Reflexões sobre exploração de petróleo na foz do Amazonas
por Luís Antônio Waack Bambace e Vicente Cioffi
A área da foz do Rio Amazonas, onde se pretende ver se há petróleo e eventualmente explorá-lo, é uma área sensível. Nos locais onde estão os blocos de exploração em análise, e em decorrência perto de possíveis pontos de execução de perfurações, foram identificados extensos ambientes de recifes formados por esponjas, corais e algas calcárias, que prestam relevantes serviços ecossistêmicos e que são muito importantes à manutenção de recursos pesqueiros (Moura et al, 2016; Francini-Filho et al, 2018). Vê-se a proximidade preocupante dos corais e áreas de exploração com ajuda de um polígono ancorado em pontos singulares comuns de figuras disponíveis quanto a posição de ambos, em especial nos círculos verdes, com quadriláteros em laranja, na figura da direita, como sendo as áreas sob responsabilidade da PETROBRAS.

Uma pesquisa no Google sobre corais diz o seguinte: “Recifes de corais, que cobrem menos de 1% do fundo do oceano, abrigam cerca de 25% de todas as espécies marinhas conhecidas. Apesar de ocuparem uma área relativamente pequena, são ecossistemas de alta biodiversidade e vital importância para a vida marinha.” Com as áreas disponíveis na Wikipédia para os corais da Amazônia e o total mundial, os corais sob ameaça são de 2,67 a 16,1% do total de corais do mundo, respondendo por 0,67% a 4% de toda a vida marinha do planeta. Assim, estes corais são importantes para a formação de estoques pesqueiros bem como os mangues da costa próxima, que tem impacto neste tópico tão grande ou ainda maior que estes corais, e que segundo a documentação pública do MPF também estão sob risco.
Estimativas de órgãos ambientais baseadas em correntes marinhas da área, dão chances do óleo atingir manguezais ou corais de 80 a 100% em caso de vazamento de petróleo. Em pleito anterior da OGX, análises indicaram riscos intoleráveis nas áreas vulneráveis do Banco do Tarol, Banco do Álvaro, Parque Estadual Marinho do Parcel Manuel Luís, manguezais, planícies de maré e Unidades de Conservação costeiras, o que levou a negativa da licença de perfurações exploratórias (blocos BMPAMA-13, 14, 15, 16 1 e 17). Forçar a saída do óleo via bombeamento ou gás eleva o risco de vazamento. O terreno pode se fraturar, o que pode ter ocorrido no Campo do Frade, RJ, em 2011. Se a pressão não excede a original do poço, não se põe mais carga nas rochas e o risco cai. Mas se numa extração forçada se tem pressões de trabalho variadas, há risco de fadiga assimétrica, que é a com carga oscilatória mais estática. Nossa lei não limita a pressão usada.
A identificação de pontos sensíveis, mostrou que a área de corais é bem maior do que se supunha na época do pleito da OLX. Assim devem ser adotadas medidas de precaução até que o aumento do conhecimento e a criação de um conjunto de áreas protegidas permita se ter uma ideia mais precisa do custo e do risco de se explorar petróleo na área. Um primeiro desafio envolve os blocos mais perto do litoral, que ficam junto à divisa do Maranhão com o Piauí, pois possíveis acidentes podem levar óleo à costa. Costa que tem áreas altamente sensíveis, com áreas de manguezal, parques, unidades de conservação, áreas úmidas e de restinga. São áreas relevantes para pesca e turismo, que geram renda a populações da área. Em muitas das áreas sensíveis, é impossível se instalar bases de apoio para suporte a emergências.
Só que além da questão de vida marinha, pesca e turismo, há a questão do aquecimento global, e da importância dos corais da área para fixar carbono. Há medidas de fluxo de carbono como CO3– em Óbidos, perto da divisa do Pará com o Amazonas. Lá passam 2,164x1012 moles de carbonato por ano (Probst et al. Carbon river fluxes and weathering CO2 consumption in the Congo and Amazon river basins. Applied Geochemistry, v. 9, 1994). Ou seja, passam por ano em Óbidos 31,4 milhões de toneladas de carbono dissolvido na água do Rio Amazonas. Segundo a Agência Nacional de Águas, 2007 a vazão média em Óbidos é de 168 mil m3/s, contra 210 mil na foz. Mantendo as concentrações de Óbidos vão se ter 39,4 milhões de toneladas de carbono dissolvido como carbonato lançadas ao mar. Vários artigos mencionam que há ainda material orgânico particulado sendo levado ao mar, seja via caroços e afins que caem na área alagada, seja via terras caídas. Há uma certa concordância que este volume beire 1/3 do volume de carbono dissolvido. Estamos falando de cerca de 52 milhões de toneladas de carbono que o rio lança no mar todo ano. Vários rios, inclusive rios do Pantanal e São Paulo, tem teor típico de carbono dissolvido de 20 g/m3, o que para os 210 mil m3/s da foz dariam 132 milhões de toneladas de carbono dissolvido por ano, lançados ao mar. Como a troca líquida anual do mar com a atmosfera na área tem média praticamente nula (Ternon et al. A seasonal tropical sink for atmospheric CO2 in the Atlantic ocean: the role of the Amazon River discharge. Marine Chemistry, v. 68, n. 3, p. 183-201, 2000), todo este carbono é levado para longe por correntes marítimas, ou o mais provável, fixado em conchas e corais na área. Manguezais são importantes berçários de espécies marinhas (doi.org/10.3390/f13101545) e tem 1,696 trilhões de toneladas de biomassa ante 6 trilhões totais de toda a vida marinha (Google search). Quanto mais perto do Equador mais biomassa por área tem um mangue. Assim mangues e corais da região podem ter perto de 7% de toda biomassa de vida marinha do planeta. Mangues podem absorver muito mais carbono por unidade de área que qualquer floresta. Eles tiram 180 milhões de toneladas de carbono ao ano da atmosfera (Twilley et al. Carbon sinks in mangroves and their implications to carbon budget of tropical coastal ecosystems. Water, Air, and Soil Pollution 1992). O enorme estoque de carbono da vida da área será liberado se ela sumir, bem como sem ela, vai se deixar de tirar grandes da atmosfera volumes de CO2. Análises do IBAMA devem seguir leis atuais que ainda não limitam emissões de gases de efeito estufa.
Quando se fala em mudanças há a questão do novo sistema ser mais ou menos invasivo. Quanto mais modificações num sistema social um novo sistema provoca, mais invasivo ele é. Quem é afetado negativamente reage, e aí, quanto mais invasivo um sistema, mais difícil implementá-lo. Biocombustíveis só mexem com o setor de combustíveis fósseis, dependendo de sua natureza, podem ter uso direto em veículos já existentes, como o biodiesel. Biogás pode ser usado no aquecimento doméstico, motores diesel/biogás, e por aí vai. Define-se índice de colheita como o total de matéria seca utilizado de uma planta sobre o total de matéria seca dela. Quando só se usa os grãos de uma colheita de cereais o maior valor de laboratório é do arroz, 0,55. Trigo tem este índice em 0,4 no laboratório. Mas se a chuva não for a ideal, a insolação for inadequada este índice cai. No Paraná nas safras de milho e soja, são perto de 70% do ideal de laboratório. Se não chove no enchimento de grãos, por exemplo, a produção cai. Assim é padrão se considerar que para cada tonelada de grãos colhida, outra de resíduos agrícolas, com mais de 90% de carboidratos, ficou no campo. Assim só as 350 milhões de toneladas de grãos da última colheita geraram no mínimo 315 milhões de toneladas de carboidrato num ano, que tem a energia de 3,05 milhões de barris de petróleo ao dia. Só que há outros resíduos e parte da palhada de grãos as vezes é dada ao gado. Mas despeito dos outros usos, 500 milhões de toneladas de resíduos agrícolas secos não são aproveitados no país. Sua energia supera a de 4 milhões de barris dia. E há como se aproveitá-los a baixo custo.
Resíduos assim podem virar biogás, com aproveitamento muito alto se forem usados biodigestores de maior temperatura. O comum, mesofílico, não decompõe cadeias de carboidratos maiores, os termofílicos sim. Biodigestores de fluxo contínuo de dupla capa plástica transparente separada por telas de polímero, placa de espuma preta sobre boa parte da zona de resíduos, material de mudança de fase para impedir queda de temperatura na zona quente, uso do gás e sensores para circular água quente se for necessário manter aquecidos pontos críticos em longos períodos frios, são promissores em termos de transformar o grosso da biomassa em gás, e o biochar destes biodigestores pode gerar combustível via pirólise com novas técnicas. Aí, motores diesel/biogás, como os de São Gabriel do Oeste, MS (EMBRAPA – Retífica Centro Sul), podem gerar energia em propriedades rurais, tocar o maquinário agrícola, ou entregar excedentes de energia a fábricas locais e até a cidade. Mais, motores de gerador elétrico linear de dois graus de liberdade, sem girabrequim que operam ora no ciclo de Otto/Diesel, ora no ciclo de Atkinson-Miller, podem elevar o rendimento no biogás de motores similares aos de São Gabriel, dos atuais 43% a mais de 54%, ver CN212130626U. Soluções assim, baixam o custo da agricultura, geram renda extra via venda de energia, reduzem o custo dos alimentos no país e o consumo de diesel. Hoje o país exporta óleo cru e importa diesel, por falta de capacidade de refino. Resíduos secos também podem virar combustível diretamente via pirólise ou síntese de Fischer-Tropsch, da qual o GTL um é bom exemplo. Aí, com perdas e tudo, ao menos 2,7 milhões de barris dia de petróleo podem vir de resíduos agrícolas. Reivindicações eficazes da CN100577464C, de 2007, travaram a CN212130626U. O texto “um ou mais geradores elétricos lineares em montagem adequada” impediu a posterior.
Microalgas crescem muito, e podem ser cultivadas em valas com água e recirculação via uso de energia solar. No sertão da Paraíba, já se fez testes, em 2005, de uso de água salobra do subsolo, mineralizada, para cultivá-las, obtendo-se mais de 300 toneladas de álcool etílico por hectare e ano, a custo muito baixo, menos de 10 dólares o barril de álcool em valores da época. Assim o barril equivalente de petróleo ficava abaixo de US$ 13,5 na época. Venhamos e convenhamos, mesmo se ajustando o valor do dólar para o atual, este combustível é bem mais barato que o petróleo, e sol e água salobra tem de sobra no sertão. Na Califórnia postos vendem biodiesel de alga unicelular a US$ 0,75/galão, sem imposto não dá 0,50/galão.
Uma usina reversível usa sobras de energia da rede elétrica para levar água a um reservatório elevado, e nos momentos de escassez de energia na rede, desce esta água e devolve energia a rede. Seu custo pode ser irrisório, menos de US$ 30 o kW de potência instalada, por exemplo, ao se ter duas hidrelétricas de reservatórios contíguos, onde uma usina deságua no lago de outra, ou ao se ter reservatórios e lagos próximos um no alto da serra e outro na região inferior e um grande desnível. O Brasil, que pouco usou tal opção, pode fazer reversíveis a custo bem menor que de novas usinas de países desenvolvidos, onde e explorou demais tal recurso. Baterias são mais caras que elas. Energia solar está cada dia mais barata, guardando energia em usinas reversíveis, o custo total de instalação das reversíveis de certo ficará abaixo do custo de manutenção anual das termelétricas a gás em prontidão e sem gerar energia. Já se descarta energia eólica e solar, pois os picos de geração e consumo não coincidem. Mas sabe-se lá porque se dá ênfase a tais termelétricas.
Há ainda a produção de hidrogênio ou de amônia via energia solar. Amônia gera óxidos de nitrogênio na queima, que são perigosos, mas o risco não será alto para navios em alto mar. Hidrogênio tem alta energia por massa, mas tem pouca massa por volume de gás e é difícil de guardar. Guardá-lo liquefeito pode ser solução, a medida que tanques que usem camada de nanoporos perto da parede, possam evitar sua mudança de fase graças ao fenômeno de condensação capilar, regido pela equação de Kelvin. Algo nesta linha está presente na US20210129662 da GM, embora tal patente a expirar em 2040 não explicite tal vantagem. Supercapacitores de superdielétricos superarão as baterias em capacidade de armazenagem em uma ou duas décadas. Eles e as baterias de sódio-íon não terão tanto impacto ambiental relacionados a mineração como as baterias de lítio-íon. Ímãs muito poderosos tem impacto ambiental associado a mineração alto nos dias de hoje. Mas provavelmente dá para melhorar este aspecto.

Energia eólica será muito mais barata, se os geradores de rotor único e eixo horizontal, derem espaço a versões de rotor e contrarrotor, eólicas de Darrieus helicoidais de eixo vertical, geradores eólicos em balões, e geradores balões pipas. As eólicas de eixo horizontal e rotor único, tem torques muito elevados no pedestal, já as de rotor e contrarrotor de eixo horizontal, seja de rotor a jusante menor ou de mesmo tamanho, tem torque nulo no pedestal. Ambas tem problemas com queda de raios nas pás, que são trocadas periodicamente, elevando o custo de sua energia. Já as Darrieus citadas, tem oscilações de torque, que são reduzidas com montagem axial de vários rotores defasados angularmente. Mas elas não tem problemas com raios. Ilustra-se vários tipos de geradores eólicos, e destaca-se que os em voo aproveitam ventos de maior velocidade. O Magenn, balão com gerador interno e elementos aerodinâmicos similares aos de rotores de ventilação de galpão, é muito vendido pra uso em fazendas na América do Norte, se vem a chuva recolhe. Ele ainda usa o efeito Magnus, para obter mais sustentação e ter menos problemas quanto a ser arrastado pelo vento. O Air Strip, é uma mistura de paraquedas de velame variável e balão, com comando elétrico, gera energia em vai e vem com gerador linear no solo. Como se protege dirigível de raio? Tal como empresas da área de combustível fóssil abusam de poder e influência, parece que gigantes da área de energia renovável usam sua influência para manter no mercado soluções caras e já ultrapassadas, ou que tem sérios impactos ambientais escondidos relativos a mineração. Ao agir assim, não conseguem deslocar os combustíveis fósseis, como o fariam se apostassem em melhores produtos. Pior, algumas opções coordenadas com o poder público local tem problemas. Por exemplo, se tiver só ônibus elétrico em São Paulo, e houver outro apagão prolongado, como o que gerou acusações sérias a Enel, e até ameaça de cancelamento da concessão, como fica a população? Se tiver gerador de emergência em finais de linha, quem toma conta? O debate de transição energética está longe de ser transparente. E precisa se ser mais transparente para que possamos salvar o planeta. Mais este debate tem de gerar um cronograma de transição viável, livre de pressões para aumento de ganho imediato de grandes corporações. Aí vai se saber claramente o que é melhor a curto e longo prazo, e não se desperdiçará tantos recursos nesta transição. Afinal, todo conflito gera desperdício, e muitas soluções estão impondo ônus desnecessário ao consumidor.
O fato é que os combustíveis fósseis provavelmente já não são a opção mais econômica para a expansão da capacidade de geração de energia, e isto talvez já seja verdade até para a manutenção da capacidade de geração. Assim, não há necessidade de se expor o planeta aos riscos que o sistema de energia o expõe hoje. Transição é transição, precisa de muito trabalho para fazer a usina nova, e a velha está aí. Mas os danos do que se tem hoje, já exigem muito trabalho de reconstrução de casas, linhas de transmissão, estradas, fábricas (e que o diga a Toyota que sofreu em Porto Feliz).
O fato é que o IPCC alerta para problemas muito sérios e inviabilidade de vida humana e agricultura em extensas áreas do planeta, se não se cortar o uso de combustíveis fósseis. O maior vilão é o carvão, o segundo o petróleo, e o terceiro o gás natural. O ideal é que em 2040, ou seja, daqui a 15 anos não se use mais combustíveis fósseis. Aí vem a questão: Investir em tirar petróleo tira recursos do desenvolvimento e aproveitamento adequado de outras fontes de energia renováveis ou limpas? Vale a pena fabricar mais plataformas de petróleo, e tirar óleo, com este horizonte de 15 anos de uso deste combustível? Qual o papel de grandes fabricantes de equipamentos da indústria de petróleo, como Barker Hughes, Schlumberger, Halliburton e Weatherford na questão da exploração ou não da Foz do Amazonas? E no avanço de fontes renováveis?
Nossa diplomacia obteve em curto prazo soluções para desovar produtos atingidos pelo tarifaço. Não será ela capaz de pavimentar um caminho para exportar novos itens, em vez de petróleo cru? A PETROBRAS, a maior inovadora e depositantes de patentes do país, não é capaz de gerar muita tecnologia de energia nova e renovável? Vale a pena arriscar o planeta, matando a vida numa área que é provavelmente um dos maiores sumidores de carbono do planeta, tornando mais difícil mitigar os efeitos da crise climática? A inércia, nos leva a agir usando soluções já existentes, a pensar mais no curto prazo que no longo prazo, a considerar alguns tipos de risco e não outros. Toda e qualquer empresa tem conflitos internos. Estes comportamentos inerciais provavelmente irão nos colocar no caminho do desastre. Muita gente se apoia na falsa ideia de que o que já se faz não tem riscos, mas os desastres já batem na nossa porta.
Luís Antônio Waack Bambace – Engenheiro Mecânico – PhD em Aerodinâmica Propulsão e Energia.
Vicente Cioffi – Coordenador no Forum Permanente Em Defesa da Vida
Rui Ribeiro
4 de novembro de 2025 10:21 amEstudo mostra que reflorestar matas ciliares pode ser lucrativo.
E se o estudo mostrasse que não fosse lucrativo reflorestar as matas ciliares?
Independentemente de ser lucrativo reflorestar as matas ciliares, não reflorestar tais matas é prejudicial econômica e ecologicamente.
Foi o lucro que levou ao desmatamento.