4 de junho de 2026

Lula e a dignidade do homem comum, por Paulo Fernandes Silveira

Ainda que ele tenha ocupado por dois mandatos o maior cargo na frágil e oscilante democracia brasileira, sua decisão reflete a dignidade do homem comum que ele nunca deixou de ser
Foto Ricardo Stuckert

Lula e a dignidade do homem comum

 por Paulo Fernandes Silveira

Em seu texto sobre a poesia e o teatro, Aristóteles afirma que a comédia imita os homens inferiores, enquanto que a tragédia imita os homens superiores. (aqui) A princípio, para o filósofo, o que configura a inferioridade ou a superioridade do homem não é sua posição social, mas sua índole e suas ações virtuosas ou viciosas. Todavia, segundo o crítico literário Erich Auerbach, a arte greco-romana acabou assumindo uma posição rigidamente aristocrática. (aqui) A imitação realista de temas cotidianos e de pessoas do povo deveria ter a forma da comédia, ao passo que a imitação das grandes ações dos guerreiros e das pessoas nobres deveria ter a forma da tragédia.

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Numa entrevista sobre “Los silencios”, seu filme mais recente, a diretora e pesquisadora Beatriz Seigner fala da sua preocupação em destacar a dignidade das personagens simples, pobres e em situação de vulnerabilidade. (aqui) Uma dignidade que se representa nos seus costumes, em seus hábitos cotidianos e em cada uma das suas ações. Analisando as ideias do filósofo Jacques Rancière, o também filósofo e doutorando Pedro Galdino discorre sobre a dignidade do homem comum, do “qualquer um”. (aqui) As narrativas sobre essa dignidade rompem com a caricatura da comédia greco-romana sobre o povo e questionam as hierarquias sociais e políticas.

Para a surpresa dos promotores da lava jato e de muita gente, o presidente Lula recusou as condições impostas na perspectiva de uma possível progressão para o regime semiaberto da pena que lhe foi determinada. Ainda que ele tenha ocupado por dois mandatos o maior cargo na frágil e oscilante democracia brasileira, sua decisão reflete a dignidade do homem comum que ele nunca deixou de ser, do líder popular que, antes de ser preso, foi abraçado por uma multidão em frente ao Sindicado dos Metalúrgicos de São Bernardo. A dignidade desse homem comum, que hoje se tornou cidadão honorário da cidade de Paris, mais uma vez nos motiva a romper com as caricaturas cômicas sobre o povo e a questionar as hierarquias sociais e políticas.

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  1. Pedro Galdino

    11 de outubro de 2019 5:07 pm

    Caro professor Paulo, Lula com certeza é um ótimo exemplo da dignidade do homem comum e de como alguém de uma condição social simples pode modificar o espaço social e político. Ótimo texto, parabéns!

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