Neoliberalismo platônico x Aristotelismo esquerdista, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Como fazer a política penetrar num ambiente dominado pela propriedade sem causar uma ruptura com o próprio conceito jurídico de propriedade?

Neoliberalismo platônico x Aristotelismo esquerdista

por Fábio de Oliveira Ribeiro

A vitória da esquerda na Bolívia e a derrota da constituição neoliberal chilena animaram os comentaristas brasileiros. Em razão disso me proponho aqui a lembrar o exemplo da extrema esquerda grega, cujo possibilidade de fracasso sugeri em janeiro de 2015 https://jornalggn.com.br/europa/esquerda-volver-marcham-os-gregos/.

Ao desdemocratizar o Estado o neoliberalismo transformou as eleições num ritual vazio. A fórmula lapidar desse fenômeno foi dita a Yanis Varoufakis (ministro da economia do governo grego de esquerda) pelo representante alemão numa reunião do Eurogrupo: “Elections cannot be allowed to change economic policy.”

Desde que foi criada a principal característica da democracia é justamente o contrário dessa formula.: “Elections are the only way to change economic policy.” Ao perpetuar a crise distributiva impossibilitando à democracia cumprir sua principal função, o neoliberalismo cria um paradoxo. Só é possível se libertar dele restaurando o regime democrático. Mas para fazer isso é preciso destruir as democracias ocidentais desdemocráticas.

Esse paradoxo sugere duas questões intimamente ligadas delicadas. A primeira diz respeito à politica. A segunda diz respeito à economia.

O neoliberalismo operou o deslocamento do poder do Estado (esfera pública) para os Bancos (esfera privada). Como fazer a política penetrar num ambiente dominado pela propriedade sem causar uma ruptura com o próprio conceito jurídico de propriedade?

Fenômeno global, o neoliberalismo criou uma relação permanente de dependência entre os Estados desdemocratizados endividados e os fluxos financeiros que não respeitam as fronteiras nacionais. É possível restaurar a democracia num único Estado?

O que ocorreu na Grécia é extremamente significativo. A vitória da extrema esquerda resultou numa capitulação quase imediata ao neoliberalismo (fato que levou Varoufakis a deixar o Ministério da Economia daquele país). O internacionalismo parece ser a solução. Mas ele esbarra tanto na falta de financiamento quanto na dependência das redes de comunicação virtuais que estão em condição de frear a circulação circular de conteúdos considerados indesejados pelos proprietários dos novos meios de comunicação.

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Uma catástrofe global (estou me referindo aqui à III Guerra Mundial e não à Pandemia, pois ela já está sendo utilizada para reestruturar, consolidar e reforçar o poder neoliberal) me parece ser a única coisa capaz de desativar e/ou destruir os mecanismos que possibilitaram o sequestro da política pela economia e a submissão total dos Estados aos Bancos que governam tudo e todos em quase todos os países. Esse conflito me parece inevitável, mas ele não será o resultado de uma disputa ideológica (como no caso Guerra Fria) e sim da ganância pelo controle das reservas petrolíferas da Venezuela e do Irã.

Aristóteles acreditava que a amizade era a única coisa capaz de preservar a paz social entre ricos e pobres, possibilitando algum tipo de redistribuição de riqueza através da política. A história prova satisfatoriamente que a teoria daquele filósofo grego nunca se transformou em realidade, pois os gregos eram humanos essencialmente humanos. Os conflitos entre nós não são diferentes daqueles que existiam entre eles. O resultado dos nossos conflitos, porém, será muito diferente.

O Estado de bem estar social foi criado sob os escombros da II Guerra Mundial. A III Guerra Mundial, que começará com o uso de armas convencionais e evoluirá rapidamente para um suicídio planetário termonuclear provocará o colapso de todos os Estados, o fim da economia e da política, a destruição do conceito de propriedade e o inevitável comprometimento da vida no planeta. A outra alternativa seria substituição do medo (sentimento que engendra tanto o direito de propriedade quanto o desejo de agredir qualquer um que o desrespeitar) pela esperança (sentimento que permite a cooperação e o compartilhamento pacífico de recursos escassos).

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Uma paz permanente no cemitério planetário parece ser o único futuro plausível. Nesse sentido, quem plantou uma verdade inquestionável no jardim do conhecimento neoliberal não foi Aristóteles e sim Platão.

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