Marina tem sido uma boa isca para a pesca de neoliberais, por J. Carlos de Assis

Pescar com anzol é muito simples: ponha a isca de maneira correta e o peixe logo se deixará fisgar. A grande contribuição que Marina Silva está dando ao processo político brasileiro é o de uma isca desenhada para pescar neoliberais. Diante da tragédia econômica e social em curso na Europa, nossos neoliberais – filiados à doutrina do Estado mínimo, da autorregulação dos mercados, da privatização a qualquer custo, do banco central independente – estavam escondidos no fundo do poço, chocados também eles com o desastre do neoliberalismo europeu. Com a subida de Marina nas pesquisas, tomaram confiança e ressuscitaram.

Agora que baixou o espírito do bom senso na maior parte da população brasileira, e recuperamos certa tranquilidade em termos de perspectivas, vemos que o bom trabalho de Marina, como isca, funcionou: temos hoje exposto com toda a clareza de detalhes o programa que a classe dominante tem para o Brasil. Nunca na história deste país a direita foi tão explícita. A perspectiva de chegada ao poder subiu na cabeça dos Armínio Fraga, dos André Lara Resende, dos Giambiagi, ao ponto de baixarem a guarda e revelarem propósitos que em geral ficam estrategicamente escondidos na campanha para serem executados na prática.

Em sua posição de isca inconsciente para fazer aflorarem os neoliberais, Marina, tendo diante de si tantos problemas concretos da realidade brasileira, escolheu como eixo de sua campanha justamente um tema tão abstrato e controverso como o do banco central independente. Nisso há um misto de desconhecimento do assunto e de ingenuidade, somado a uma boa dose de confiança na vitória: a vitória justifica tudo. Mas ao abrir a discussão, Marina forçou que seus acólitos viessem a público para defenderem a tese com argumentos técnicos, o que expôs à luz do dia o propósito de tirar do Governo eleito a responsabilidade por moeda e juros e entregá-la aos banqueiros.

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Mais reveladora ainda é a história do tripé macroeconômico: metas de inflação, superávit primário e câmbio flutuante. Marina trouxe ao debate esse lado altamente controverso da política econômica dos governos do PT, não para criticá-lo, porém, mas para exaltá-lo e incluí-lo em seu programa. E para esticá-lo ao limite. Por exemplo, sua política de câmbio absolutamente livre, defendido por seus assessores, acabaria por destruir de vez o sistema industrial interno, algo que passou a ser defendido explicictamente por assessores econômicos não só dela, mas também de Aécio como mecanismo para fortalecer a competitividade externa da indústria – ou seja, de uma indústria que vier a sobreviver a uma concorrência predatória dos países desenvolvidos.

Também em relação ao superávit primário a indiscrição de Marina fez com que seus assessores defendessem publicamente uma meta mais ambiciosa para ele, o que corresponde a um aperto adicional numa economia já em virtual estagnação. Aqui, mais uma vez, a doutrina explicitada é péssima economia: até os jornalistas da Globo, nos últimos debates, entenderam que uma economia estagnada não pode ser submetida a um receituário adicional de aperto. E basta ver a relação dívida/PIB para se concluir que temos folga macroeconômica suficiente não só para reduzir o superávit primário, mas até para convertê-lo em déficit.

Entretanto, é em relação à política externa que os peixes grandes do retrocesso acabaram fisgados na isca lançada por Marina. Num artigo anunciatório, “Nova política externa”, o presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp, Rubens Barbosa, ao lado de platitudes, vai direto ao que interessa: o Brasil no governo Marina deve ultimar o acordo do livre comércio com a União Europeia, mesmo que isso signifique romper com o Mercosul. Esse mantra é típico dos neoliberais, que há muito esperam o momento exato para dar o bote final na entrega de nossa manufatura no altar do livre-cambismo. Não é estranho que isso venha de um ex-embaixador, não de um verdadeiro industrial, que pode calcular exatamente o que significa concorrer em mercado livre com a Europa em virtual deflação.

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J. Carlos de Assis – Economista, doutor pela Coppe/UFRJ, professor de Economia Internacional da Paraíba.

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22 comentários

    • É verdade. A família Setubal

      É verdade. A família Setubal entrou em êxtase com a possibilidade de sua protegida vir a ser presidente do Brasil. Nesse caso o Itaú seria uma expécie de “Banco de sua Majestade”. E o BC um anexo. E tem gente que acha isso ok. Impressionante

    • Com certeza uma das dicas

      Com certeza uma das dicas “não remuneradas” (agora) do publicitário e doublê de cineasta, Meireles, foi exatamente essa, caro Athos. Manter a Neca na gaveta.

      “Marina, a Neca nos ajudou a ter o apoio da elite. Tiramos voto do Aécio. Mas para o povão, esse papo de que uma Setubal é educadora e não dono do Itaú não cola.” Eu teria dito isso. Mas cobrava, porque não sou publicitário dos Jardins

      • Neca

        Coisa de simpatizante político partidário iconizar a Neca. Por acaso já contaram quantas Necas tem o governo?

  1. Claro e cristalinoMarina

    Claro e cristalino

    Marina desnudou o jogo que antes era escondido. Neste sentido ela foi de suma importância para o PT e as esquerdas que não conseguiram desmistificar frente à opinião pública as mentiras e eufemismos da direita representada pelo PSDB

    O próprio Jabor que entende de direita já tinha alertado:

    “Toda nudez será castigada”

  2. Eu não sei o que é pior

    Se é o falso socialista ou falso comunista (não tem coragem para tanto, pois, por exemplo, gosta da propriedade privada exatamente como ela está hoje em dia no país, só para ficar no início da conversa) que demoniza a figura do liberal ou neoliberal ou do falso liberal ou neoliberal (tampouco merece, a rigor, a classificação, pois liberais tendem a ser democráticos e respeitam os direitos das minorias, os direitos humanos, sem o conservadorismo tosco de clase tipicamente brasileiro) que demoniza o socialista ou comunista com críticas extremamente reacionárias, conservadoras.

    Por isso que, no Brasil, aquele que se auto-declara socialista ou comunista tende a ser, na verdade, um social-democrata de centro e aquele que se declara liberal ou neoliberal tende a ser de centro-direita, quando não de direita mesmo. Esquerda e direita no Brasil são conceitos que, a rigor, quase ninguém do cenério político-institucional segue individualmente. A esquerda e a direita brasileiras não seguem princípios rigorosos. Todo mundo é o que for preciso ser em nome de uma “governabilidade” pouco transparente.

    Esse texto mesmo é um bom exemplo disso. Tirando os motivos pessoalmente interessados para escrever o que escreveu, é muito difícil levar a sério um texto que defende a falsa ideia de que não existe neoliberalismo no governo do PT ou que o governo do PT não emplacou políticas essencialmente desestatizantes.

    A mim soa suficientemente infantil querer debater ideias políticas a sério recorrendo à estratégia de demonizar as pessoas que sejam “neoliberais”, como se quem ele defende não tivesse a sua dose de neoliberalismo ou como se ser neoliberal fosse sinônimo de “conservadorismo”, a palavra mais estuprada do vernáculo pela esquerda governista, a exemplo do que fazem com “fascismo”.

    • ” liberais tendem a ser

      ” liberais tendem a ser democráticos e respeitam os direitos das minorias, os direitos humanos, sem o conservadorismo tosco de clase tipicamente brasileiro”

      Que maravilha de comentário, precisa estudar urgentemente a história do Liberalismo.

      E escreve-se “classe”, tá?É por isso que você não passa nem em concurso de nível médio!

    • Argolo, viste aquele post em

      Argolo, viste aquele post em que o Nassif diz que agora para o Globo, “neoliberlismo” é palavrão? Não é, desde que se assuma por inteiro. O J C Assis não demoniza, ele atribui às coisas, os nomes que elas tem. E assume lado. Sem subterfúgio.

      Traduza seu conentário do “marinês” para o portugues corrente, para que se possa debater

      • Assume lado mentindo e demonizando

        O autor do post é um liberal burguês também, com pitadas de social-democrata. Nada além disso. Gosta e defende a propriedade privada, provavelmente os direitos humanos, essencialmente sustentados, isso em termos históricos, na abstenção do Estado na seara privada. O outro lado da moeda é a promoção dos direitos humanos por parte do Estado. Abster-se e promover os direitos humanos. Isso é a base do liberalismo.

        O liberalismo econômico é sustentado, basicamente, no princípio da propriedade privada e na auto-determinação do indivíduo (liberdade individual, de se auto-determinar em sua vida).

        O autor do post nem de longe se posiciona contra isso. Na verdade, ele usa o termo neoliberalismo ligando-o a políticas bastante específicas de corte em gastos sociais, desemprego, governo intencionalmente voltado para os interesses dos donos do capital etc. É uma leitura política, na linha patrimonialista clássica, não necessariamente derivada da ideia de neoliberalismo. A discussão é mais complexa do que isso, evidentemente.

        O Estado também é capturado por interesses privados, mesmo quando a política não é a mais neoliberal possível. E o melhor exemplo do mundo é justamente o Brasil, que sempre fez tudo isso sem precisar ser neoliberal. As elites brasileiras sempre usaram e abusaram do Estado neste país. Não é preciso diminuir o Estado para que isso aconteça. Ao contrário. Por vezes, o maior tamanho do Estado atende diretamente os interesses da elite que domina o poder político e econômico.

        Defender menos Estado, mais liberdade, menos burocracia, mais agilidade na administração pública, etc, com responsabilidade e visando o bem-comum, é, além de possível, algo positivo.

        O que não pode ser tolerado é usar os recursos públicos para investir no social sem um projeto de desenvolvimento que tenha em mente se libertar desse ciclo paternalista, tudo em nome de uma manutenção do poder. É o governo atendendo às demandas sociais subdesenvolvidas, sem maiores desdobramentos em termos de desenvolvimento, pois, a partir disso, se sabe que o retorno eleitoral é garantido. Tudo isso com interesses pessoais muito pouco transparentes, entenda-se, existe uma abertura para o locupletamento pessoal, o enriquecimento ilícito mesquinho nesse tipo de  pensamento, que se traduz em mera estratégia de manter-se no poder, sem um compromisso maior com o desenvolvimento econômico e social do país.

        Enquanto estiver garantindo o comando do poder, está valendo, nem que seja comprometendo o projeto maior, que é desenvolver o país, dando um salto de qualidade.

  3. E eu digo cá no meu

    E eu digo cá no meu cantinho… fala mais Malafaia, fala mais Giannetti, falem mais Bornhausens,  fala mais Marina… vamos exterminar essa raça de petistas pestilentos, vamos apear a Búlgara Escarlate e o Mephysto de Garanhuns do Planalto.

    A certeza da vitória foi tanta, quando a “providência divina” operou aquele milagre no jatinho que até hoje desconhecemos o dono e a razão de ser, que ela e eles agora estão nus e no cerrado, pouco vai adiantar tentar dizer que mudou-se a roupagem, as máscaras caíram, todas elas.

  4. Inocente

    Santa inocência a minha. Imaginava que a palavra “neoliberal” já estava em desuso. Acreditava que hoje é tudo um saco de gatos só. Via  que há  tão somente capitalistas e capitalistas. Por exemplo, considerava o Brasil um pais capitalista , cujo governo , numa luta inglória, mata um leão por dia para impor sua política de Estado social.

    Fiquei na dúvida , o que somos ?

    • Pergunte para o trabalhador

      Pergunte para o trabalhador grego, espanhol e o português se o neoliberalismo está “em desuso”. E depois saia correndo.

      PS: No instituto FHC está em desuso, sim. Mas o próprio FHC em pessoa está em desuso. Só o pig o usa, e vice-versa.

  5. Malafaia, Feliciano,

    Malafaia, Feliciano, Bornhausen, Heráclito, Armínio, Lara Resende, Serra, Alckimin, Jarbas Vasconcelos, Roberto Freire, FHC, Cantanhede, Globo, Frias, Civita, Jabor, Fernando Meirelles ( que escreve Brazil, em vez de Brasil ), Neca, banco Itau, Giannetti, Beto Albuquerque ( votou contra o marco da internet ), pastor Everaldo, Eduardo Cunha, Carlos Sampaio, Paulinho da Força Sindical, Jair Bolsonaro, Merval, Noblat, Dora Kramer, Claudio Humberto, Reinaldo Azevedo, Bonner, Miriam Leitão, Sherazade, Kamel, família Marinho, TODOS COM A SANTINHA DO PAU OCO, A MAIOR MENTIROSA DO PLANETA, FALSA, DISSIMULADA, OPORTUNISTA.

    Vamos ver o tamanho da força da mídia golpista e da estupidez do eleitor brasileiro no resultado dessas eleições.

    Espero que 50,1 % dos votos válidos sejam de bom senso.

     

     

  6. Só neoliberais?

    Caro Assis, já pescou, e muito, da classe média que se baseia em manchetes de revistas e telejornais guiados. Há uma classe média que tem ódio gratuito do PT e é incapaz de buscar informações sobre as melhorias experimentadas pelo país, ainda mais no que toca àqueles que a ela ascenderam. Eu, de teimoso, ainda tento argumentar com alguns, mas a única argumentação é que o PT é um bando de ladrões. E olha que eu estou em Minas onde o governador baladeiro não é flor que se cheire (ôpa).

  7. ironicamente os

    ironicamente os conservadores

    jabor e nelson rodrigues

    com esse título “Toda Nudez srá castigada”

    ajudaram a desmistificar a farsa da marina silva.

    a fadinha está nua em praça pública.

    espero que não vire aquela personagem huguiana

    – esmeralda? –

    do corcunda de notre dame.

    desnudada essa política suicida do neonliberalismo marinesco,  

    resta a escolha no dia 5…

    é dilma ou o caos prenunciado por marina.

     

     

     

  8. marina e os bancos

    Não entendo nada de economia assim como grande parte do povo brasileiro. Faço parte daqueles que somente sentem seus efeitos maléficos ou benéficos de acordo com o uso que o governo faz dela. Apesar de leiga consigo perceber que prefiro que todos tenham emprego, já que diferente da marina não temos quem nos sustente. Vivemos de salário do qual precisamos para comer, comprar roupas, calçados, pagar a escola das crianças, os convênios, água e luz e dezenas de outros gastos. Esses que mencionei há pouco são os gastos dos privilegiados dentre os quais me incluo. Mas existem aqueles que pagam aluguel e compram comida e se não houver salário de um momento para outro podem tornar-se sem teto e mendigar comida. Para esses marina e seus amigos neoliberais não dão à mínima, assim como FHC em seus melhores anos. São apenas efeito colateral de um entreguismo absolutamente abjeto. Incompreensível tudo isso se torna sabedores que somos das origens da candidata que se fez tão amiga de banqueiros. Podemos apenas contar com a sensatez do nosso povo em perceber o  quanto isso poderá afetá-los. Se dermos uma boa olhada nas pesquisas perceberemos que os que apoiam marina não têm em sua maioria obrigação de por comida na mesa. São jovens cujos pais os sustentam. Ao olharmos os que votam em Dilma percebemos que são pessoas adultas com obrigações e memória de sofrimento recente advindo das políticas implementadas para os mercados. Tomara consigamos no dia 05 próximo, 50% +1 das pessoas com juízo desse país e essa apavorante realidade que marina teima em trazer de volta só seja ventilada novamente dentro de 4 anos.    

  9. Dúvidas?

    Se alguém tem dúvidas sobre quem é quem, sugiro utilizar a fórmula enunciada há 2 mil anos atrás por um cidadão que acabou pregado numa cruz por incomodar os poderosos, entre os quais a cúpula da casta religiosa:  “Pelos frutos os conhecereis.”  Simples, claro e eficiente.

  10. + comentários

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