10 de junho de 2026

Mercado é feito de pessoas, se as pessoas não são perfeitas o mercado não pode sê-lo

Só é possível a venda de um título podre, o conto do vigário de poderosos do sistema financeiro, quando há assimetria de informação.
Lorenzo Quinn - Shutterstock

Mercado não é autorregulado devido à imperfeição humana e assimetria de informação, diz documentário da Netflix.
Alta do diesel afeta transportadoras e indústria, causando crises e especulações sobre preços pela Petrobras.
Métodos como o de Pugh ajudam decisões complexas, mas falhas humanas e interesses influenciam mídia e mercado.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Sabedoria da Netflix: Mercado é feito de pessoas, se as pessoas não são perfeitas o mercado não pode sê-lo.

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por Luís Antônio Waack Bambace e Vicente Cioffi

A frase do título vem do documentário sobre a Game Stop e reforça as inúmeras provas de que o mercado regular algo é raridade. A teoria capitalista diz que o mercado pode ser autorregulado se todos tiverem informação perfeita, e assim não pode haver assimetria de informação, nem uso de poder para impor ganhos acima dos ideais. Esta regulação poderia nestas condições levar a alocação ideal de recursos, como seus teóricos chamaram a distribuição de recursos que geraria o maior bem estar possível a sociedade. A dúvida era em que prazo. Pois o máximo benefício a curto prazo, distribuir bens de consumo em exagero sem se preocupar com mais produção, não garantia bens a todos se a população crescesse. Quando o poder absoluto era do rei, e os burgueses não controlavam o mercado. Numa ditadura, como a Stalinista, a situação era similar a da concentração de poder nas mãos dos reis, quando o legislativo e judiciário, estavam na mão de vassalos deste. Situação rompida por duas vezes, uma com Nikita Khrushchev, outra com Mikhail Gorbatchov, via alguma democratização. Fosse um Stalinista o chefe russo na Crise dos Mísseis de Cuba, será que estaríamos aqui?

Curto prazo e longo prazo, sempre um dilema. Alguém da associação das transportadoras pela manhã disse que 35% do custo do frete é o diesel. Transportadoras levam de tudo, tem contratos para levar carros da Volkswagen, sobe o diesel e não sobe o frete e elas quebram. Se a Volkswagen for esperta o suficiente para ajustar o contrato, será que outras empresas o serão? Sobe o diesel, transportadoras quebram, e a Petrobras ganha muito agora e fica sem freguês no futuro. Um pequeno industrial conhecido recusou um contrato de trefilar material da Ford na década de 1979, seu argumento: “Meu maior patrimônio é minha carteira de fregueses, mesmo ganhando mais agora, o suficiente para pagar multas de contrato, se eu perder o freguês não compensa, afinal eles são uma renda perene”. Tudo que é monopólio estratégico, afeta toda a economia. Há problemas de atraso de colheita da safra de arroz gaúcha por falta de diesel, e há acusações de retenção especulativa a espera de aumento do preço dele por parte da Petrobras.

Crises como a de 2008, nunca aconteceriam se o mercado fosse autorregulado. Só é possível a venda de um título podre, o conto do vigário de poderosos do sistema financeiro, quando há assimetria de informação. Embora a ideia da impossibilidade da autorregulação do mercado já fosse dada como certa na década de 1950, o trabalho deStigliz, com seu “The market for lemons”, onde olemons se refere a carros usados em mal estado no mercado dos USA, mostrou com equilíbrios de Teoria de Jogos que havendo assimetria de informações o mercado tende para situações extremamente negativas. Quem vai comprar o carro, não sabe o real estado dele, e faz reserva para um concerto, assim nunca paga o que um carro em bom estado vale. Assim, quem tem um carro em bom estado, evita vendê-lo por não receber o real valor do carro. Quem tem um carro ruim, quer se desfazer dele. Aí, o grosso dos carros do mercado de usados são carros em mau estado. A questão é quão ruim está cada carro. A partir daí, este pesquisador provou a incapacidade de autorregulagem de vários mercados, incluindo o mercado de trabalho.

Mas o marketing de gente que ganha com as falhas do dia a dia vai na direção contrária. No jornal da manhã na Globo tem a pérola: “A Petrobras está mantendo artificialmente os preços”. Inconscientemente esta pessoa é adepta do “Ganhe mais agora e quebre seu cliente.” Nesta hora se vê, como seguir a volatilidade de preços sem critério, para ganhar mais no curto prazo, põe em risco o futuro de uma empresa, e quanto menor a empresa, maior o risco de seguir esta política. Não há programa de fidelidade que resista se a empresa que o tem flutua preços, e o concorrente procura atender o melhor que pode o interesse de seu cliente. Se dá lucro com o preço atual, será que a melhor opção é sempre subir o preço quando o mercado tem escassez? Subir quanto, proporcional ao mercado internacional, o só o suficiente para ter um colchão financeiro para épocas de vacas magras? Não se pode esquecer que as metas de qualquer sociedade, comunidade, empresa, município, cidade ou país afetam sua autorregulação.  Se a meta não é clara, como o atender a todo mundo, não há nenhuma prioridade e todos ficam perdidos, agem tal e qual baratas tontas, se a meta é o lucro máximo, ao longo do tempo o nível de ética interno cai, e esta queda gera problemas graves, fora que maximizando o lucro a curto prazo a empresa inova menos e perde competitividade. Se a empresa despreza o interesse dos empregados para ter maior lucro a curto prazo, eles vão ser menos leais a ela. Os melhores vão para outras empresas, as pessoas também param de dar boas sugestões, e até de apontar problemas. Se a meta é atender bem ao consumidor para ter o maior número de consumidores possíveis e não ter margem por item alta, mas altos volumes de venda só com lucro o suficiente para se expandir e sobreviver, tudo melhora.

Mesmo quando se quer acertar, há falhas não propositais. É só ver o caso da Raizen, em crise financeira. A Shell tem capacidade de fazer uso de pirólise de bagaço de cana e gerar com ele diesel via síntese de Fischer-Tropsch? Qual a dificuldade de adaptar este processo em uso para tirar do petróleo exatamente a composição de produtos que o mercado pede, que ela usa em suas refinarias holandesas, para produção de diesel de bagaço de cana, com suporte de energia solar, hidrogênio de eletrólise, e eventualmente biogás? Será que a opção álcool de segunda geração foi a melhor? Quanto o desconhecimento da capacidade de formação de mão de obra, para operação de mini refinarias pesou na decisão? Por que cana e não milho? Tanto o bagaço de cana, como sabugo, palha e talos do milho são similares. Falhas humanas sempre acontecerão, mesmo quando as pessoas agem de boa fé. Há métodos para reduzi-las ao máximo, mas acabar com ela é impossível. Daí o princípio da impossibilidade deArrows, o Nobel mais novo da história com sua “Teoria do Equilíbrio Geral” aplicada a economia. “É impossível ter-se um método de tomada de decisão perfeito, infalível”, mas como ele mesmo mostrou, alguns métodos são melhores que os outros. Seguir um influenciador a mando de alguém que quer faturar alto com a ignorância do público, certamente não é o melhor método, afinal influenciadora ligada a bet e a bicheiro já teve.  A dúvida é quanto a grande mídia erra por motivos diversos, como por exemplo estar presa a teorias econômicas arcaicas, em geral falhas e qualitativas, já que no passado não se tinha nem ferramentas matemáticas, nem suporte de outras teorias, nem informação para formular algo realmente eficaz. A mídia fazer de algo irrelevante um falso escândalo para encobrir algum escândalo? Na divulgação de escândalos há alguma influência dos principais anunciantes?

Tomemos o equilíbrio de coalizões, alvo do valor deShapley. A economia vai bem sem conflitos entre capital e trabalho quando todos estão contentes. O valor deShapley diz que uma coalizão é estável se todos recebem a média de aumento de ganho da coalizão com a entrada deste alguém na coalizão. Se alguém deixa de atrapalhar há ganho para a coalizão. Só que a tecnologia, crescimento da população e eventos climáticos adversos mudam os valores desta entrada. Aí uma coalizão,Volkswagen e transportadora fica instável porque o mundo mudou, por exemplo porque o mercado encolheu, e há menos para repartir. Tem-se jogos de atrito, para ver até onde o outro lado aguenta antes de desistir de algo, como por exemplo guerra de preços. Os diversos jogos do emprego, exemplos máximos do uso do valor de Shapley, que vão desde o caso do monopólio, onde o monopolista fica com metade de tudo se sua produção for totalmente absorvida e ainda mais se não puder colocar tudo no mercado, a casos onde com oferta de capital abundante e competição entre setores produtivos adequada, 80% ficam com a turma que trabalha. Variantes doJogo do Prisioneiro são usadas para avaliar se regras evitam ou não ações lesivas ao bem comum. Jogos deOpções Reais embasam a rodo decisões das empresas. Quando só se contratar se o total de empregadores for maior que o total de pessoas com trabalho, exemplo doméstica em casas com uma só, com 2 patrões,P1 eP2 e 3 empregadas,E1, E2, E3, uma fica de fora. Aí se tem, 28 entradas em 120, onde uma empregada dá ganho, cada uma que acha emprego recebe 7/60 e cada patrão 23/60, injustiça que some com mais opções de trabalho. É só escrever todas as coisas tipoP1E1P2E2, P1E1P2E3, P2E3P1E1, E1P2P1E1 e sair contando. Por isto, faltam empregadas domésticas em países avançados onde há outras oportunidades de trabalho. No caso ou o estado intervém, melhorando as regras, em especial seguro-desemprego, ou falta empregada nas áreas mais avançadas do país, e há problemas de abusos de patrões nas áreas mais atrasadas.

É impossível se analisar algo complexo sem método iterativo, daí o uso doMétodo de Pugh. Nele se coloca na rodada inicial em uma matriz, soluções ou hipóteses numa linha ou coluna, e na outra dimensão requisitos ou fatos que comprovem tal hipótese. Escolhe-se uma solução ou hipótese de referência, idealmente de forma que o desbalanço entre itens onde as soluções são melhores e onde as soluções são piores que a referência seja mínima, tomando como igual a referência em um tópico, todo item de uma solução que não se possa dizer com certeza se a referência é pior ou melhor. Aí parte-se para a obtenção de mais alternativas de solução ou hipóteses alternativas. Quando há muitas, fica difícil se achar mais, e depois atender a um dado número de requisitos não garante atender aos novos. Aí em qualquer ordem: se sobe o número de critérios, requisitos ou fatos comprovadores de hipóteses; e se elimina boa parte das piores opções. Isto é feito via consenso, com 6 a 15 pessoas por grupo e troca de informação entre grupos, para não faltar informação e criatividade, nem se ter dificuldades de comunicação. Consenso não implica no não uso de outros métodos multicritério para esclarecer a situação e obter justamente este consenso. Uma hora, se chega a um conjunto limite de opções que o grupo é capaz de obter, e aí se avalia este grupo em detalhe com um bom método multicritério, ou vários, usando estatística deKendall, aquela originalmente criada para avaliar desvios de jurados em concursos de qualidade de vinhos, para achar o mais apropriado. Isto é bem melhor que seguir o influenciador errado.  Será que agricultor que não colhe por falta de diesel gerada por eventual movimento especulativo, relacionado a crise Irã-USA-Israel, vai continuar crendo piamente no mercado?

Se as pessoas conhecessem isto, como muitas grandes empresas conhecem e usam para tudo, inclusive algumas para manipular a opinião pública, fariam decisões melhores, principalmente na hora de avaliar o que a mídia prega, o que candidatos pregam e tudo o mais. Quando se avalia uma colocação ou qualidade de um item quanto a um problema, dá para usar mais ou menosPugh, mesmo com equipe inadequada, em conversas de família. Visto o que é correto, olha-se o que o número de opções limitadas de escolha que temos, sejam de voto ou compra de carro, e dentre o que se tem, escolhe-se a menos ruim. Afinal, os carros usados a venda não serão iguais a um carro zero km, bem mais caro, e as opções de voto são estabelecidas pelos partidos, e não temos como fugir delas.

Luís Antônio Waack Bambace. Engenheiro Mecânico. PhD em Aerodinâmica Propulsão e Energia.

Vicente Cioffi. Engenheiro Ambientalista. Especialista em meio ambiente, auditoria e perícia ambiental.  Membro da coordenação do Fórum Permanente em Defesa da Vida.

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  1. Rui Ribeiro

    12 de março de 2026 8:28 am

    Adam Smith deve estar muito feliz no seu túmulo. Com sua mão invisível, o mercado é perfeito. Qualquer imperfeição do mercado deve ser debitada às pessoas. Só que não. As pessoas vivem em função do mercado, em vez do mercado existir e funcionar em função das pessoas.

    No livro intitulado “Ideologia Alemã”, O Marx escreveu:

    “A história não é mais do que a sucessão das diferentes gerações, cada uma delas explorando os materiais, os capitais e as forças produtivas que lhes foram transmitidas pelas gerações precedentes; por este motivo, cada geração continua, por um lado, o modo de atividade que lhe foi transmitido mas em circunstâncias radicalmente transformadas e, por outro, modifica as antigas circunstâncias dedicando-se a uma atividade radicalmente diferente. Acontece por vezes que estes fatos são completamente alterados pela especulação ao fazer da história recente o fim da história anterior: é assim, por exemplo, que se atribui à descoberta da América o seguinte objetivo: ajudar a eclodir a Revolução francesa. Inserem-se deste modo na história os seus objetivos particulares. que são transformados numa «pessoa ao lado de utras pessoas» (a saber, «Consciência de si, Crítica, Único», etc.), ao passo
    que aquilo que se designa pelos termos «Determinação», «Objetivo», «Germes», «Idéia» da história passada é apenas uma abstração da história interior, uma abstração da influência ativa que a história anterior exerce na história recente.

    Ora, quanto mais as esferas individuais, que atuam uma sobre a outra, aumentam no decorrer desta evolução, e mais o isolamento primitivo das diversas nações é destruído pelo aperfeiçoamento do modo de produção, pela circulação e a divisão do trabalho entre as nações que daí resulta espontaneamente, mais a história se transforma em história mundial. Assim, se em Inglaterra se inventar uma máquina que, na Índia ou na China, tire o pão a milhares de trabalhadores e altere toda a forma de existência desses impérios, essa descoberta torna-se um fato da história universal. Foi assim que o açúcar e o café demonstraram a sua importância para a história universal no século XIX, quando a carência desses produtos, resultado do bloqueio continental de Napoleão, provocou a rebelião dos Alemães contra aquele general, transformando-se assim na base concreta das gloriosas guerras de libertação de 1813. Daqui se depreende que esta transformação da história em história universal não é, digamos, um simples fato abstrato da «Consciência de si», do Espírito do mundo ou de qualquer outro fantasma metafísico, mas uma ação puramente material que pode ser verificada de forma empírica, uma ação de que cada indivíduo fornece a prova no ato de comer, beber ou vestir-se (47) A bem dizer, também é um fato perfeitamente empírico o de, na história passada, com a extensão da atividade ao plano da história universal, os indivíduos terem ficado cada vez mais submetidos a um poder que lhes era estranho – opressão que tomavam por uma patifaria daquilo a que se chama o Espírito do mundo -, poder que se tornou cada vez mais maciço e se revela, em última instância, tratar-se do mercado mundial. Mas é também empírico que esse poder tão misterioso para os teóricos alemães, será abolido pela supressão do atual estado social, pela revolução comunista e pela abolição da propriedade privada que lhe é inerente; a libertação de cada indivíduo em particular realizar-se-á então na medida em que a história se for convertendo totalmente em história mundial. A partir daqui, é evidente que a verdadeira riqueza intelectual do indivíduo depende apenas da riqueza das suas relações reais. Só desta forma se poderá libertar cada indivíduo dos seus diversos limites nacionais e locais, depois de entabular relações práticas com a produção do mundo inteiro (incluindo a produção intelectual) e de se encontrar em estado de poder beneficiar da produção do mundo inteiro em todos os domínios (criação dos homens). A dependência universal, essa forma natural da cooperação dos indivíduos à escala da história mundial, será transformada pela revolução comunista em controlo e domínio consciente desses poderes que, engendrados pela ação recíproca dos homens uns sobre os outros, se lhes impuserem e os dominaram até agora. como se se tratasse de poderes absolutamente estranhos. Esta concepção pode, por sua vez, ser interpretada de forma especulativa e idealista, quer dizer, fantástica, como «auto-criação do Gênero» (a «sociedade como sujeito»), representando-se através dela a sucessiva série de indivíduos relacionados entre si como um único indivíduo que realizará o mistério do engendrar-se a si mesmo Aqui poderemos ver que OS indivíduos se criam uns aos outros, tanto física como espiritualmente. mas que não se criam a si mesmos nem na disparatada concepção do São Bruno (48) nem no sentido do «Único», do homem «feito a si mesmo»””.

    Não acho que o mercado seja perfeito e que sejam as pessoas que o tornam imperfeito.

  2. Rui Ribeiro

    13 de março de 2026 9:48 am

    As pessoas são moldadas pelo mercado. Se o mercado não é perfeito, imagine suas criaturas

  3. JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO

    21 de março de 2026 7:20 am

    Se podemos definir a perfeição como estática, nem as pessoas, nem o mercado nem coisa nenhuma é perfeita, pois estão em movimento perpétuo. Assim, quando usamos a palavra perfeição, ela significa apenas força de expressão.

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