LULA LIVRE: Os impactos simbólicos de um egresso prisional, por Samuel Lourenço

Lula Livre provoca as instituições para que leis sejam mudadas, prisões sejam revistas, progressões sejam mais demoradas, e tudo seja possível para que o LIVRE não seja sobrenome de ninguém que um dia saiu da cadeia.

LULA LIVRE: Os impactos simbólicos de um egresso prisional

por Samuel Lourenço

O que aconteceu com o Lula na saída da cadeia, dificilmente acontece com egressos prisionais: uma recepção calorosa. Com exceção de familiares e alguns conhecidos, dificilmente encontramos um grupo de pessoas dispostas a recepcionar um egresso prisional com tanta euforia. Não desconsidero que houve, e ainda há, um clamor imenso de insatisfação.

Tem gente odiando a saída dele até agora. Mas é isso: tem um monte de gente que fica aborrecida com a notícia sobre a soltura de alguém. No país da liberdade, ficar livre da prisão (depois de cumprir pena, ter a prisão relaxada, através de progressão de regime, aplicação de medida cautelar) é sempre sinônimo de impunidade. É insaciável a sede dos punitivistas. É uma turma que se embriaga com doses cavalares de punição. É uma tara ou frustração, vá saber.

“Mas o Lula não é bandido, e a prisão dele é uma prisão política!” diriam alguns. E eu concordo, é justamente essa diferenciação de presos criminosos e presos políticos que desmembra a prisão para que seja útil a mais gente, sejam elas políticas ou não, tipo: tem prisão pra todo mundo. Quando distanciam o Lula, preso político, dos demais presos, os estigmatizados como criminosos, percebemos que em algum lugar do subconsciente, existem pessoas que clamam por “Lula Livre” enquanto veneram pela prisão de alguém, ou seja, a prisão de presos “não políticos”, podem transcorrer dentro da normalidade, apesar da crueldade e das ilegalidades.

Além do ódio que as pessoas exalam pela soltura de um prisioneiro, e a questão da diferenciação de presos, onde presos políticos são presos injustamente e os demais presos tem suas prisão bem admitidas (há exceções, óbvio), existe a questão da ressocialização. Lula saiu da prisão depois de um bom tempo preso, e ao sair está fazendo as mesmas coisas que fazia antes de ser preso. Ou seja, a prisão não “mudou nada” em suas práticas. Ele continua atuando tal como o dia que foi conduzido para a prisão pela Polícia Federal, e pelos manifestantes que o queriam solto.

Lula ressocializado seria alguém, que apesar da indignação, jamais se voltaria contra as instituições que o julgou. Um egresso que publicamente faz isso concorre para retornar para a prisão. Talvez seja o fato de o Lula ter ficado preso numa sala e não numa cela superlotada tal como todas existente no Brasil.

Lula Livre revela o que tem de melhor: o desprezo das instituições com seus respectivos egressos. Ao ser posto em liberdade, o chefe da pasta que já falou em ressocialização de presos, disse que não conversava com criminosos. O chefe do Executivo disse que o egresso em questão estava com “crimes nas costas”, como se a Execução da Pena fosse pouco. Se o Lula progredir para o regime semiaberto, as pessoas não o deixarão em paz, pois no caso, seria um homem em cumprimento de pena, logo, um condenado transitando na rua como se fosse um ser livre.

Tem disso também, Lula anda na rua sem condenação. Isso é um problema para muitos, a expectativa dos odiosos é que ele saia e viva como um condenado, como um ex presidiário, como alguém que normatizado e uniformizado pela pena de prisão, se comporte de maneira domesticada e institucionalizada e nunca como um cidadão. Aí está um enigma do Lula Livre: depois do cumprimento da pena (apesar de ser interrompida) as pessoas não o enxergam como cidadão e sim como um eterno condenado.

E aos condenados, egressos prisionais, vale tudo: inclusive vaquinha para sua morte. Há um desejo de aniquilação que passa pelo Lula, e que constantemente acontece com centenas de pessoas no Brasil. Execução após ou durante o cumprimento da pena. As pessoas querem a morte do Lula, não só por ser o Lula, mas por ser um ex presidiário, um egresso prisional. E enquanto egresso que tenta viver livremente, viaja, discursa, enfrenta e atrai olhares, está incomodando um monte de gente e logo desperta o desejo homicida de muitos.

Lula Livre provoca as instituições para que leis sejam mudadas, prisões sejam revistas, progressões sejam mais demoradas, e tudo seja possível para que o LIVRE não seja sobrenome de ninguém que um dia saiu da cadeia. Lula livre, apesar do símbolo político e destaque para muitos assuntos, me conduz para este: Não estamos preparados para receber quem sai da prisão. E se com o Lula tudo isso é refletido, imaginem para os demais cidadãos do país, que jamais conseguirão alçar o capital político do sujeito em questão.

No fim, a cadeia embrutece tudo e não resolve nada. Cadeia não prestou pro Lula e não presta pra ninguém, nem mesmo pra saciar os punitivistas ensandecidos, que ébrios, entorpecidos pela raiva e pelo ódio, cambaleiam na rota da humanidade e da empatia.

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