua lógica paroquial: paternalismo, nepotismo, “amicismo”, localismo etc. Os bairristas favorecem suas bases eleitorais com emendas parlamentares secretas sem prestação de contas. Sua lógica familiar (respeito, herança, primogenitura etc.) destina-se ao maior enriquecimento do seus clãs dinásticos, entre outros, o do Capachonaro.

A análise deve ser feita como se fosse um mapa sistêmico de consequências, destacando como a lógica paroquial e a lógica familiar se articulam para perpetuar o poder da casta oligárquica no Legislativo. Essa lógica paroquial é espécie de feudo eleitoral mantido em suposta Era Moderna.

Caracteriza-se, primeiro, pelo paternalismo político. O parlamentar (congressista em regime presidencialista) se apresenta como benfeitor exclusivo da região, substituindo políticas públicas universais por favores e “presentes” em forma de obras pontuais.

Daí o localismo eleitoral, cuja ação política se resume ao atendimento da base específica (município, microrregião, comunidade de cabos eleitorais), sem conexão com o interesse nacional. Os deputados usam emendas secretas como moeda: recursos públicos são alocados sem transparência, garantindo a clientela política.

Isso gera desigualdade territorial, porque os com padrinho recebem, os sem ficam à margem. Há captura do orçamento por interesses privados ou paroquiais e faz um desmonte da noção de cidadania universal em troca da lógica de vassalagem local.

Em consequência, consolida-se um sistema de “feudos orçamentários”, onde cada parlamentar é senhor do seu quinhão. O Estado vira uma colcha de retalhos de favores.

Essa lógica familiar da casta dos oligarcas políticos tem a política regional como herança, quando não se transforma em bancadas ideológicas, tipo BBB: da Bíblia, dos Bois e da Bala. Predomina a primogenitura nas dinastias eleitorais porque mandatos são tratados como patrimônio, passados a filhos, irmãos ou cônjuges.

Há um respeito hierárquico dentro do clã. O poder se organiza segundo laços sanguíneos, e não pela legitimidade democrática ou mérito.

O enriquecimento é cumulativo. Um exemplo notório foi cerca de 44 milhões de reais terem sido captados pelo clã Capachonaro, via PIX, ao usar e abusar da vitimização. O coitadismo rende dinheiro…

Soma-se à renda direta via salários, verbas indenizatórias e cargos comissionados, a renda indireta via empresas de fachada, contratos de fornecedores e consultorias O patrimônio político é acumulado como capital simbólico: ele se converte em poder econômico e vice-versa.

Em consequência, reforça-se um capitalismo político familiar, no qual o acesso aos recursos do Estado é monopolizado por clãs. Eles transformam a política em negócio hereditário.

Há interação das duas lógicas: a lógica paroquial (feudo eleitoral) e a lógica familiar (dinastia patrimonial) se entrelaçam e se reforçam mutuamente. O feudo orçamentário garante recursos e prestígio para perpetuar a família no poder. A dinastia familiar oferece continuidade de comando sobre as clientelas locais.

Juntas, produzem barreiras de entrada à renovação política: novos atores independentes dificilmente conseguem competir contra redes de favores já enraizadas. Diante essa armação, consolida-se um cartel oligárquico controlador do Legislativo como condomínio privado, blindado contra accountability.

São péssimos os efeitos sistêmicos para a democracia e a sociedade. Primeiro, há erosão da representatividade nacional: o Legislativo deixa de ser arena de formulação de projetos para o país e vira balcão de negócios locais.

Soma-se à impunidade institucionalizada: a blindagem jurídica (PECs, foros, votos secretos) assegura seus crimes serem absorvidos como “custos de operação” da máquina política. Permanece o ciclo vicioso da desigualdade: regiões e grupos sociais sem apadrinhamento ficam estruturalmente excluídos, reforçando concentração de riqueza e poder.

Há estagnação do sistema político. A ausência de renovação gera mediocrização do debate público e captura dos recursos do Estado por clãs e oligarquias.

Agora, com a aprovação na Câmara de Deputados da PEC da Blindagem/Bandidagem, inclusive para presidentes de partidos políticos, aumentou o risco de simbiose com o crime organizado. Pior, quando o modelo familiar-oligárquico se encontra com as estruturas do crime armado, cria-se uma fusão explosiva: o Estado dominado e blindado serve de abrigo para organizações ilícitas.

O diagnóstico crítico é esse comportamento político, voltado exclusivamente para a perpetuação da casta da gravata, não ser apenas disfuncional. Ele é um mecanismo de reprodução de poder, capaz de transformar a democracia em simulacro.

O voto existe, mas é domesticado pelo clientelismo. O orçamento existe, mas é privatizado por emendas secretas. A lei existe, mas é filtrada pela blindagem jurídica dos próprios legisladores. Resultado: o Brasil tem uma democracia oligárquica de fachada, onde a soberania popular é capturada por uma lógica feudal-familiar.

Em um diagrama sistêmico, em forma de texto, ele é estruturado em níveis e setas de causalidade a respeito da Casta Oligárquica da Gravata. No primeiro nível, quanto às lógicas de reprodução do poder, a lógica paroquial (feudos eleitorais) é típica do paternalismo.

O deputado se apresenta como “pai protetor” da comunidade. O localismo se deve à atuação política restrita ao reduto eleitoral. As emendas secretas resultam em recursos distribuídos sem transparência para a fidelização de cabos eleitorais e prefeitos.

A lógica familiar das dinastias políticas destaca a primogenitura e a herança política com mandatos passados de pais para filhos, cônjuges, irmãos. Há respeito hierárquico, dada a liderança dentro do clã: decide quem ocupa o cargo. Resulta em enriquecimento patrimonial com renda direta (salários e verbas) e indireta (contratos e favores).

No segundo nível, há a interação das duas lógicas. O feudo orçamentário gera recursos para sustentar a dinastia familiar. A dinastia familiar garante continuidade no controle do feudo. O resultado é um cartel oligárquico fechado, onde política e patrimônio se fundem.

No terceiro nível, encontram-se as consequências institucionais. Resultam em blindagem legal (foro privilegiado, PECs, voto secreto), barreiras de entrada para novos atores políticos, erosão da representatividade nacional (o interesse local supera o interesse coletivo) e a captura do legislativo por redes privadas.

No quarto nível, reúnem-se as consequências sociais e econômicas: distribuição desigual de recursos (regiões com padrinho político e regiões órfãs), clientelismo estrutural com cidadãos tratados como vassalos de “patrões políticos”, estagnação política com perpetuação de práticas arcaicas em ambiente moderno, assimetria de cidadania. Afinal, alguns têm acesso direto ao Estado via favores, outros não.

No quinto nível, encontra-se a consequência sistêmica final. Há uma consolidação de uma “Democracia Oligárquica de Fachada”, na qual o voto legitima, mas não renova. O orçamento público é privatizado. A lei é escrita para proteger os próprios legisladores. O Estado funciona como condomínio privado da casta da gravata.

Já é hora do eleitorado brasileiro tomar consciência política disso tudo e aprender a votar em verdadeiros representantes da democracia – e não da paróquia!


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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