9 de junho de 2026

Mal-estar social e eleições, por Aldo Fornazieri

O governo não tem uma narrativa, não mobiliza afetos e paixões. Não aponta um caminho, uma perspectiva de futuro, um viver comum melhor.
Reprodução

Pesquisa Datafolha aponta empate técnico entre Flávio Bolsonaro (46%) e Lula (45%) no segundo turno presidencial.
Governos Lula 3 enfrentam críticas por falta de comando estratégico e resposta insuficiente a crises sociais e políticas.
Mal-estar social cresce com endividamento, corrupção, insegurança e ausência de narrativa mobilizadora do governo.

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Mal-estar social e eleições, por Aldo Fornazieri

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A última pesquisa Datafolha para o segundo turno, na qual Flávio Bolsonaro aparece com 46% e Lula com 45%, número que se repete se a eleição fosse disputada com Ronaldo Caiado ou com Romeu Zema, que aparecem com 42%, surpreendeu muita gente e semeou um sentimento de apreensão no governo e nos partidos governistas. Mas não surpreendeu os poucos analistas que vêm adotando um olhar crítico, chamando a atenção para a falta de comando e de sentido e a apatia política no terceiro mandato de Lula.

O governo adotou uma embocadura errada desde o início. Assumiu de forma desprevenida, sem aquela prontidão estratégica que se exige de quem têm o controle do poder político. Foi surpreendido pelo 8 de janeiro, o que revelou falta de prudência e de capacidade preditiva.

Na sequência, o governo e o campo político-partidário que o apoiam adotaram um rosário de renúncias de protagonismo político, terceirizando a luta pela democracia e contra o golpismo ao STF. Se negaram a impor uma derrota política ao bolsonarismo por tudo o que ele representava de mal nas várias oportunidades que ofereceu.

O defensivismo político, com repercussões graves na comunicação e na articulação política no Congresso, foi a marca desse governo e do agregado de centro-esquerda. Não dirigiram o bloco de aliança que se estendia ao centro. Deixaram se dirigir pelo centro.

Outro erro de embocadura consistiu em que o governo Lula 3 não assumiu como um governo novo e inovador, capaz de colocar em marcha projetos concernentes à inovação e a mudança. Colocou sua fantasia no passado, na repetição de fórmulas que já tinham dado adeus, pois a realidade dos fatos e o rumo dos ventos tinham mudado a realidade.

Entre os governos petistas do passado e 2023 aconteceu o aprofundamento da revolução tecnológica, a revolução digital e robótica, a uberização das relações de trabalho, informalização, novas leis e novas relações de trabalho, mudanças na composição e estratificação social, mudanças culturais, emergência da extrema-deita, fragmentação social… Em pouco tempo, o mundo, em suas coisas e relações humanas, tornou-se outro.

O governo Lula 3 nunca teve um comando político estratégico, um estado-maior dirigente, que fizesse uma gestão diária da política, dos riscos, das insuficiências, dos embates, da governança e das crises. A crise do PIX é o exemplo mais evidente dessa falha.

O governo e os partidos de sustentação não perceberam que, aos poucos, foi se instaurando um mal-estar social, produto de múltiplos fatores. O problema do endividamento das famílias é apenas um deles. O governo foi incapaz de percebê-lo a tempo. Só agora soou o alarme. O índice de endividamento é monitorado mensalmente e há meses ele vem alto. Quer dizer: o governo dormiu de toca.

A lista é longa: corrupção com as emendas, escândalos do Master e o INSS, penduricalhos e supersalários, endividamento com as bets, controle da inflação num patamar alto dos preços dos produtos e juros altos, feminicídios, violência, facções criminosas e crise na segurança pública, degradação ambiental e crise climática, secas e desastres naturais, alta tributação, falhas na saúde e no saneamento, tarifaço e guerras externas.

Embora o governo não esteja ligado a nenhum dos principais escândalos de corrupção, a falta de um posicionamento claro fez com que eles, de alguma forma, resvalassem para o seu colo. O governo e o PT, traumatizados psicologicamente, foram incapazes de assumir de forma assertiva a agenda republicana do combate à corrupção, aos penduricalhos e aos privilégios. Parte dessa agenda fica com a oposição, que apresenta diariamente Lula e o PT como corruptos.

O resultado desse conjunto de problemas produziu um ambiente de mal-estar social, caracterizado por angústias, insatisfações e sofrimentos generalizados. O desalento político, a desconfiança nas instituições, níveis elevados de ansiedades potencializam as sensações de degradação moral e social. Uma pesquisa do Datafolha captou esses sentimentos: 59% dos brasileiros se sentem tristes, 61% estão desanimados e 61% sentem medo em relação ao futuro. A pesquisa do IBGE com os adolescentes é aterradora: entre outros indicadores ruins, 22% dos jovens sentiram vontade de se machucar.

O problema das bets vai além do gasto e do endividamento. Vicia os jovens e cria uma saída desastrosa para os idosos de baixa renda. Irritabilidade, sentimentos de culpa, insônia, ansiedade, depressão e aumento do risco de suicídio são algumas consequências doentias que este crime legalizado proporciona.

Esse ambiente de mal-estar não será superado com a promessa de “picanha com cerveja”. Desde Aristóteles se sabe que a felicidade de uma Polis requer a combinação de bens materiais com bens espirituais; desde Maquiavel se sabe que o bom governo precisa combinar autoridade e liberdade e uma série de outros pares antinômicos e desde Gramsci se sabe que a hegemonia requer o atendimento das necessidades e direitos, combinado com uma sutura de natureza ideológica, ética, moral e cultural. Em outras palavras: o governo não tem uma narrativa, não mobiliza afetos e paixões. Não aponta um caminho, uma perspectiva de futuro, um viver comum melhor.

A sociedade está perplexa, desorientada e se sente abandonada. O governo não a ajuda a  vislumbrar uma esperança, um caminho de superação. Esta omissão, esta ausência de caminhos, alimenta a ousadia crescente da oposição. Reclamar que ela mente e semeia o ódio, chega a ser ridículo. Ela faz isso desde sempre. A pergunta que cabe fazer é: qual a estratégia das esquerdas para rebater esses ataques? A esquerda não pode ficar choramingando, dizendo “mamãe, o Flavinho roubou me pirulito”.

Mais grave que os números das pesquisas eleitorais são os números da avaliação do governo: a avaliação negativa vem consistentemente superando a avaliação positiva. No último Datafolha, 40% consideram o governo ruim ou péssimo, contra 29% que o consideram bom e ótimo.

Em 2023 e 2024, embora a avaliação negativa tivesse números relativamente altos, ela não superava a avaliação positiva. A virada ocorreu no início de 2025 e de lá para cá a avaliação negativa se manteve mais alta do que a positiva. Nada de significativo foi feito para reverter essa tendência. Tendência que indica que a sociedade quer mudar.

O governo ainda tem tempo, tem meios, ativos, máquina e recursos para mudar esse jogo a seu favor. Os problemas estão na ausência de comando e de capacidade e na construção de um projeto com uma narrativa e um discurso persuasivos e mobilizadores. Por enquanto, não surgiram sinais que indiquem a capacidade de se fazer um bom diagnóstico e a vontade de triunfar.

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política e autor de Liderança e Poder.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Aldo Fornazieri

Cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política.

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2 Comentários
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  1. Eduardo Pereira

    13 de abril de 2026 9:22 am

    Sem sacanagem, o autor parece engenheiro de obra pronta ou profeta do passado. Faltou um monte de elementos , tipo a falta de bancada no pior Congresso da nossa História.
    Outra confusão e chmar de governo o que esta na conta exclusivamente do PT. A burocracia tipo Gleise e Zeca Dirceu parecem âncoras. Seguram o partido.
    E não vejo o desespero nas ruas mas enxergo de longe manipulação da Informação. Isso ta na conta do PT.
    O timming da burocracia que dirige o partido e o pior de todos. querem agora fazer as comparações que deviam ser feitas na largada do Mandato.
    Ainda acho que ganhamos mas a militância que sobrou tem que cair dentro, esquecer os burocratas e trabalhar pra eleger alem do Lula um Congresso que não seja sabotador

  2. NELSON VIANA DOS SANTOS

    14 de abril de 2026 7:22 am

    A análise do Aldo é perfeita. Os problemas apontados são conhecidos desde o início do governo: viagens e mais viagens ao exterior quando o correto seria se concentrar na política interna como prioridade; a péssima comunicação (dizem que Lula sequer utiliza um celular) e que parece não ter melhorado com Sidônio; o absurdo da fila para aposentadorias no INSS, somente agora fala-se em fazer concurso para preencher os claros na autarquia; a corrupção gigantesca no mesmo INSS; a apatia e talvez uma dose de arrogância em pensar que somente a imagem e o discurso serão suficientes para vencer as eleições; um partido, o PT, envelhecido de quadros e de ideias para enfrentar a nova realidade descrita pelo Aldo, com lideranças acomodadas há muito tempo. O desconto: a terra arrasada deixada pelo genocida amigo do vírus da covid, mas isso não justifica os erros e a letargia. Estamos preocupados. Se o outro campo vencer, será a destruição do país. E será uma destruição rápida. E que nenhum ingênuo espere algo do poder Judiciário (!!!) e de manifestações de poucos nas ruas. O jogo é jogado mas o cenário não é bom.

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