13 de junho de 2026

O agronegócio brasileiro e a formação líquida de capital, por Luiz Alberto Melchert

A tecnificação da lavoura requer maquinário e infraestrutura que pode exceder a expectativa de receita. Se for terra arrendada, piora.
iStockphoto - Reprodução

O agronegócio brasileiro depende de capital intensivo e crédito das tradings, comprometendo a autonomia dos produtores.
A formação líquida de capital no setor tende a ser baixa ou negativa, dificultando a reposição de maquinário e infraestrutura.
Excedentes e investimentos são apropriados por tradings e mercado financeiro, enquanto produtores enfrentam riscos e pouca margem.

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O agronegócio brasileiro e a formação líquida de capital

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por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Como tradicionalmente exportadora, a economia brasileira teve períodos de maior e menor contribuição do agronegócio para o desenvolvimento do país. A economia do açúcar, que permeia nossa história desde o descobrimento, sempre dependeu de plantas de processamento, pois nunca se exportou a cana, somente o açúcar. Um engenho, nos primórdios, custava tanto quanto uma caravela que, de tão cara, só era acessível ao Estado. Era uma economia em que os investimentos no próprio setor, seja pela expensão, seja pela reposição, consumiam recursos num montante que incapacitava os canavieiros de investir massivamente em outros setores.

O café, ao contrário, não exigia grandes investimentos em processamento. Na verdade, ele podia ser vendido com benefício mínimo, quando não sem benefício algum, ou em coco. Era monetização imediata, mesmo que cafeicultores chegassem a comprometer três safras à frente em troca de bens de consumo importados. Somando-se isso à prática de meação, que substituiu o trabalho escravo, os cafeicultores puderam vir para a cidade e investir o excedente em outras atividades, mormente no serviço urbano, no que a família Prado é o melhor exemplo.

Pode-se dizer que houve e alguma formação bruta de capital, que permitiu adquirir bondes, material ferroviário e mesmo usinas termoelétricas. É bem verdade que os investimentos não se sustentaram e passaram às mãos de investidores estrangeiros, mas isso é tema para outra matéria.

Para fins deste texto, entenda-se a formação bruta de capital como a parcela do trabalho no período X, que se cristalizou em bens de capital no período X+1, ou seja, é a parcela do resultado que, em vez de ser consumida, transforma-se em tratores, galpões, cercas e estradas com a finalidade de produzir mais nas safras vindouras. Ocorre que tratores se desgastam, cercas arrebentam e estradas ficam esburacadas, tudo requerendo manutenção, quando não reposição por algo mais moderno e mais produtivo. Podemos chamar a decisão por investir o excedente de formação bruta de capital, enquanto o desgaste e a reposição necessária, de depreciação. Assim, a subtração da segunda resulta na formação líquida de capital. Será que o agronegócio do século XXI contribui para a formação líquida de capital, ou, ao contrário, está freando o desenvolvimento?

A ideia de avanço tecnológico da produção de commodities foi traduzida, mercadologicamente pela Globo, como “o agro é pop”, frase tão vazia de sentido quanto de concretude. Se existe algo que o agronegócio baseado em commodities não é, é ser popular. Ele depende de capital intensivo, seja em maquinário, seja em insumos, o que está muito longe do alcance da pessoa comum. A exemplo do que faziam os cafeicultores, comprometendo suas safras em troca de bens, os agricultores de hoje comprometem uma quantidade de produto perante as tradings em troca de insumos na esperança de a produção excedente poder ter a arbitragem de acordo com seus interesses.

Imaginemos que um produtor de soja calcule que, para produzir 60 sc/ha, gaste 40 sc/ha. Ele pode pedir um adiantamento em insumos à trading que, naturalmente, além de obter melhores preços para a mercadoria, cobrará um prêmio de – digamos – 3 sc/ha. O produtor fica na expectativa de conseguir um resultado de 17 sc/ha. Na verdade, a trading repassa a dívida do produtor para o mercado financeiro, que fica com o prêmio. Resumindo, a trading capta o recuso no mercado financeiro, repassa insumos ao produtor, que arca, inclusive com o custo financeiro da operação.

Na safra, marotamente, a trading não aceita que o excedente entre no seu silo com nota de armazenamento, obrigando o produtor a emitir nota de venda pelo valor de pauta, que foi usado para a concessão do crédito. Esse valor só monetizado quando o produtor autoriza a entrega a terceiros, ou seja, o produtor perde o poder de arbitragem, pois a soja já não lhe pertence.

Sobre o período de vínculo comercial, pois não se pode chamar isso de armazenagem, incidem perda técnica e custo de prestação de serviço, minguando a margem.

Tudo o que aqui se descreve pode ser estendido para todos os itens que possam ser negociados em bolsa, aqui ou no exterior, passando pela soja e pelo milho, chegando ao gado de corte e ao suco de laranja.

Ocorre que a tecnificação da lavoura requer maquinário e infraestrutura que, muitas vezes, excede a expectativa de receita. Se for terra arrendada, a coisa fica ainda mais grave. Se ele terceirizar as atividades de plantio, cultivo e colheita, não sobra nada, sendo preferível arrendar a terra. Assim, sem crédito subsidiado pelo Estado, o maquinário dificilmente será reposto, ou seja, a formação líquida de capital tende a empatar, quando não ser negativa. Então, quem fica com a cristalização do excedente? Tudo indica que são as tradings e o mercado financeiro. “No agronegócio contemporâneo, a apropriação do excedente tende a ocorrer em dois polos objetivos da atividade: à montante, por meio do fornecimento de insumos, e à jusante, por meio da armazenagem e da logística. Ao produtor permanece a etapa central do processo, justamente aquela em que se concentram os riscos climáticos, sanitários e operacionais.”

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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