Luta de classes e conflitos entre grupos de status: uma estratégia contra governos populares, por Paulo Fernandes Silveira

A leitura dos textos de Florestan sobre as classes sociais na América Latina nos ajuda a compreender a dinâmica do capitalismo selvagem

(Manifestantes separados por um muro no impeachment de Dilma).

Luta de classes e conflitos entre grupos de status: uma estratégia contra governos populares

por Paulo Fernandes Silveira

Num texto biográfico, ao tratar da sua infância humilde, Florestan Fernandes recuperou o conceito de “chance”, de Max Weber. Aproveitando as poucas oportunidades de estudo, seu talento intelectual e sua enorme dedicação, nos anos 40, Florestan deixa o emprego de garçom num bar do centro de São Paulo para prosseguir na carreira acadêmica. Segundo a sociologia weberiana, Florestan adquire a perspectiva de poder trocar seu “grupo de status” e seu “estilo de vida”. Em outro texto, o sociólogo afirma que sua mãe, uma lavadeira que o criou sozinha, temia que, com essas mudanças, Florestan passasse a ter vergonha dela.

Na obra Capitalismo dependente e classes sociais na América Latina, Florestan contrapõe as teorias de Weber e de Marx a respeito dos estratos sociais. Seguindo a tese weberiana que Raymundo Faoro desenvolve em Os Donos do poder, Florestan argumenta que, na América Latina, não houve uma consolidação da sociedade de classes. Isso porque não se extinguiu a dominação patrimonialista do antigo sistema colonial. Desse modo, lamenta Florestan, a dinâmica da luta de classes, tal como foi compreendida por Marx, não preencheu suas funções transformadoras e não conseguiu superar essa modalidade predatória de capitalismo selvagem.

No texto “Classe, estamento e partido”, Weber afirma que a organização da sociedade é condicionada pelo poder econômico e pelo prestígio social, fatores que determinam as oportunidades de vida (tese essa que seria desenvolvida por Bourdieu). Os interesses econômicos delimitam a situação das classes sociais, enquanto que as honrarias delimitam os grupos de status. As classes não se organizam, necessariamente, como comunidades. Já o prestígio social é próprio de estamentos que possuem um “círculo de status” mais ou menos fechado. A princípio, considerando essas definições, no âmbito de uma mesma classe social, é possível ter diferentes grupos de status.

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No livro Dialética do esclarecimento, Adorno e Horkheimer analisam as razões pelas quais os nazistas transformaram os judeus em bodes expiatórios. Ainda que muitos judeus fossem grandes empresários na Alemanha, o ódio popular que se forjou contra eles não estava vinculado à luta de classes. Prova disso é que esse ódio não se estendeu aos empresários que não eram judeus. Esse ódio voltava-se contra uma imagem estigmatizada do estilo de vida e do círculo de status dos judeus. Mesmo assim, segundo Adorno e Horkheimer, esse ódio ajudou a canalizar a revolta e a insatisfação dos trabalhadores decorrentes das suas péssimas condições de vida.

Nos últimos anos, alguns elementos dessa estratégia de poder apontada por Adorno e Horkheimer foram retomados no Brasil. Uma das interpretações sobre as manifestações de 2013 foi que os governos do PT tinham se afastado das bases populares e dos movimentos sociais. Por outro lado, os intelectuais de esquerda que formularam essa crítica não deram a palavra aos movimentos sociais que mantinham o diálogo com os governos petistas, lutando pela implantação ou pelo aprimoramento das políticas públicas, tais como: as organizações do movimento negro, o movimento dos catadores (Lúmpen) e o movimento em defesa da moradia. Uma das consequências da tese de que os governos do PT tinham se afastado das bases populares e dos movimentos sociais foi a relativização de uma velha bandeira do partido: “trabalhador vota em trabalhador”.

No decorrer de 2014, cada um dos passos da Operação Lava Jato ganhou destaque na grande imprensa, sugerindo a promiscuidade entre as principais lideranças do partido e os executivos de um cartel de empresas da construção civil. Ainda assim, Dilma Rousseff se reelegeu com expressiva votação popular. Numa pesquisa de véspera, entre eleitores com renda de até 1 salário, Dilma tinha 69% dos votos válidos, entre 1 a 2 salários, tinha 59% e, entre 2 a 5 salários, tinha 50%.

Um mês após as eleições, os principais jornais do país estampavam em suas capas as fichas policiais dos executivos da construção civil presos numa das operações da Lava Jato. Talvez, esse tenha sido o primeiro passo da campanha pelo impeachment contra um governo que sequer tinha começado. Em 8 de março de 2015, pelas redes sociais, “ativistas virtuais” planejaram um panelaço durante um pronunciamento da presidenta, protestavam contra a corrupção. Um grande jornal paulista reconheceu que o panelaço não foi ouvido nos bairros pobres e periféricos da cidade de São Paulo; o PT continuava a ter apoio popular.

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Impulsionado pelas redes sociais, redes de televisão e redes de hipermercados, o movimento pelo impeachment ganhou as ruas e reuniu milhões de pessoas nos dias: 15 de março, 12 de abril, 16 de agosto e 13 de dezembro de 2015. Ali estavam presentes os militares, os entusiastas da Lava Jato, os líderes das igrejas neopentecostais e aquele que seria eleito presidente em 2018. Apesar do perfil predominantemente elitista e conservador dos manifestantes, ao analisar uma pesquisa de opinião, um colunista do maior jornal de São Paulo afirmou que as bandeiras defendidas pelo movimento eram extremamente progressistas, um resquício de 2013.

Em 17 de abril de 2016, a Câmara dos Deputados afastou a presidenta Dilma, antes de dar o seu voto, aquele que seria eleito presidente fez uma homenagem ao mais terrível torturador da ditadura. Na campanha eleitoral de 2018, o candidato militar, resquício do movimento pelo impeachment, tratou de identificar e nomear os grupos de status aos quais seus eleitores deveriam se opor: nordestinos, gays, negros e mulheres, privilegiados por políticas sociais petistas do “coitadismo”. Numa das últimas iniciativas para evitar a eleição do candidato militar, as mulheres foram às ruas defender o “EleNão”. Em seus comentários sobre as manifestações, aquele mesmo colunista do maior jornal de São Paulo ofereceu os elementos para a manchete: “Elite de esquerda era maioria em protesto”.
Pela primeira vez, em 8 eleições presidenciais, o PSDB e o PT não elegeram seus candidatos. Mesmo com Lula preso e silenciado, Haddad foi para o segundo turno. Em pesquisa de véspera, entre eleitores com renda de até 1 salário, Haddad tinha 59% dos votos válidos, entre 1 e 2 salários, tinha 43% e, entre 2 a 5 salários, tinha 34%. Ainda que ele tenha perdido nessas três faixas de renda para os números da reeleição de Dilma, os mais pobres continuaram elegendo um candidato do PT.

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A leitura dos textos de Florestan sobre as classes sociais na América Latina nos ajuda a compreender a dinâmica do capitalismo selvagem (e que falta nos faz o mestre). Confrontando as teorias de Weber e de Marx, como já tinha feito Faoro, o sociólogo aponta para uma estrutura social que impede a luta de classes. Semelhante ao que aconteceu na Shoah, a nova onda fascista também estimula o ódio a grupos que teriam privilégios políticos e sociais. O conflito entre grupos, especialmente, num período de crise econômica e de desemprego, mascara a luta de classes. De certo modo, o conflito entre grupos de status que tenham oportunidades de vida diferentes, mesmo que representantes desses grupos façam parte de uma mesma família, parece ser mais direto do que o conflito ou a luta de classes.

Paulo Fernandes Silveira (FE-USP e IEA-USP)

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1 comentário

  1. Resumindo, nem tudo é Luta de Classes. A dinâmica histórica é mais complexa, daí que não se consiga nada aplicando ao Brasil do século 21 esquematismos ideológicos da Europa da revolução industrial.

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