Matriz de Insumo-Produto e Fluxos de Pagamentos, por Fernando Nogueira da Costa

A atual conjuntura está se apresentando como um “laboratório experimental ao vivo” para cientistas sociais. Oferece diversos exemplos reveladores dessa relação entre insumos e produtos, entrelaçando as cadeias produtivas, comerciais e financeiras.

Matriz de Insumo-Produto e Fluxos de Pagamentos

por Fernando Nogueira da Costa

Uma Matriz de Insumo-Produto proporciona uma visão detalhada da estrutura produtiva. Permite avaliar o grau de interligação setorial da economia. Mensura os impactos de variações na demanda final dos produtos mediante a identificação dos diversos fluxos de produção de bens e serviços. Considera tanto o impacto direto da demanda final quanto o indireto na demanda intermediária.

Além das cadeias produtivas de valor, há cadeias comerciais e financeiras em um sistema complexo como o capitalista com múltiplos componentes interativos. Para realizar uma análise holista desse Todo, necessitamos perceber como essas interconexões geram processos de retroalimentação, expansão e contração.

A atual conjuntura está se apresentando como um “laboratório experimental ao vivo” para cientistas sociais. Oferece diversos exemplos reveladores dessa relação entre insumos e produtos, entrelaçando as cadeias produtivas, comerciais e financeiras.

Uma semana após a sexta-feira 13 (início da quarentena), o petróleo Brent para maio fechou cotado a US$ 26,98. Ocorreu uma queda brutal a partir do preço no fim de 2019: US$ 65,85. Esse cenário de crise agravou-se pela pandemia da covid-19 e pela disputa de mercado entre Arábia Saudita e Rússia.

A Petrobras perdeu mais da metade do seu valor de mercado, caindo para R$ 174,5 bilhões. Recorreu a desembolso de US$ 8 bilhões em linhas de crédito compromissadas para reforçar o seu fluxo de caixa. Avalia tomar medidas extras como a redução adicional de custos e otimizações de seu capital de giro.

No mercado internacional, gigantes do setor como ExxonMobil, Total, Equinor e BP sinalizam para cortes de gastos em investimentos. Os gastos globais da indústria de óleo e gás podem cair mais de 25% em 2020. Nas Américas, o Brasil é um dos países mais preparados para enfrentar a crise por causa dos custos mais baixos do pré-sal face aos do Canadá, Estados Unidos, Venezuela e México. Mas cerca de 74% da produção brasileira opera com “breakeven” (preço de equilíbrio econômico) de US$ 35 o barril.

Detonou um alerta contra o programa de privatização de refinarias da Petrobras. As grandes empresas integradas do setor demonstraram resistência, nas últimas baixas do petróleo, quando tinham controle de capital e presença no refino. Ajuda a reduzir os impactos na exploração e produção. Para companhias atuantes apenas em exploração e produção, a expectativa é a de revisão das notas por agências de avaliação de risco.

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Os aeroportos, além de sofrerem queda brusca de passageiros, deverão enfrentar atrasos nos pagamentos. As tarifas de embarque representam ao menos 50% do faturamento das concessões. Elas são cobradas pelas companhias aéreas. Esse repasse não é imediato. Normalmente, já existe uma demora de cerca de 30 dias. Com a crise das empresas, o atraso tende a aumentar. As medidas de apoio a companhias aéreas e aeroportos face ao cancelamento de receita tem sido basicamente cosmético: adiamento de pagamentos de tarifas, reembolsos e outorgas.

A crise provocada pelo coronavírus já começou a provocar gargalos no transporte de carga no Brasil. Há dificuldade de caminhões para atravessarem fronteiras internacionais e entre alguns Estados. Além disso, quando chegaram para entregar produtos a lojas, elas foram encontradas fechadas. Se, com o agravamento da epidemia, medidas de restrição passarem a impedir entregas, levarão a um desabastecimento.

Produtores de celulose e papel enviaram ofícios a todos os governadores e ministros, avisando sobre o risco de medidas de restrição interromperem o fornecimento de produtos essenciais. Produtores de cloro, soda cáustica e potassa cáustica também estão empenhados em manter os níveis de operação, mas há o risco de interrupção no acesso a insumos. Usado na desinfecção da água e de ambientes domésticos e hospitalares, o cloro também é insumo para medicamentos e defensivos agrícolas.

A Associação Brasileira do Papelão Ondulado (ABPO) alerta para o risco de fábricas de embalagens não serem tratadas como exceção nas regras editadas pelo poder público para coibir o avanço da covid-19. Teriam de interromper suas operações. As vendas de embalagens para alimentos, medicamentos, higiene e limpeza, representam entre 70% e 80% das expedições. É necessário, por exemplo, garantir o abastecimento de embalagens e celulose tipo fluff, usada em fraldas descartáveis e colchões de hospitais.

Grandes varejistas, shoppings e lojistas menores precisam chegar a um acordo de modo a impedir uma quebradeira dos negócios. Uma das ações pode incluir zerar o aluguel de lojistas, enquanto os shoppings estiverem fechados, e cobrar o de março pro rata. As negociações não poderão ser individuais de cada lojista com seu empreendimento.

O setor de shoppings perderá R$ 15 bilhões por mês em vendas, se todos os quase 580 empreendimentos no país ficarem fechados. A projeção considera uma venda média anual dos shoppings de R$ 180 bilhões. O prejuízo será bem maior se forem consideradas as lojas de rua. Segundo dados da FecomercioSP, só no Estado de São Paulo o varejo fatura mensalmente R$ 38,5 bilhões, excluindo supermercados e farmácias. Esses ficaram de fora das restrições para conter o avanço do coronavírus.

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Lojistas pagam aluguel percentual aos empreendimentos em cima da venda mensal. Mais de 80% da receita dos shoppings vem dos aluguéis. Sem venda, não tem aluguel, nem receita. Serão necessárias mudanças nos contratos. Recomenda-se às varejistas dar férias aos funcionários, conceder licença remunerada e buscar acordos de redução jornada e salário.

Respostas rápidas à pandemia, em escritórios de serviços, estão relacionadas às campanhas de conscientização, disponibilização de álcool gel, substituição de reuniões presenciais por remotas, quarentena para quem viajou para o exterior e cancelamento de eventos corporativos. Já a adoção do home office está sendo mais lenta. Boa parte das empresas não possui ferramentas para todos ficarem fora do escritório e outra parcela não faz isso por conta da cultura organizacional.

O trabalho remoto não é uma alternativa escalável para a maioria dos funcionários da área de atendimento dos call centers. O acesso remoto está sendo concedido para o contingente prioritário, formado por quem trabalha nas áreas administrativas e/ou está no grupo de risco: cerca de 8% do total de funcionários têm mais de 60 anos. A maioria dos trabalhadores no call center são jovens de 18 a 30 anos sem poder aquisitivo alto. Não dá para botar computador na casa de todos, muitas vezes sem energia, conta luz ou banda-larga paga. É inútil levar um aparelho de 3G onde às vezes nem há sinal.

Entre as ações recomendadas estão: férias para funcionários com mais de 60 anos, medição de febre na entrada dos escritórios, readequação do layout, instalação de papel toalha nos banheiros, reforço na higienização e kit álcool em gel. Eles atendem milhares de ligações por dia referentes a dúvidas em planos de saúde. Esses serviços essenciais não podem parar.

A expectativa de um longo período de confinamento provocado pelo novo coronavírus vai acelerar mudanças estruturais no mercado de trabalho, como a adoção mais frequente de home office pelas empresas e a automação de funções consideradas repetitivas, como atendentes e caixas. O home office poderá ajudar as empresas a reduzir seus custos fixos, como espaço de escritório. Mas exigirá maior inserção de tecnologia na rotina dos funcionários e dependerá de sua capacidade de adaptação ou entrega. Será preciso saber usar plataformas digitais de trabalho em equipe.

Um professor ministra aula presencial para até 50 alunos. Um professor virtual pode ter milhares de pessoas em uma sala de aula on-line. Menos docentes serão necessários para realizar a mesma quantidade de trabalho. A dúvida é se a educação com excelência não exige o estímulo mental encontrado em aulas presenciais. Se não houver empregos alternativos, mesmo os trabalhadores qualificados poderão sofrer com o desemprego.

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Mais da metade dos empregos formais e informais no Brasil (58,1% do total) pode ser substituída por máquinas nos próximos dez a 20 anos, o equivalente a 52,1 milhões de postos de trabalho. Esse é o percentual dos empregos classificados na faixa de “risco alto” (acima de 70%) de serem automatizados ou robotizados. A crise talvez produza mais flexibilidades em horários de trabalhos, mudando “a cultura de sincronismo”.

Não dá para saber se as medidas fiscais anunciadas por governos são suficientes porque ainda não se conhece a amplitude dos estragos. A força dos fatos imporá respostas pela Moderna Teoria Monetária (NMT). Em situação de imensa capacidade ociosa e inflação praticamente zerada, os bancos centrais têm margem para injetar liquidez diretamente no setor privado, equivalente a alguns pontos percentuais do PIB do país.

O covid-19 impede os agentes econômicos de continuar suas atividades pelo lado da oferta e da demanda. O choque temporário resulta em perda de renda para as famílias e de “cash-flow” para as empresas. Esses diminuem ou cessam seus pagamentos. Isso costuma resultar em expansão da demanda de capital de giro – e, pela perda, contração da oferta do crédito. O Efeito Dominó de redução da velocidade de circulação da moeda poderá provocar em deflação. As perdas deverão ser compensadas com injeção de cash. Caso contrário, as empresas quebrarão e a economia sofrerá imensa contração. Uma crise significa saber exatamente onde se quer chegar para construir uma oportunidade.

Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Capital e Dívida: Dinâmica do Sistema” (2020; download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected]

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