Não faremos revolução alguma sem o capital, por Álvaro Miranda

Mais uma vez repito o que não é nenhuma originalidade, apenas procurando corroborar e disseminar questões postas por muitos outros. Uma delas, a necessidade de aprendermos com outros países, sem precisar copiá-los

Não faremos revolução alguma sem o capital, por Álvaro Miranda

A saída da Ford do Brasil não é nenhuma “maldade” da multinacional com o povo brasileiro. Apenas segue sua lógica da valorização do valor no processo social do capital. As transformações do capitalismo que costumamos chamar de “globalização” implicam essa movimentação na busca de mercados, além das mudanças na forma do próprio capital.

Aqui, de um lado, o governo pusilânime acusa-a de ir embora por causa de problemas de subsídios, uma mentira, a questão central não é essa. De outro, economistas entrevistados pelo Jornal Nacional falando uma linguagem para enganar o povo, linguagem que o povo não entende, com mantras do tipo “risco Brasil”, “segurança jurídica”, “reformas estruturais”, tributos, “competitividade” e “produtividade”.

Competitividade e produtividade de quem? Quiséramos nós poder falar dessas categorias econômicas se tivéssemos empresas nacionais construindo o capital em território brasileiro num mercado onde houvesse também empresas de vários países, seguindo a lógica da expansão do sistema.

Sai a Ford, entra outra grande corporação estrangeira, que fica por um tempo explorando os trabalhadores e mandando dinheiro para suas matrizes nos países de origem e sem também transferir tecnologia.

Isso tudo também sem “maldade” ou “perversidade” de capitalistas, reificados na exploração (e reificação) dos trabalhadores. Mas sim dentro da lógica mencionada acima, isto é, na imanência e nas contradições da expansão capitalista, com suas crises decorrentes, dentre outras coisas, da queda tendencial da taxa de lucro.

Mais uma vez repito o que não é nenhuma originalidade, apenas procurando corroborar e disseminar questões postas por muitos outros. Uma delas, a necessidade de aprendermos com outros países, sem precisar copiá-los, mesmo porque seria impossível, como China e Índia, dentre outros, o primeiro com suas experiências de reinvenção do capital nas últimas décadas. Há farta literatura sobre o assunto por aí. Aprender com outros países não é colonizarmo-nos, mas sim enfrentar a própria expansão a capitalista. Vejam: expansão não é sinônimo de desenvolvimento, mas sim, no caso, de um processo portador de crises.

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Ou certos setores da esquerda acham que faremos a revolução por decreto sem o capital, apenas com o povo nas ruas?  Que a revolução se dará a partir da destruição de bancos, de indústrias, de cadeias produtivas, e voltamos todos para o mato cantar e dançar para fazer chover? Nós almejamos o fim do capital, mas a partir dele, como nos ensina Marx, e não a partir apenas da teoria. Seu fim (sua destruição) só pode acontecer a partir das contradições dele mesmo e do desenvolvimento das forças produtivas – e não a partir da vontade de teóricos.

Só um exemplo: não tem essa na China de privatizar tudo. Lá, o governo empreende políticas dentro de um processo de convivência entre empresas nacionais e internacionais. O governo é um planejador e um coordenador do mercado, e não um desmantelador do país, como vem acontecendo no Brasil desde 2016. E não um gerente capacho de um negócio, tipo “Brasil Delivery”, título bastante sugestivo de um livro da economista Leda Paulani que reúne pequenos ensaios sobre a trajetória dos governos do PT.

O que vem acontecendo aqui é a maior corrupção, a corrupção mais perversa, que é a destruição do país, com o desmantelamento da Petrobras, a venda do Banco do Brasil, os destroços das cadeiras produtivas, dentre muitos outros exemplos, aí, sim, podendo tudo isso ser considerado uma grande maldade dos representantes eleitos pelo povo contra o povo.

A pergunta é: porque outros países cuidam de suas estatais, como os que mencionei aqui, dentre outros, mesmo dentro da lógica do capital globalizado seguindo seu curso carregado de contradições e conflitos? Não sabemos até quando, verdade, mas nesses países não é essa devastação geral do estado, do país e do povo como que vem acontecendo aqui já algum tempo, antes da pandemia.

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Daí a necessidade, com olho nas eleições de 2022, de interpenetrarmos os problemas políticos e econômicos para pensarmos num projeto nacional de desenvolvimento. Pode ser que tenhamos cometido um erro, sim, ao insistirmos na candidatura do PT em 2018. Falo isso sem problema algum de consciência porque bem sabemos as razões da disseminação do ódio anti-petista pelos golpistas que derrubaram Dilma Rousseff em 2016. O ódio que ainda é disseminado pelos crápulas.

Sempre votei no PT, mas não por causa disso vou deixar de refletir e buscar causas sobre possíveis erros. Minha grande esperança é que certos setores da esquerda ungidos por suas certezas acerca da compreensão do Brasil pensem numa articulação de forças para um projeto para o país. Vale dizer, dentre outras coisas, não passar recibo escorregando no percurso da ponte de um lugar a lugar nenhum das lutas identitárias descoladas da questão nacional. E também se desprendam de sua postura purista de achar que é possível vencer o obscurantismo sem alianças.

Parece até um deboche, por parte de certos setores da esquerda quando aparecem para dar lição de moral nos críticos, alegando que são mais à esquerda, preocupados com a “questão popular” e vociferando que Ciro Gomes seria ligado às elites. Esquecem de dizer que, para ser eleito em 2002, Lula teve que fazer alianças com o capital do José de Alencar, sem falar nas articulações do Congresso que acabaram fortalecendo Eduardo Cunha para chegar à presidência da Câmara, o cara que desencadeou o processo do impeachment.

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Em qualquer situação, para quaisquer objetivos, acertos do presente podem não alcançar os objetivos no futuro e até resultarem em erros não previstos. E erros de agora podem suscitar reações surpreendentes no futuro. Ninguém é dono do futuro. Os capitalistas sempre procuram adiar crises na exploração para manter seus lucros.

Sei que esses setores da esquerda que demonizam Ciro Gomes nem vão dar bola para essas palavras, setores que fazem do silêncio a censura pelo método do “cancelamento”. Vida que segue, mas gostaria muito de que me convencessem sobre o que ainda não conseguiram: por que esse ódio contra Ciro Gomes agora?

Álvaro Miranda, jornalista, poeta, mestre e doutor em políticas públicas, estratégias e desenvolvimento pela UFRJ, atualmente cursando graduação em Direito no Mackenzie-Rio, autor de cinco livros de poesia e do livro “Tribunal de Contas no Brasil: a falsa cisão entre técnica e política”, pela Editora da UFRJ

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3 comentários

  1. Na pena do poeta Álvaro Miranda a gente fica até com pena do coroné cearense de Pinda sendo “demonizado” por setores “radicais” da esquerda, não é?

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  2. Aprender com outros países não é colonizarmo-nos, mas sim enfrentar a própria expansão a capitalista. Vejam: expansão não é sinônimo de desenvolvimento, mas sim, no caso, de um processo portador de crises

    Segundo Engels:

    “Under the freedom of trade the whole severity of the laws of political economy will be applied to the working classes. Is that to say that we are against Free Trade? No, we are for Free Trade, because by Free Trade all economical laws, with their most astounding contradictions, will act upon a larger scale, upon a greater extent of territory, upon the territory of the whole earth; and because from the uniting of all these contradictions into a single group, where they stand face to face, will result the struggle which will itself eventuate in the emancipation of the proletarians”.

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